Por que o cérebro sabota suas finanças e como mudar esse padrão

Publicado em 03/07/2026, às 15h28
Imagem de arquivo meramente ilustrativa - Agência Brasil

Natalie Vanz Bettoni / Folhapress

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Você seguiu as dicas dos especialistas. Registrou gastos, montou planilhas, estabeleceu metas. Mas, ainda assim, você se vê preocupado, se perguntando para onde foi o dinheiro que, segundo o planejado, sobraria no final do mês.

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Se é um cenário familiar, saiba que você não está sozinho —porque, na prática, nossa vida financeira é menos racional do que gostaríamos de imaginar.

A economista comportamental e CEO do InBehavior Lab, Flávia Ávila, explica que o contexto faz a diferença. "O dinheiro não é decidido só por matemática, mas por emoção, hábito, desejo, comparação e cansaço."

Na correria cotidiana, o consumo vira um alívio, seja no prazer de comprar algo novo ou na conveniência de pedir um delivery para o jantar. E com facilidades como "comprar em um clique", a decisão de gastar encontra cada vez menos obstáculos.

"Nosso cérebro responde melhor ao que é imediato, concreto e emocional, então uma compra hoje costuma parecer mais real do que uma dívida amanhã. O alívio de consumir aparece na hora, mas o custo chega só depois, na fatura ou na ansiedade de não saber como vai fechar o mês", diz Ávila.

E se não vemos o dinheiro fisicamente saindo da carteira, a perda fica mais abstrata. "Quando comprar fica fácil e perceber o custo é difícil, a desorganização vira tendência", explica Ávila.
Isso tudo favorece o piloto automático do nosso cérebro —conceito popularizado como Sistema 1 pelo psicólogo e vencedor do Nobel Daniel Kahneman. Rápido, ele poupa energia no dia a dia, mas só enxerga o curto prazo e falha em situações complexas.

O Sistema 2 é nossa mente analítica: focada no longo prazo, na atenção e na memória. Mais cansativo e com recursos limitados, é ele quem avalia as decisões com cuidado e nos protege do erro. "Não que acerte sempre. Mas tem chance, pelo menos", diz a pesquisadora e ex-presidente da Associação Internacional para Pesquisa em Psicologia Econômica (Iarep) Vera Rita de Mello Ferreira.

Isso explica a distância entre intenção e ação: o impulso vence antes de a reflexão entrar em cena. E reconhecer essa tendência pode ser a chave para um planejamento mais realista, que não dependa exclusivamente da força de vontade.

"Informação não gera ação. Se gerasse, seríamos todos ricos, maratonistas, malhados, e muitas outras coisas", diz Ávila.

Para a especialista, a saída é construir um ambiente que favoreça boas decisões: "A grande virada é parar de depender apenas da força de vontade, porque ela falha." Automatizar reservas, criar senhas em aplicativos e colocar limites no cartão diminuem as decisões diárias, junto das chances de sair do planejado.

Também recomenda criar pausas entre o momento do desejo e da compra: "Pode ser esperar 24 horas antes de compras não essenciais ou tirar o cartão salvo dos aplicativos", diz Ávila. "Organizar dinheiro é organizar comportamento. Tornar fácil o que é bom para a gente e tornar bem difícil um comportamento que pode ser impulsivo e levar ao descontrole."

OS VIESES QUE AFETAM NOSSO JULGAMENTO

Mesmo em decisões racionais, nosso raciocínio pode vir contaminado por uma série de vieses. Entendê-los evita armadilhas:

- Viés do presente: peso excessivo dado ao prazer imediato, subestimando o impacto das ações atuais no futuro. Piora em momentos de incerteza econômica, quando o futuro parece mais abstrato e imprevisível —justamente quando economizar seria essencial.

- Efeito avestruz: assim como na lenda de que os avestruzes enterram a cabeça na areia quando estão com medo, tendemos a nos esconder de informações percebidas como negativas ou ameaçadoras. Não olhamos para as dívidas e planilhas, o que leva a um alívio no curto prazo, mas mantém a ansiedade financeira.

- Contabilidade mental: conceito cunhado pelo economista ganhador do Nobel Richard Thaler, explica como damos diferentes pesos ao dinheiro de acordo com sua origem ou destino. "O dinheiro do bônus parece mais ‘gastável’ do que o salário, o limite do cartão parece diferente do dinheiro da conta, cashback parece dinheiro grátis."

- Otimismo excessivo: acreditar que, no próximo mês, vamos compensar. A fatura não virá tão alta, é só aquela conta, foi só aquele mês. "Esse otimismo vai acontecendo até formar uma grande bola de neve", adverte Ávila.

- Efeito manada: a influência social, potencializada pelas redes. Ferreira liga isso ao Fomo (fear of missing out ou medo de ficar de fora), que nos leva ao endividamento para não perder oportunidades.

DICAS DA ESPECIALISTA

Confira dicas da economista comportamental Flávia Ávila para uma organização financeira mais realista, que proteja nosso planejamento mesmo em nossos dias mais difíceis.

Crie metas específicas. Em vez de planos vagos, defina objetivos exatos: quitar determinada dívida ou guardar um percentual específico da renda.

Crie um check-in financeiro semanal. Por conta do efeito avestruz, as primeiras semanas serão as mais difíceis. Substitua a culpa pela curiosidade para analisar o que entrou, saiu e vai vencer.

Revise suas assinaturas mensalmente. Streaming, inteligências artificiais e pequenas cobranças recorrentes se somam em despesas automáticas e invisíveis. Revise-as periodicamente.

Separe dinheiro para prazer. Quando tentamos cortar todo o prazer, geralmente compensamos depois. O objetivo não é viver na privação, mas sim gastar com consciência e sem culpa.

Automatize suas reservas. Se pague primeiro, mesmo que em um valor menor. Comece com pequenas reservas e aumente com o passar do tempo, garantindo uma economia para o futuro. "Recomendo se adequar a viver com menos, com percentual de 70% a 80% do que ganha, porque as incertezas estão muito altas."

Mude o tom interno. Muitos evitam olhar para o dinheiro por associar finanças a vergonha, culpa ou fracasso. Ávila sugere vê-lo como um autocuidado —mais do que financeiro, com sua saúde mental e física.

"Cuidar do dinheiro não é punição, é uma forma de você cuidar da própria paz. A vida financeira melhora quando a pessoa para de fugir da realidade e começa a encontrá-la com frequência, com método, mas também com gentileza", diz a especialista.

SAINDO DO MODO DE SOBREVIVÊNCIA

Foram estratégias como essas que Priscila Carvalho de Souza, 33, adotou quando percebeu que, mesmo depois de um aumento salarial, continuava enrolada com o cartão. Ela tentou anotar tudo em uma planilha, mas não se adaptou por falta de tempo. Priscila vendeu itens que não usava, cancelou assinaturas e direcionou seu dinheiro para investimentos em renda fixa. Passou a inserir uma pausa de dois dias antes de compras não essenciais, de uma semana para valores maiores de R$ 200.

Na feirinha de domingo, ela leva dinheiro em papel: "Quando vejo o dinheiro diminuindo, me dá dor de gastar. No cartão não tem esse problema: você passa, ele aceita e é isso. Nem dói."

A reserva financeira passou a representar um compromisso fixo, tal como aluguel, luz e mercado. "Saí do modo de sobrevivência financeira. A sensação de ter o controle da minha própria vida e não só estar deixando ela me levar é muito boa, e aí você consegue começar a fazer planos, como viagens, que tenho conseguido com mais frequência."

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