Jornalista Fabiano Lana:
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"Em tese, por meio da aplicação fria da lei, o poder Judiciário, formado por pessoas isentas, deveria encerrar os conflitos sociais. No Brasil, pelo comportamento errático, autoritário, político no sentido de partidário, ou até mesmo algo suspeito de alguns integrantes da nossa cúpula, temos um resultado contrário ao que se espera do poder.
Com seus altos salários e força desmedida, a magistratura hoje tornou-se um problema sério para a sociedade brasileira. Uma espécie de superpoder em modo de destruição e autodestruição.
Tomem-se as revelações desta terça-feira, 1º, do Estadão. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, em ação direta, 'editando' contrato de R$ 131 milhões do escritório de advocacia de sua mulher com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O que o escroque do Banco Master pretendia com esse tipo de negociação comercial? Claramente: proteção.
Em que mundo possível seria normal um empresário bastante enrolado pedir a um juiz que adie uma operação da polícia contra ele, após alimentar a família deste mesmo togado com milhões de reais? Há alguma explicação em que Moraes não fique seriamente chamuscado?
Como o Judiciário, pelo menos sua cúpula, reage aos acontecimentos que o deixam acuado. Ligam o modo autoproteção. Não importa mais a lei. Querem é se defender, mandar recados, vingar-se de quem os incomoda.
Tome-se o caso do ministro Dias Toffoli, tão embrenhado nas histórias do Banco Master como Moraes. De maneira draconiana, suspende a campanha de um dos candidatos que mais o criticava, Renan Santos, do Missão. Saltam aos olhos as razões algo bizantinas da decisão — que envolve registros de perfis na internet. Se houver equidade, outros 2,7 mil candidatos de todo o Brasil também deveriam ser proibidos de pedir votos.
Mês passado, a dupla Moraes e Flávio Dino agiu para destruir uma cláusula pétrea da nossa Constituição: o sigilo da fonte. Por causa de questões locais que incomodavam o juiz maranhense, flagrado numa ida à praia com veículo oficial (algo que não é ilegal), Moraes feriu a Constituição que em tese deveria defender. Esse mesmo juiz, inclusive, preside um inquérito em que pode se comportar algo como dono do Brasil. É possível sustentar que não o interessa mais aplicar a lei, mas punir seus inimigos. Está cada vez mais difícil justificar que não vivemos numa 'ditadura do Judiciário'.
Em tese, o bolsonarismo seria o movimento político mais prejudicado com a verdadeira caixa de Pandora que se transformou a cúpula do Judiciário brasileiro. Porém, não há santidade nesse meio. Vorcaro foi democrático ao distribuir recursos. A mesma quantia milionária que foi para a família de Moraes também foi para Flávio. As justificativas do algoz Moraes e do filho de Jair Bolsonaro são as mesmas: trata-se de relações privadas. Ambos personagens são pessoas bem-sucedidas em patrimônio imobiliário.
No final das contas, a sombra da suspeita recai sobre todos os poderes. Torna-se uma crise total. Candidatos que não estão envolvidos nesses escândalos, como os ex-governadores de Minas Romeu Zema, Ronaldo Caiado, de Goiás, caem na vala comum simplesmente por serem 'políticos'.
Até agora, quem melhor sobrevive no cenário é um autor de pílulas de autoajuda, o psiquiatra Augusto Cury. Mas frases motivacionais não irão resolver o problema do País."
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