Galileu
Colonizar Marte é um dos maiores objetivos da exploração espacial humana, ao lado de missões que envolvam o retorno à Lua. Para isso, empresas espaciais tentam, há anos, entender quais serão as dificuldades para tal missão.
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Em um desses esforços, a NASA equipou o rover Perseverance, que está explorando o solo marciano desde 2021, com pequenos pedaços do tecido que compõe os uniformes espaciais dos astronautas. As amostras têm cerca de 20 milímetros e são usadas para entender como a poeira reage ao entrar em contato com o material, buscando reparar qualquer possível defeito.
Scott VanBommel, professor da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Washington em St. Louis, nos EUA, explica, em comunicado, que “Marte é um lugar muito empoeirado. Os astronautas que forem para lá precisam estar preparados”. O pesquisador também é autor principal do estudo que analisa a relação entre o tecido e a poeira marciana, publicado no último dia 26 de outubro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Entre as principais preocupações dos pesquisadores está o fato de que a poeira marciana é extremamente fina e composta por elementos altamente tóxicos, como enxofre, percloratos, ferro e sílica. Ou seja, se a poeira entrar pelo uniforme espacial e chegar às vias respiratórias, ela pode causar graves danos à saúde e, inclusive, chegar ao cérebro.
Experiências anteriores
Um dos principais motivos para que os pesquisadores levem a poeira em consideração na hora de planejar os uniformes é a experiência que os astronautas tiveram quando pisaram na Lua, nos anos 1960.
Nas missões Apollo, que foram muito mais curtas do que qualquer possível visita a Marte, a poeira lunar arranhava as viseiras e danificava os trajes espaciais. Quando os astronautas retornavam ao módulo, as partículas aderidas aos seus trajes contaminavam o ar e, eventualmente, entravam em seus pulmões, causando sintomas semelhantes aos da rinite alérgica em alguns casos.
Apesar da toxicidade, a poeira marciana não é tão áspera quanto a da Lua. Depois de 1.645 dias marcianos em que as amostras ficaram em contato com o ar, houve pouco desgaste visível no tecido, o que pode ser considerado uma boa notícia.
VanBommel explica que "as partículas na atmosfera marciana foram levadas pelo vento por potencialmente bilhões de anos, então elas tendem a ser bem arredondadas, como pedrinhas em um rio".
Poeira fina e tóxica
Medições anteriores em Marte tinham detectado partículas de poeira com cerca de 3 micrômetros de diâmetro (um fio de cabelo humano tem cerca de 70 micrômetros). Mas dados obtidos pelo instrumento PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry) do Perseverance já mudaram essa percepção.
Ele identificou partículas finas de 2,5 micrômetros e ultrafinas com algo em torno de 100 nanômetros, cerca de 700 vezes mais finas do que um fio de cabelo humano. Na Terra, partículas ultrafinas provenientes da fumaça e de outras formas de poluição atmosférica representam uma ameaça significativa à saúde, pois podem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na corrente sanguínea, chegando até o cérebro.
Os astronautas não respirarão a atmosfera marciana diretamente, mas, segundo VanBommel, os engenheiros precisarão levar em conta esses riscos microscópicos ao projetar habitats, trajes espaciais e filtros de ar.
Os dados do PIXL também permitiram aos pesquisadores analisar a composição química da poeira. Ao contrário do que encontraram na Lua, o material de Marte contém elementos muito tóxicos, como percloratos, enxofre, ferro e sílica. Uma breve exposição a esses compostos não é uma grave ameaça à saúde, mas VanBommel afirma que esse é mais um risco que deve ser levado em consideração para planejar uma missão.
“Já faz mais de 20 anos que estamos operando veículos exploradores na superfície de Marte continuamente”, disse o pesquisador. “Sabemos que a poeira será um desafio, mas é algo para o qual podemos nos preparar e superar.”
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