Ciclone mata dezenas de orangotangos e ameaça um dos primatas mais raros do mundo; entenda o fenômeno

Publicado em 15/06/2026, às 21h26
Tim Laman/ Wikipedia
Tim Laman/ Wikipedia

Por Galileu

Um ciclone em novembro de 2025 resultou na morte de cerca de 58 orangotangos-de-Tapanuli, representando 7% da população total da espécie, que já é a mais ameaçada do mundo, acendendo um alerta sobre os riscos das mudanças climáticas para a biodiversidade.

As chuvas intensas causadas pelo ciclone, que aumentaram em 50% devido ao aquecimento global, provocaram deslizamentos de terra que destruíram 8.300 hectares de floresta, comprometendo ainda mais a recuperação da população de orangotangos.

Em resposta ao desastre, o governo indonésio suspendeu temporariamente projetos de mineração e expansão agrícola na região, criando uma oportunidade para revisar políticas de conservação e avaliar riscos climáticos, enquanto cientistas alertam para a crescente frequência de eventos extremos relacionados às mudanças climáticas.

Resumo gerado por IA

Um único evento climático extremo foi suficiente para eliminar cerca de 7% de toda a população selvagem de orangotangos-de-Tapanuli, a espécie de grande primata mais ameaçada de extinção do mundo. O desastre ocorreu após a passagem do ciclone Senyar por Sumatra, na Indonésia, em novembro de 2025, e acendeu um alerta sobre os riscos crescentes que as mudanças climáticas representam para espécies já à beira da extinção.

Com apenas cerca de 800 indivíduos vivendo na natureza, os orangotangos-de-Tapanuli ocupam uma área restrita do ecossistema de Batang Toru, uma região montanhosa coberta por floresta tropical. Entre os dias 23 e 28 de novembro de 2025, o ciclone provocou chuvas recordes em partes da ilha, chegando a mais de mil milímetros de precipitação em algumas localidades.

O volume excepcional de água desencadeou dezenas de deslizamentos de terra em encostas íngremes da região. Segundo um estudo publicado na revista Current Biology, a análise de imagens de satélite e dados populacionais revelou que aproximadamente 58 orangotangos morreram nos deslizamentos. O número corresponde a cerca de 11% da população local e a 7% de todos os indivíduos da espécie existentes na natureza.

“Este nível de perda é substancial para uma espécie com uma população total tão pequena”, afirmou Erik Meijaard, cientista-chefe da organização Borneo Futures, em comunicado. Segundo ele, a tragédia aumenta a urgência de ações coordenadas para evitar o desaparecimento definitivo do primata.

“Quando combinado com pressões contínuas, como a degradação do habitat e o conflito entre humanos e animais selvagens, isso aumenta ainda mais a necessidade de implementar e financiar adequadamente um plano de ação coordenado para a espécie”, destacou o pesquisador.

Além das mortes diretas, os deslizamentos destruíram cerca de 8.300 hectares de floresta, aproximadamente 11,7% da cobertura florestal do bloco oeste do ecossistema de Batang Toru. A perda de habitat pode comprometer ainda mais a recuperação populacional dos animais nos próximos anos.

Mudanças climáticas ampliaram a tragédia

Os pesquisadores também utilizaram métodos de atribuição climática para determinar a influência do aquecimento global sobre a intensidade das chuvas. Os resultados indicam que as mudanças climáticas causadas pela atividade humana aumentaram em cerca de 50% a intensidade das precipitações associadas ao ciclone.

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“A perda estimada de 58 orangotangos-de-Tapanuli devido a um único deslizamento de terra impulsionado pelas mudanças climáticas representa um choque demográfico devastador para o primata mais raro do mundo”, afirma Jatna Supriatna, professora do Departamento de Biologia da Universidade da Indonésia.

“Para evitar a primeira extinção moderna de uma espécie de grande primata, a Indonésia deve proteger permanentemente o ecossistema de Batang Toru. Mas os parceiros internacionais também precisam cumprir seus compromissos globais, fornecendo financiamento imediato para a recuperação da biodiversidade”, acrescentou.

Uma ameaça crescente

Segundo os autores do estudo, a geografia montanhosa de Sumatra torna a região particularmente vulnerável a deslizamentos quando a precipitação ultrapassa determinados limites. Em situações extremas, nem mesmo as raízes profundas das árvores de florestas antigas conseguem estabilizar o solo.

“Trata-se de deslizamentos de terra superficiais e de alta velocidade, desencadeados por chuvas intensas”, explicou Dave Petley, especialista em movimentos de massa da Universidade Nottingham Trent.

“Como os fluxos de detritos estão diretamente conectados ao sistema de drenagem, o deslizamento é rápido e excepcionalmente destrutivo, deixando aqueles que estão em seu caminho com pouco aviso ou chance de escapar”, disse.

Após o desastre, o governo da Indonésia suspendeu temporariamente projetos de mineração, expansão da palma de óleo e empreendimentos hidrelétricos na região de Batang Toru. Para os pesquisadores, a medida cria uma oportunidade rara para revisar políticas de ocupação territorial e incorporar avaliações de risco climático à conservação da biodiversidade.

O caso dos orangotangos-de-Tapanuli ilustra como a crise climática já afeta diretamente espécies ameaçadas. Mais do que uma tragédia isolada, o episódio revela a convergência de três desafios globais: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas. Em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes, cientistas alertam que situações semelhantes podem se tornar mais comuns em diferentes partes do planeta.

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