Maceió

Braskem divulga estudo de universidade americana que contesta relatório da CPRM sobre o Pinheiro

Redação com Assessoria | 17/09/19 - 10h19 - Atualizado em 17/09/19 - 10h19
Arquivo

Pesquisadores da Universidade de Houston, no Estado do Texas, nos Estados Unidos, revelaram inconsistências na interpretação de algumas metodologias usadas pela CPRM (Serviço Geológico do Brasil) sobre os fenômenos geológicos nos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro, em Maceió. A avaliação dos dados foi realizada a pedido da Braskem, apontada como causadora do problema pela extração de sal-gema do subsolo desses bairros. A regiaõ sofre com rachaduras e inconsistência do solo depois de um tremor de terra, ocorrido em março de 2018.

De acordo com um texto divulgado no site da Braskem, os pesquisadores avaliaram o documento da CPRM e teriam encontrado, imprecisão na metodologia, falhas na análise dos mapas que identificaram a instabilidade no solo e a não consideração de efeitos naturais presentes na região, entre outros pontos.

No relatório divulgado em maio, a CPRM constata que está ocorrendo a desestabilização das cavidades da extração de sal-gema, provocando halocinese (movimentação do sal), e criando uma situação dinâmica com reativação de estruturas geológicas antigas, subsidência (afundamento) do terreno e deformações rúpteis na superfície (trincas no solo e nas edificações) em parte dos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro. Leia AQUI o relatório na íntegra. 

Segund o relatório da Universidade de Houston, a CPRM usou de metodologias que podem ter levado a erro de interpretação. Por exemplo, a autarquia tirou conclusões sobre a condição das cavernas usando dados que não poderiam ser usados para isso, diz o estudo. Além disso, alertam os pesquisadores da universidade americana, na descrição do trabalho de interferometria realizado para estudar a subsidência na margem leste da Lagoa Mundaú, a CPRM inseriu o 'Mapa de integração dos processos de instabilidade do solo'. Esse mapa mostra uma subsidência que coincide com a área das minas de sal, mas há também uma substancial deformação mais ao sul, distante da área de extração de sal. "Esse afundamento, fora da região das minas, sugere um mecanismo de deformação não relacionado à extração de sal", aponta o estudo americano.

Outra conclusão dos pesquisadores foi no estudo das "assinaturas" das ondas sísmicas, que demonstrou que os tremores nos bairros foram de origem natural. Os pesquisadores de Houston identificaram "grande amplitude de onda Lg e pequena amplitude de ondas P vindas do abalo sísmico de 3 de março de 2018", o que comprova ter sido um tremor de origem natural. A CPRM havia dito em seu relatório de maio que "se percebe claramente que a fonte sísmica está próxima à superfície e não se trata de um evento tectônico (isto é, natural) causado por uma falha no embasamento".

Os pesquisadores de Houston afirma que usaram um supercomputador também para fazer uma modelagem em três dimensões, simulando um eventual desabamento de todas as cavernas de sal da região. O resultado foi "67 vezes menor do que a subsidência medida pela interferometria, o que é uma enorme disparidade", diz a conclusão do estudo. "Isso indica que algum outro mecanismo ou mecanismos, não relacionados às cavidades de salmoura, devem ser a causa dominante causando a subsidência", dizem os especialistas.

Entretanto, os estudos corroboraram uma das percepções da CPRM: a de que deve haver várias causas para o problema. Entre essas causas, diz a universidade americana, estão a retenção de água da chuva no solo, o que contribui para a instabilidade do terreno do Pinheiro, saturado de líquido, durante os tremores naturais. De acordo com o estudo, a lubrificação do solo causada pela má conservação da rede de drenagem, esgoto e abastecimento do Pinheiro, associada às falhas geológicas naturais do subsolo, agravam as avarias causadas nas ruas e construções pelo adensamento do terreno.

A Braskem, que discorda de pontos das análises do laudo apresentado pela CPRM, entende que "não há, até o momento, comprovação técnica sobre as causas dos eventos geológicos dos bairros, o que é fundamental para a definição das soluções robustas". Por isso, a petroquímica busca a opinião de pesquisadores e especialistas para melhor compreensão do fenômeno.

A Universidade de Houston é um importante centro de pesquisa de Geofísica e Sismologia, instalada na cidade que é considerada o polo técnico mundial da indústria do petróleo. No Estado do Texas, onde ela está localizada, a exploração de sal é expressiva, adicionalmente às atividades de exploração de gás e petróleo.

De acordo a Braske, os professores que participaram da pesquisa já passaram por outras instituições internacionalmente reconhecidas, como o MIT (Massachusetts Institute of Technology) e a Universidade da Califórnia. Rob Stewart, coordenador da equipe de pesquisadores, é Diretor do Allied Geophysical Labs, com Ph.D em Geofísica pelo MIT e integra o  Texas Board Professional Geoscientists. Ele é canadense, país que tem reconhecida experiência na geologia. Também participaram da pesquisa os professores Aibing Li (PHD em Geofísica pela Brown University) e Yingcai Zheng (Ph.D. em Sismologia pela University of California).

O relatório da Universidade de Houston será disponibilizado para os órgãos públicos e autoridades competentes. A própria CPRM indicou que novos estudos poderiam ser incorporados ao resultado inicial para a melhor compreensão dos fatores que desencadearam os processos geológicos no bairro Pinheiro. "Acreditamos que os estudos e evidências apresentados poderão servir de subsidio para a CPRM cumprir sua missão de melhorar o entendimento dessas questões e ajudar na busca de uma solução para as pessoas e Maceió", complementam os pesquisadores no estudo.

Por meio de nota, o CPRM informou que não tem conhecimento sobre o estudo e que “não se manifestará a respeito de supostas conclusões”. A instituição informou também que caso esse relatório seja enviado à CPRM, os pesquisadores deverão “avaliar seu teor e suas conclusões para uma manifestação assertiva e transparente.”

Confira a nota da CPRM na íntegra:

“Em atenção ao questionamento sobre posicionamento do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) acerca de suposto estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Houston, que trata dos afundamentos em Maceió, informamos o seguinte:

  • Até o momento, a CPRM não tem conhecimento desse referido estudo elaborado pela Universidade de Houston. Portanto, não se manifestará a respeito de supostas conclusões.
  • Se por acaso, esse relatório for enviado à CPRM, nossos pesquisadores irão avaliar seu teor e suas conclusões para uma manifestação assertiva e transparente.
  • Reafirmamos as conclusões do relatório técnico, divulgado em maio, que apontou a causa gatilho para o surgimento do fenômeno que afeta os bairros, Pinheiro, Bebedouro e Mutange.
  • É importante ressaltar que antes de entregar o relatório conclusivo, a CPRM trabalhou por mais de um ano em Maceió, onde nesse período utilizou tecnologias de ponta e mobilizou um equipe multidisciplinar ( 53 pesquisadores) composta pelos melhores profissionais da instituição, que juntos realizaram um trabalho coletivo, imparcial e com total independência, que teve como único objetivo utilizar a ciência para desvendar um fenômeno geológico complexo, que afeta a vida de milhares de pessoas”.