"Usar o cargo público para o ganho pessoal não é apenas imoral, mas criminoso e abominável' — Marcus Tullius Cícero, De Officiis, Livro II, 77.
A corrupção acompanha a história da humanidade há milênios. No Brasil, contudo, ela adquiriu características próprias, moldadas incialmente pela formação do Estado e pela cultura política construída no período colonial. Mais do que uma sucessão de escândalos, trata-se de um fenômeno que atravessa diferentes regimes políticos, governos e gerações. Compreender essa trajetória é essencial para entender por que, em 2026, a corrupção continua entre as maiores preocupações do eleitor brasileiro.
No Brasil Colônia, a confusão entre interesses públicos e privados, marcada pelo patrimonialismo, privilégios e relações de favorecimento, criou raízes que atravessaram o Império e a República Velha, período em que o coronelismo e o uso da máquina pública foram usados como instrumento de poder político. Durante o regime militar, a concentração de poder e a baixa transparência também contribuíram para denúncias envolvendo grandes obras públicas.
Com a redemocratização e a Constituição de 1988, o fortalecimento das instituições de controle trouxe à tona grandes escândalos, como os Anões do Orçamento (1993), o Mensalão (2005), a Operação Lava Jato (2014) e mais recentemente o Banco Master, episódios que evidenciam diferentes mecanismos de corrupção na Nova República.
O escândalo dos Anões do Orçamento, por exemplo, baseado na manipulação de emendas parlamentares e no favorecimento político, mantém paralelos com o debate atual sobre a transparência das emendas, os privilégios da classe política e os chamados 'penduricalhos', reforçando a necessidade de maior controle e responsabilização na gestão dos recursos públicos.
Os avanços institucionais obtidos após 1988, mostram-se ineficazes, principalmente quando observadas distorções herdadas do chamado 'Pacote de Abril', de 1977, que desfigurou regras eleitorais e de representação proporcional dos eleitores na Câmara dos Deputados. Para defensores de reformas políticas mais profundas, essas distorções refletem na relação entre representantes e representados.
O distanciamento dessa relação, enfraquece a fiscalização e reduz a responsabilização política. Nesse cenário, a reforma política ganha relevância. Entre as propostas, o voto distrital é defendido por seus apoiadores como uma forma de aproximar o eleito do eleitor, ampliar a prestação de contas e contribuir para uma representação mais democrática.
O cenário internacional também revela dificuldades do Brasil no combate à corrupção. Segundo o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, da Transparência Internacional, o Brasil obteve 35 pontos em uma escala de 0 a 100, repetindo a segunda pior nota da série histórica, e ficou na 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados. O avanço de apenas um ponto em relação a 2024 foi considerado estatisticamente insignificante, indicando estagnação no combate à corrupção.
A corrupção depende de agentes dispostos a corromper e a serem corrompidos, mas também encontra terreno fértil quando instituições apresentam fragilidades, incentivos inadequados e baixa capacidade de fiscalização. O combate à corrupção exige leis eficazes, instituições sólidas, regras democráticas para a eleição dos representantes e de eleitores conscientes.
Em 2026 o Brasil tem a oportunidade de transformar indignação em participação. Não basta trocar os ocupantes do poder. É preciso discutir as regras do jogo que hoje são desfavoráveis aos eleitores. Afinal, uma Câmara dos Deputados sem proporcionalidade não representa a sociedade que a escolhe.
Se o sistema permanecer o mesmo, continuaremos presos a um ciclo de crises e escândalos, apenas com protagonistas diferentes."
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