Pedro Acioli*
A Polícia Federal detalhou como funcionava o suposto esquema de espionagem utilizado pelo empresário alagoano Alan Cavalcante do Nascimento e pela esposa, Tayná Vitória Cerqueira Gouveia, presos nessa quinta-feira (18), durante a segunda fase da Operação Rejeito. As informações foram divulgadas pelo g1 Minas Gerais.
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Alan é apontado pela Polícia Federal como líder de uma organização criminosa investigada por fraudes em licenças ambientais no setor de mineração. Segundo as investigações, o esquema teria movimentado cerca de R$ 1,5 bilhão. Apenas entre dezembro de 2019 e dezembro de 2024, o empresário teria recebido mais de R$ 225 milhões de empresas ligadas ao grupo.
As novas apurações indicam que a organização passou a atuar para dificultar o avanço das investigações por meio de espionagem, monitoramento ilegal e ações de sabotagem. De acordo com a PF, Alan comandava a estrutura criminosa, enquanto Tayná era uma das principais integrantes e responsável por parte da coordenação operacional.
O grupo teria acesso ilegal a informações sigilosas que só poderiam ser obtidas mediante autorização judicial ou por agentes públicos devidamente credenciados.
Dossiês incluíam Imposto de Renda e histórico de compras online
Segundo a Polícia Federal, os investigados recebiam relatórios extremamente detalhados sobre seus alvos. Os dossiês continham informações como declarações de Imposto de Renda, histórico de compras realizadas pela internet, registros de vacinação, dados cadastrais e até endereços ligados a serviços de internet.
O nível de detalhamento chamou a atenção dos investigadores. Para a PF, há indícios de participação de agentes públicos ou de uso indevido de credenciais institucionais, já que muitas das informações acessadas pertencem a bases de dados restritas do governo.
Plano previa blitz policial contra ex-esposa de Alan
As investigações também revelaram um plano para simular uma blitz policial contra a ex-esposa de Alan Cavalcante.
De acordo com a PF, a estratégia previa que um policial civil abordasse a mulher sob a justificativa de uma suposta "atitude suspeita". Em seguida, a Polícia Militar seria acionada para realizar teste do bafômetro e rebocar o veículo, criando uma situação que pudesse resultar em um flagrante por embriaguez ao volante.
Mensagens interceptadas mostraram que os envolvidos consideraram desnecessária a vigilância física da vítima, já que o automóvel dela estaria sendo monitorado em tempo real por meio de um rastreador instalado clandestinamente.
As tratativas para a realização da falsa blitz teriam sido conduzidas por Tayná Vitória, que negociou com uma agência de investigação clandestina a contratação de supostos contatos dentro das forças de segurança.
Segundo a PF, o serviço possuía valores previamente definidos: R$ 7 mil para ações em Belo Horizonte e R$ 8 mil para operações em Nova Lima.
Tayná era tratada como "gerente" da operação
Mensagens obtidas pelos investigadores apontam que Tayná exercia papel estratégico dentro da organização. Nas conversas, ela aparece como intermediária entre Alan e empresas especializadas em investigações clandestinas, sendo tratada pelos envolvidos como uma espécie de "gerente" da operação.
Entre os serviços solicitados estavam consultas ilegais de placas de veículos e números de telefone, monitoramento presencial de alvos por 24 horas, elaboração de relatórios sigilosos e pagamentos a donos de agências contratadas para fornecer informações.
Para a Polícia Federal, a frequência dos pedidos, a proximidade entre os envolvidos e até mesmo a oferta de "cortesias" demonstram que o grupo mantinha uma relação constante e privilegiada com a estrutura clandestina.
Juízes e policiais estavam entre os alvos
As investigações também revelaram que o esquema foi utilizado para obter informações sobre um policial civil de Minas Gerais. A PF não informou qual seria o interesse do grupo no agente.
Em outro episódio, os investigados passaram a monitorar um magistrado responsável por analisar um processo de interesse da organização. Após a redistribuição do caso para um novo juiz, Alan teria determinado que fossem levantadas informações detalhadas sobre ele.
Segundo a Polícia Federal, o grupo conseguiu acessar o CPF do magistrado, dados financeiros e até sua árvore genealógica completa. Os investigadores afirmam que os suspeitos identificaram inclusive um primo de primeiro grau do juiz, numa tentativa de estabelecer uma aproximação indireta com o integrante do Judiciário.
STF determinou soltura de Alan em dezembro
Após ser preso em setembrode 2025 e passar meses presos. Em dezembro do ano passado, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, substituiu a prisão preventiva por uma série de medidas cautelares.
Toffoli apontou que o conjunto de medida cautelares determinados por ele são “suficientes para assegurar a aplicação da lei penal, a preservação da ordem pública e econômica, bem como a conveniência da instrução criminal”.
Além de Cavalcante, também foram beneficiados com a medida o ex-diretor da Polícia Federal, Rodrigo de Melo Teixeira, e o ex-deputado estadual mineiro, João Alberto Paixão Lages, e Helder Adriano de Freitas, apontado como articulador do esquema.
Quem é Alan Cavalcante?
Alan tem uma mansão de três andares localizada em um condomínio de luxo no município de Marechal Deodoro, na Região Metropolitana de Maceió, capital de Alagoas. Ele é conhecido por promover três semanas de festa, com direito a pool party e passeios de catamarã.
Uma das festas mais famosas que gosta de promover é a de Réveillon, quando cerca de quinhentos convidados costumam assistir a shows ao vivo, no ano de 2023 foi do cantor de Raí Saia Rodada, cujo cachê pode chegar a 400 mil reais por apresentação.
Até o ano de 2010, Cavalcante nunca havia trabalhado na área de mineração. Ele era envolvido com corridas de motocross e comemorações no modesto quintal da casa em que vivia, em Arapiraca, no agreste alagoano. Ele também já trabalhou como professor de matemática na cidade de Teotônio Vilela e na área de telecomunicações em Arapiraca.
No ano de 2023, ele chamou atenção dos holofotes após participar do Leilão promovido pelo jogador Neymar Jr. Na ocasião, ele comprou um blazer e um cordão de diamantes utilizados pelo craque do Santos pelo valor de R$1.2 milhão, o maior lote do evento.
*Estagiário sob supervisão
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