O empresário Bryan Johnson anunciou a criação de um 'clone' de si mesmo em laboratório, utilizando células reprogramadas de seu próprio sangue, o que levanta questões éticas e científicas sobre a manipulação celular e suas implicações futuras.
Especialistas em genética alertam que o termo 'clone' é inadequado, pois o processo envolve reprogramação celular e não a criação de um organismo completo, além de destacar a baixa eficiência e os riscos associados à técnica.
Johnson pretende usar essas células pluripotentes para potencialmente reconstruir órgãos e tecidos, mas os especialistas enfatizam que a tecnologia ainda está em desenvolvimento e não é uma solução universal para doenças, com muitos desafios a serem superados antes de sua aplicação clínica ampla.
O empresário americano Bryan Johnson, de 48 anos, afirmou ter criado um "clone" de si mesmo em laboratório, a partir da reprogramação de células do próprio corpo para um estado semelhante ao embrionário.
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Segundo ele, o material não é um bebê nem um organismo completo, mas um conjunto de células obtidas a partir do próprio sangue.
Johnson, conhecido por investir milhões de dólares em um projeto pessoal para retardar o envelhecimento, afirmou que o "Baby-Bryan" – como chamou as células – "vive em uma placa de Petri".
Paulo Zattar Ribeiro, médico geneticista, alerta que o termo clone é incorreto do ponto de vista científico, nesse caso, e representa um certo alarmismo desnecessário. (entenda mais abaixo)
"O processo é como 'resetar' células adultas para um estado mais primitivo em laboratório — não é criar uma cópia de si mesmo", compara o médico.
Ciro Martinhago, médico geneticista e especialista em doenças raras pela Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM), explica que a técnica é promissora e já é utilizada para o tratamento de algumas doenças, mas que a grande ressalva é que a ciência ainda não tem um domínio total sobre a reprogramação das células.
"A nível comercial, se produz muito pouco sobre isso. A gente consegue ter essas células sanguíneas pluripontentes. Mas muitas delas ainda se tornam tumores, por exemplo. O controle ainda é um problema", analisa.
Ele pontua que o uso desse tipo de tecnologia de forma ampliada não é uma realidade, primeiro por se tratar de um processo muito caro e, segundo, por haver muita especulação sobre qual o verdadeiro potencial dessas células na cura de doenças – e sobre sua segurança a longo prazo.
Reprogramação das células e sua limitações
Na publicação, o empresário detalhou o processo da clonagem, que começou com a coleta de sangue e a extração de células.
Essas células então passaram pela aplicação dos chamados fatores de Yamanaka, um conjunto de proteínas capazes de reprogramar células adultas para um estado semelhante ao das células-tronco embrionárias.
De acordo com ele, essa reprogramação "reinicia" as células, fazendo com que elas sejam capazes de dar origem a diferentes tipos celulares, como neurônios, células do músculo cardíaco e da retina.
Martinhago retoma o ponto de que, por mais que Johnson tenha utilizado a palavra clonagem, o processo é diferente do que se tem no senso comum, na técnica de clonagem de animais, por exemplo.
"Na clonagem, você pega uma célula só do indivíduo e reproduz um outro ser. Por meio de um óvulo, cresce e nasce um novo indivíduo. Nessa técnica, as células selecionadas se tornam pluripotentes, isto é, podem se transformar em qualquer tecido. Há apenas uma reprodução das células, e não do indivíduo por completo", compara.Além disso, Zattar também pondera que a descrição do procedimento feito pelo empresário simplifica excessivamente um processo complexo, omitindo desafios importantes como:
- Baixa eficiência da reprogramação celular - geralmente 1% a 5% das células são reprogramadas com sucesso.
- Controle de qualidade - cada linhagem de novas células precisa ser rigorosamente testada para confirmar pluripotência, estabilidade genética e ausência de mutações, processos caros e demorados.
- Instabilidade genômica - as células pluripotentes podem acumular aberrações cromossômicas, mutações e alterações genéticas durante a reprogramação ou cultivo, levantando preocupações de segurança.
- Distância entre laboratório e aplicação clínica - criar esse tipo de célular em laboratório é muito diferente de usá-las para tratamentos seguros e eficazes em humanos.
Uso das novas células
Segundo o empresário, essas células pluripotentes poderiam, no futuro, ser usadas para reconstruir órgãos e tecidos, restaurando funções como visão, audição e o funcionamento dos rins, do fígado e dos pulmões, além de reparar danos na pele.
Por serem derivadas de suas próprias células, elas teriam menor risco de rejeição pelo organismo em comparação com células de doadores.
Outra ponderação do geneticista é que, por mais que a técnica seja promissora e possa servir como opção de cura para algumas doenças, ela não é uma solução universal.
Isso porque, além de ainda não haver controle total sobre o processo, essa reprodução de células é incapaz de resolver doenças hereditárias, próprias do gene da pessoa.
O médico comenta que alguns tratamentos como anemia falciforme e até leucemia utilizam com sucesso as células do próprio paciente, mas geralmente envolvem engenharia genética e transplante de medula.
"O que já é aplicado hoje em dia possivelmente é muito semelhante ao que foi descrito pelo empresário e dá muito certo. Agora de restauração de um órgão para sobrevida, criação de clone ou de uma outra pessoa igual a você, isso é ficção científica", defende.➡️Segundo Zattar, até dezembro de 2024, existem 116 ensaios clínicos aprovados testando produtos derivados de células pluripotentes em todo o mundo, com mais de 1.200 pacientes tratados.
"Isso pode assustar algumas pessoas, parecer um futuro distópico. Mas, para outras, será visto como o futuro inevitável da saúde", escreveu Johnson
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