Esporte

Atletas LGBTQIA+ batem recorde de participação e ganham medalhas em Tóquio-2020

Folhapress | 08/08/21 - 18h02
Douglas Souza, da seleção de vôlei, não subiu ao pódio, mas viralizou nas redes sociais com bastidores da equipe olímpica | Foto: Divulgação/FIVB

Logo depois de levar o ouro no salto sincronizado, o britânico Tom Daley disse que sentia orgulho em falar que é um homem gay e também um medalhista olímpico. "Quando eu era mais jovem, nunca achei que alcançaria nada por causa de quem eu era. Ser campeão olímpico agora só mostra que você pode alcançar qualquer coisa", afirmou o atleta após a vitória com sua dupla, Matty Lee.

Foi só após participar de duas Olimpíadas que ele contou, em um vídeo de 2013 no seu canal do YouTube, que estava em um relacionamento com um homem. Era um maneira de colocar um ponto final nos rumores sobre sua sexualidade e também de afirmar que ele ainda era o profissional de sempre. Na época, tinha a Rio-2016 no horizonte. Daley, que ficou famoso por aparecer tricotando nas arquibancadas, posicionou-se numa edição marcada pela participação recorde de atletas LGBTQIA+. Fez coro a outros discursos pela diversidade durante os Jogos.

De acordo com o site Outsports, são pelo menos 182 competidores abertamente gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, queer e não binários em Tóquio-2020 –a quantidade foi atualizada ao longo dos Jogos. Eles também contabilizaram 32 medalhas para os competidores LGBTQIA+.

O número é maior do que o de esportistas declaradamente LGBTQI+ em Olimpíadas anteriores. Em Londres-2012, edição que precedeu a declaração de Tom Daley sobre o namorado, eram 23. Na Rio-2016, em que ele também participou, o número subiu para 56.

Em Jogos marcados por protestos, a atleta americana Raven Saunders, prata do arremesso do peso, também se posicionou em cima do pódio. Ela ergueu os braços e os cruzou sobre a cabeça em formato de X. Sanders, que é negra e LGBTQIA+, disse que o gesto significa "o cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram".

"Um salve para meu povo negro. Um salve para toda a minha comunidade LGBTQ. Um salve para todo o meu povo que lida com saúde mental", disse após a prova. As manifestações em celebração da diversidade também foram marcadas por intervenções visuais fora dos pódios, como no cabelo com as cores da bandeira LGBTQIA+ de Gabriela Debues-Stafford, da equipe canandense do atletismo.

Apenas uma das 18 pessoas listadas no levantamento do Outsports é homem. Douglas Souza, da seleção de vôlei, não subiu ao pódio, mas viralizou nas redes sociais com bastidores da equipe olímpica, dancinhas ao som de Pabllo Vittar e também mensagens sobre debates sociais, como a defesa dos direitos LGBTQIA+.

"Precisamos lutar juntos, continuar nos posicionando para mostrar que não somos diferentes de ninguém. [Precisamos de] visibilidade, só isso. As pessoas precisam ser vistas", disse à Folha durante os Jogos.
Entre as mulheres, há nomes conhecidos do futebol, como Marta, Formiga e Bárbara, e a atleta de rugby de sete Isadora Cerullo, que foi pedida em casamento por Marjorie Enya na Rio-2016. Ana Marcela Cunha também se junta ao grupo. Ela agradeceu à namorada após conquistar o primeiro lugar na maratona aquática.

Ana Carolina e Carol Gattaz, do vôlei, também ganharam medalhas –desta vez, de prata, com a seleção feminina. Outras pessoas LGBTQI+ podem fazer parte da lista de medalhistas do Brasil, mas não se pronunciam abertamente sobre o tema em entrevistas ou nas redes sociais.

Além do número recorde, Tóquio-2020 foi a primeira edição com uma mulher trans, com a halterofilista Laurel Hubbard, da Nova Zelândia. Quinn, atleta de futebol feminino do Canadá, que se identifica como transgênero não-binário, é a primeira pessoa trans condecorada com uma medalha –logo a de ouro. Foi ao se referir a Quinn, aliás, que a narradora do SporTV Natália Lara utilizou o pronome neutro "elu", como o atleta prefere ser identificado, em mais um marco de diversidade dos Jogos.