Por que seu cérebro aprende a gostar tanto de café?

Publicado em 05/11/2026, às 20h43
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Por Galileu

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco descobriram uma via de liberação de dopamina que explica como o cérebro aprende a gostar de alimentos e bebidas, associando sabores aos efeitos que eles provocam no organismo.

O estudo revelou que a dopamina é liberada lentamente após a ingestão de nutrientes, permitindo que o cérebro associe sabores a calorias, o que pode influenciar preferências alimentares ao longo do tempo.

Os cientistas sugerem que essa descoberta pode levar ao desenvolvimento de tratamentos que modifiquem preferências alimentares, possivelmente utilizando medicamentos que alterem a sinalização de dopamina relacionada à recompensa dos alimentos.

Resumo gerado por IA

Para muitas pessoas, a experiência não é das melhores. O gosto amargo pode causar estranhamento no início, mas, com o tempo, aquela bebida que antes provocava caretas se torna indispensável na rotina. Afinal, como o cérebro aprende a gostar de algo que inicialmente não parecia tão saboroso?

A resposta pode estar em uma conexão entre o intestino e o cérebro. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, identificaram uma via de liberação de dopamina que ajuda a explicar como aprendemos a gostar de determinados alimentos e bebidas a partir dos efeitos que eles provocam no organismo.

O estudo, publicado na quarta-feira (4) na revista Nature, mostra que esse mecanismo funciona de maneira mais lenta do que outras vias de dopamina já conhecidas, permitindo que o cérebro associe um sabor aos nutrientes ou efeitos recebidos após o consumo.

"Demonstramos que esse sistema de dopamina de ação lenta é o que nos leva a aprender a gostar de certos alimentos ao longo do tempo, e podemos ver onde e como isso acontece", explica Zachary Knight, professor de Fisiologia da UCSF e autor sênior do estudo, em comunicado. Segundo o pesquisador, depois que o cérebro aprende a associar o sabor do café aos efeitos estimulantes da cafeína, por exemplo, a bebida pode passar a parecer muito mais saborosa.

O caminho entre o intestino e o cérebro

A dopamina é uma substância química que atua como neurotransmissor e participa de processos relacionados à motivação, à recompensa e ao aprendizado. Até agora, grande parte das pesquisas sobre seu funcionamento se concentrava em respostas rápidas, desencadeadas em poucos segundos por estímulos externos, como a visão de uma comida favorita. No entanto, o novo estudo investigou um mecanismo diferente, que responde aos sinais enviados pelo próprio organismo após a ingestão de alimentos.

Quando nutrientes como açúcar e gordura chegam ao sistema digestivo, sensores presentes no intestino detectam sua presença e enviam informações ao cérebro. Isso desencadeia uma liberação de dopamina que se desenvolve gradualmente e pode durar vários minutos.

Para entender melhor esse processo, os cientistas administraram água com açúcar ou um líquido semelhante a um milkshake diretamente no estômago de camundongos, enquanto monitoravam a liberação de dopamina no cérebro dos animais. Ao evitar que os líquidos passassem pela boca, os pesquisadores conseguiram observar a resposta cerebral aos nutrientes sem a interferência do paladar.

Os resultados revelaram uma liberação intensa e prolongada de dopamina em uma região cerebral chamada amígdala basolateral anterior (BLA). Embora os cientistas já soubessem que essa área recebia sinais de dopamina, sua função nesse processo ainda era desconhecida.

Para descobrir se o mecanismo realmente influenciava as preferências alimentares, a equipe realizou outros dois experimentos. No primeiro, bloqueou a via de dopamina identificada. Os camundongos continuaram se alimentando normalmente, mas deixaram de aprender a associar um novo sabor à ingestão de calorias.

No segundo teste, os pesquisadores fizeram o contrário: estimularam artificialmente as fibras de dopamina na região cerebral depois que os animais experimentaram um sabor sem calorias. Mesmo sem receber nutrientes, os camundongos passaram a demonstrar preferência por aquele sabor.

Os resultados indicam que a liberação de dopamina nessa região não apenas acompanha a ingestão de nutrientes, mas também desempenha um papel importante no aprendizado das preferências alimentares.

O que acontece no cérebro humano?

Os pesquisadores também encontraram indícios de que o mesmo mecanismo funciona em seres humanos. Em uma análise de exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET) realizados anteriormente com 13 homens, a psicóloga Dana Small, da Universidade de Yale, observou que a liberação de dopamina se concentrava no lado esquerdo da amígdala basolateral após a chegada de nutrientes ao intestino.

Em outro experimento, conduzido por Marc Tittgemeyer e colaboradores, exames de ressonância magnética funcional realizados em 38 adultos identificaram um aumento da atividade na mesma região cerebral após o consumo de glicose.

Um detalhe chamou a atenção dos cientistas: tanto nos camundongos quanto nos humanos, a resposta aos nutrientes foi mais intensa no lado esquerdo da amígdala basolateral do que no direito.

A descoberta surpreendeu os pesquisadores, já que circuitos cerebrais responsáveis por funções básicas, como a alimentação, geralmente são considerados semelhantes nos dois hemisférios do cérebro. Por enquanto, ainda não se sabe por que essa diferença acontece. A equipe de Knight continua investigando o motivo dessa preferência pelo lado esquerdo.

Preferências alimentares

Além de ajudar a entender por que aprendemos a gostar de certos sabores, a descoberta abre caminho para investigar maneiras de modificar as preferências alimentares.

Uma das possibilidades levantadas pelos cientistas envolve os medicamentos da classe GLP-1, que imitam a ação de um hormônio produzido no intestino e podem provocar mudanças importantes no comportamento alimentar.

Embora esses medicamentos não tenham sido analisados no estudo, Knight considera a hipótese de que eles possam reduzir a sinalização de dopamina provocada pelos nutrientes, diminuindo gradualmente a sensação de recompensa associada à comida. No entanto, essa possibilidade ainda precisa ser investigada.

No futuro, compreender melhor essa conexão entre intestino e cérebro poderá ajudar no desenvolvimento de tratamentos que não atuem apenas sobre a fome ou a saciedade, mas também sobre o processo pelo qual aprendemos a desejar determinados alimentos.

"Ao entendermos as etapas entre a detecção de nutrientes no intestino e o aprendizado no cérebro, talvez seja possível ajustá-las para alterar sutilmente nossas preferências por diferentes alimentos", conclui Knight.

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