Economia

Boi da carne mais cara do mundo bebe cerveja e tem massagem

Yahoo | 04/08/21 - 14h43

Você que trabalha muito sem direito à massagem e está a fim de comer um churrasquinho regado à cerveja gelada, mas não consegue por causa do preço, precisa conhecer o boi que tem tudo isso. Cheia das mordomias, a espécie bovina japonesa wagyu ficou famosa por beber cerveja e receber massagem. No Brasil, onde está difícil até para comprar ovos de galinha, a carne mais cara do mundo tem o preço médio do quilo de R$ 600, podendo ultrapassar os R$ 1 mil. Do outro lado da Terra, no país sede dos Jogos Olímpicos, ela chega a custar US$ 1.000 o quilo, em média, equivalente a pelo menos R$ 5 mil.

A alta maciez, que é o seu diferencial, é explicada pela genética do boi associada a uma alimentação rica em amido. Com isso, se dá o tal marmoreio, visual de mármore para a peça na sua gordura intramuscular. Essas regalias que a espécie recebe eram mais comuns no passado, hoje não existe mais na maioria das fazendas e nem é mais visto nos grandes confinamentos do país.

Antigamente, acreditava-se que a cerveja facilitaria a digestão do animal, ao provocar relaxamento, enquanto a massagem atuaria como drenagem linfática, ajudando na infiltração de gordura para a formação do marmoreio. No entanto, nada disso tem comprovação científica, diz Daniel Steinbruch, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Wagyu (ABCWagyu). A maciez e o sabor únicos da carne são dados, na verdade, pela própria genética do wagyu.

"O que nós precisamos é dar as condições ideais para que o boi expresse a sua genética, o que significa, por exemplo, proporcionar uma dieta balanceada. O segredo está em uma alimentação rica em amido, pois é dele que o boi vai tirar energia para transformar em marmoreio", declarou o representante da ABCWagyu em entrevista ao site G1 Agro.

Mais uma rodada de cevada

Alguns bois wagyu no Brasil, apesar de não beberem a "cervejinha" diretamente, se alimentam das sobras de indústrias produtoras de grãos ricos em amido são milho, sorgo, arroz, trigo e a própria cevada. "O que alguns criadores dão é a borra que sobra do processo de fermentação da cevada porque é uma boa fonte de proteína, um excelente alimento para os bovinos", comentou Steinbruch.

Por outro lado, a massagem pode servir para dar bem-estar aos animais, mas, nas grandes fazendas, não é algo comum, diante do tamanho do rebanho.

Wagyu no Brasil

O nome do animal vem de “wa”, que significa "do Japão", e “gyu”, quer dizer "gado". A sua origem vem de um boi que migrou da Europa para Ásia e foi introduzido no Japão para puxar arado nas lavouras de arroz. Em terras japonesas, os criadores fizeram diversos cruzamentos até chegar à raça atual.

A Yakult, que trouxe a raça pura japonesa para o Brasil em 1992, até hoje está entre as maiores produtoras do país. Em sua fazenda em Bragança Paulista (SP), com mais de 200 hectares, a empresa tem, aproximadamente, 350 cabeças.

O rebanho brasileiro todo chegou a 6.873 mil cabeças em 2020, alta de 11,8% em relação a 2019. Há somente 47 criadores no país todo, que ainda não conseguem suprir toda a demanda interna e, por isso, a carne também é importada do Japão e do Uruguai. O maior consumo ocorre em restaurantes, boutiques de carnes e hotéis.

Grau de marmoreio

A proporção de gordura intramuscular versus a carne define o quão mais caro o corte de wagyu será. Na escala japonesa, o grau é medido de 0 a 12, mas, no Brasil, só se conseguiu produzir até o nível 10.“Conseguir um marmoreio 12 é uma tarefa bastante difícil, um desafio para todos os produtores de wagyu no Brasil”, assume o veterinário Rogério Satoru Uenish, gerente da Fazenda Yakult.

Aqui isso acontece porque o tempo de confinamento do animal é menor do que no Japão. É nesse momento que o gado recebe as rações com alto teor amido, que geram a energia para transformar em marmoreio.

No Japão, enquanto os animais vão para o confinamento assim que nascem, no Brasil, eles vão a partir dos 18 meses.Isso porque o país asiático tem poucas terras para pastagens, diferentemente do Brasil, que tem grandes áreas, explica o veterinário Enrico Ortolani, consultor do Globo Rural.

Menos reprodutivos

Os bois dessa raça são, por exemplo, menos produtivos, menos rústicos e o seu rebanho é menor comparado a demais raças, avalia Ortolani, que aponta outros fatores que encarecem a carne wagyu.

"O porte de um wagyu puro é de 400 kg. Já a raça nelore, por exemplo, tem mais 550, 600 kg e cresce mais rápido. O wagyu não tem uma quantidade tão grande de musculatura comparada a outras raças", explica o veterinário.

Já a menor rusticidade tem a ver com ser menos resistente à doença e condições climáticas."No Brasil, se faz inseminação de wagyu em vacas nelore, o que dá o bezerro meio sangue, que ganha um pouco de rusticidade. Ele perde um pouco no acúmulo da gordura, mas, ainda assim, continua sendo diferenciado", acrescenta o consultor. Apesar dos cruzamentos feitos no Brasil, Ortolani diz que há criações nacionais de raça pura do boi wagyu.

Cortes menos caros

O preço do quilo do wagyu vai depender muito do grau do marmoreio, tipo de corte e local onde a compra é feita. Em algumas boutiques de carne da cidade de São Paulo, por exemplo, carnes extraídas do acém, com marmoreio entre 4 e 5, podem custar cerca de R$ 180 o quilo. Já cortes nobres, como a picanha, o ancho, com marmoreio 9 a 10, o consumidor pode ter que desembolsar valores mais salgados: R$ 900, R$ 1.000 ou até mais.