Gente Famosa

Ex-apresentadora do 'Pânico' fala sobre depressão e tentativa de suicídio

Universa | 16/07/19 - 14h24 - Atualizado em 16/07/19 - 13h58
Arquivo Pessoal

Diagnosticada com depressão e ansiedade social (espécie de fobia de lugares públicos, que faz com que as pessoas evitem, no extremo, qualquer contato social), a jornalista Amanda Ramalho, que trabalhou (e encrencou muito) no programa "Pânico na Jovem Pan", por 15 anos, completa agora um, à frente do podcast "Esquizofrenoias". No programa, de audiência considerável e transmitido pelo Spotify, ela entrevista médicos e pacientes que têm ligação com questões de saúde mental --assunto que ela, infelizmente, domina, já que sofre de transtornos emocionais desde que era criancinha.

A jornalista, que tem 33 anos, conta que ingere remédios desde a adolescência, passou por 10 terapeutas, viveu um relacionamento conturbado e tentou o suicídio duas vezes. Em 2018, ela pediu demissão do "Pânico", porque "estava de saco cheio de entrevistar um monte de gente nada a ver", conta Amanda. Dessa lista, consta gente como o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o funkeiro Biel e o vereador Fernando Holiday.

Por que você saiu do Pânico?
Tive várias tretas. Uma delas foi por causa da Sâmia Bonfim (deputada federal pelo PSOL). Ela foi convidada para o programa e, lá, disse algo sobre o Fernando Holiday [hoje vereador de São Paulo]. A produção, na hora, ligou para ele e deixou que ele falasse o que quisesse. Fiquei muito brava porque não trabalhava na assessoria de imprensa do Holiday. No dia seguinte, não fui trabalhar; e graças a Deus, porque o convidado foi o dono da Havan [empresário que apoia o governo de Jair Bolsonaro]. Quando voltei, quem aparece? Biel. Chamei todo mundo e falei: "Vocês estão loucos? Dando espaço para essa pessoa?". Estava no meu limite.

E como foi a sua treta com o Biel?
[O funkeiro era acusado de agressão contra uma namorada e de assédio a uma jornalista, quando foi convidado para ir ao programa. Dias antes, Amanda havia escrito em seu Twitter, que Biel "devia morrer"]. Quando eu o vi lá, falei para a produção: 'vocês estão loucos de dar ibope para um cara desses'? Enfim, fomos para a entrevista, e eu não me lembro o que rolou. [o que rolou, resumidamente, foi que Biel a confrontou sobre o tuíte e ela confirmou que pensava exatamente aquilo. O cantor se irritou e foi embora do programa, ao vivo]. Confesso que não assisto aos vídeos de quando falo essas coisas. Morro de vergonha. Nem sei o que falei para o Biel, mas, se arrasei, ótimo.

Quais outros episódios espinhosos guarda do programa?
Olha, as pessoas acham que eu sou briguenta, mas eu não sou. Minha vida é engraçada. Já mandei o (vereador Fernando) Holiday tomar no cu, ou se foder, não me lembro. Ele ainda não era vereador, ainda bem, então não foi considerado um desacato. Também convidei o Eduardo Bolsonaro para fumar maconha. Ele estava sempre na rádio e senti liberdade para mandar um: "E aí, Dudu, vamos fumar um beck?". Ele riu. Mas os fãs dele, não. Recebi mensagens horrorosas; entre elas, uma que falava: "gostaria que você fosse estuprada por um mendigo".

Há algum bom?
Muitos. Como eu tenho ansiedade social, que é, basicamente medo de gente, conviver com várias pessoas no trabalho contribuiu muito para que eu melhorasse. Se o Emílio [Surita, diretor e âncora do programa] não tivesse me convidado para trabalhar lá, talvez, hoje, eu ainda estivesse morando com meus pais, sem trabalhar e nem conviver com pessoas. Eles respeitaram minhas limitações durante todo o tempo. Se eu precisasse faltar por crise de ansiedade ou por causa da depressão, não tinha problema.

A saída do Pânico e a criação do podcast melhoraram sua qualidade de vida?
Sim. O podcast surgiu da minha necessidade de falar e ouvir sobre meus próprios transtornos. Mas teve episódios que foram muito difíceis de gravar; entre eles, o que falei da minha tentativa de suicídio. Eu tinha 26 anos, não estava levando a periodicidade dos remédios [psiquiátricos] a sério. Tive um namoro que começou traumático e terminou pior ainda e isso foi a gota d'água. Pensava em me matar quase toda a semana. Chorava todos os dias e achava que só a morte ia tirar meu sofrimento. Tentei duas vezes em uma semana. Depois disso, quando me vi internada num hospital, decidi levar a terapia a sério. Hoje, não penso mais nisso. Quando a depressão bate, coloco na cabeça: "Vamos lutar".

Dá pra ganhar dinheiro com podcast?
Sim. Mas não por causa da audiência [o "Esquizofrenoias" tem uma audiência mensal de 15 mil ouvintes no Spotify]. O que dá dinheiro é publicidade: têm várias marcas de saúde e médicos a fim de atrelar suas imagens ao programa. Não me sinto à vontade para revelar o valor, mas posso dizer que o salário da rádio não faz mais falta no meu orçamento.

Qual é a sua primeira lembrança envolvendo ansiedade e depressão?
Quando eu tinha cinco anos, meu coração disparava e eu sentia falta de ar com frequência. Achava que ia morrer e isso me dava muito medo. Ainda criança, eu passava o dia medindo minhas pulsações, porque descobri que elas eram o sinal de que eu estava viva. Aos nove anos, pedia para minha irmã de dois ficar na porta do banheiro enquanto eu tomava banho. E falava: "Se eu morrer, você avisa a mamãe".

Como sua mãe lidava com as suas crises?
Em casa, fiquei conhecida como "a pessoa que inventa doenças". Fiz vários exames cardiológicos, porque eu dizia aos meus pais que meu coração disparava. Mas, em todos, o resultado era sempre o mesmo: eu não tinha nada. Todo mundo achava que eu criava os sintomas --tinha diarreia, constipação e taquicardia. Fui diagnosticada com ansiedade social e depressão aos 16 anos. Antes disso, minha mãe, bastante católica, já havia chamado um padre para me dar a extrema-unção duas vezes. Eu nasci na periferia, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo; meus pais eram pobres e, mesmo assim, gastavam dinheiro com psiquiatra e terapeutas para mim.

Como você está hoje?
Ainda tomo dois remédios por dia, um para depressão e outro para ansiedade. Mas me sinto muito melhor. Meus amigos falam bastante disso. Na idade que estou e depois de anos de tratamento, as crises são pouco comuns.

Algum medão a persegue hoje em dia?
Não. Fiz um programa ao vivo direto da Campus Party [maior evento de tecnologia do Brasil] e dou palestras com frequência; inclusive, nessa semana, falarei em um festival de tecnologia e inovação chamado "Whow". O mais louco é que eu não me formei em jornalismo porque, apavorada, não consegui apresentar o TCC. Então, nem imaginava que um dia poderia falar em público. Na primeira vez, eu me desesperei. Mas, agora, é fácil, porque desenvolvi algumas técnicas: não olho muito para a plateia e finjo que estou conversando sozinha.