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Tem mulher fazendo sexo como quem paga a conta de luz: não está exatamente entusiasmada, mas teme as consequências do atraso.
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A comparação pode provocar riso, mas o assunto carrega uma dor que muitas mulheres conhecem bem. Uma matéria publicada pelo jornal New York Post chamou atenção para o chamado mercy sex, expressão que poderia ser traduzida como “sexo por misericórdia”, “por consideração” ou, de forma mais conhecida entre nós, sexo por obrigação, o famoso cumprindo com os deveres conjugais, como se colocando assim tirasse parte do peso da palavra “dever”.
Sem desejo, mas com relações marcadas na agenda
A reportagem se baseia em um estudo publicado no Journal of Sex & Marital Therapy. Os pesquisadores analisaram dados de ensaios clínicos realizados com milhares de mulheres diagnosticadas com transtorno do desejo sexual hipoativo, condição marcada pela falta persistente de desejo acompanhada de sofrimento pessoal.
Mesmo antes de receberem qualquer tratamento, essas mulheres relatavam, em média, de duas a três experiências sexuais por mês. Os autores levantaram então uma pergunta: se elas apresentavam desejo muito baixo ou inexistente, por que continuavam mantendo relações?
Entre as explicações sugeridas estão o desejo de preservar a proximidade emocional, evitar conflitos, satisfazer o parceiro e impedir que ele procure sexo em outro lugar. Em outras palavras, algumas mulheres estariam mantendo a atividade sexual não porque desejavam aquele encontro, mas porque temiam o que poderia acontecer se dissessem não.
A manchete é mais apimentada que o estudo
A reportagem faz parecer que os pesquisadores flagraram uma multidão de mulheres distribuindo sexo por caridade. Não foi exatamente isso.
Os autores analisaram dados anteriores de ensaios clínicos; não entrevistaram cada participante para descobrir o que ela sentia durante cada relação. As motivações apresentadas são hipóteses e não uma sentença aplicável a todas as mulheres, felizmente, porque já basta o imposto de renda querendo saber demais sobre a nossa vida.
Nem todo encontro começa com fogos de artifício
Também é importante não confundir falta de desejo espontâneo com sexo indesejado. Muitas pessoas não começam uma aproximação ardendo em chamas. Aceitam o carinho porque estão disponíveis, curiosas ou emocionalmente próximas, e o desejo aparece durante o encontro, e muitas (eu disse muitas, não todas) mulheres precisam desse tempo para se desligar do cotidiano e focar no momento. São as chamadas preliminares, necessárias para ligar o botão mágico do prazer.
Chamamos de desejo responsivo, comum em relacionamentos duradouros. A pessoa começa neutra, mas participa, desperta e aproveita. Isso está longe de ser sexo por misericórdia.
Outra situação possível é escolher oferecer prazer ao parceiro por afeto, mesmo sem grande disposição. Quando essa escolha é livre, tranquila e não deixa ressentimento, ela pode ser apenas uma forma de carinho entre duas pessoas que nem sempre desejam sexo no mesmo horário, uma coincidência tão rara quanto ambos concordarem sobre a temperatura do ar-condicionado.
O problema começa quando o sexo vira pedágio
O alerta se acende quando uma pessoa aceita o sexo por medo de discussão, abandono, traição ou cara fechada no café da manhã. Quando não existe liberdade para recusar e o pensamento recorrente durante o encontro é “tomara que termine logo” ou “que droga, esse teto terá que ser pintado de novo”.
Nesse ponto, o corpo está presente, mas a pessoa começou a desaparecer da relação.
Diferenças de desejo são comuns. O que não deveria ser comum é uma das partes assumir sozinha a responsabilidade pela vida sexual do casal. Desejo não nasce por decreto, cobrança ou chantagem emocional. Fingir entusiasmo pode evitar uma discussão naquela noite, mas dificilmente recuperará a intimidade perdida, porque a tendência natural é que essa intimidade se perca ainda mais.
Não é a quantidade que revela a qualidade
A falta persistente de desejo pode ter causas físicas, hormonais, emocionais, medicamentosas ou relacionadas ao próprio relacionamento. Quando provoca sofrimento, merece conversa honesta e, se necessário, avaliação profissional.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantas vezes um casal faz sexo, mas quantas dessas vezes os dois realmente puderam escolher estar ali. Porque, quando o sexo vira uma dívida dentro da relação, quase sempre é o desejo de alguém que acaba pagando a conta.
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