Exame de sangue que busca detectar mais de 50 tipos de câncer chega ao Brasil

Publicado em 06/10/2026, às 11h28
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Por Luiza Lopes/Folhapress

O Einstein Hospital Israelita passou a oferecer o primeiro teste comercial disponível no país que busca, em uma amostra de sangue, sinais moleculares associados a mais de 50 tipos de câncer.


Chamado Galleri, o teste foi desenvolvido pela empresa norte-americana Grail e é comercializado no Brasil pela Genesis Genomics, joint venture do Einstein com o Grupo Fleury.


O exame custa R$ 6.990 e é feito mediante solicitação médica. Ele não é coberto pelos planos de saúde. A Genesis também oferece uma teleconsulta para pessoas interessadas que não tenham pedido médico. Se houver indicação, o profissional pode solicitar o teste.
A coleta é feita nas unidades do Einstein ou do Fleury, mas a amostra é enviada aos Estados Unidos para processamento no laboratório da Grail. O resultado leva cerca de um mês.


O Galleri é indicado principalmente para adultos com 50 anos ou mais, sem sintomas sugestivos de câncer, faixa em que a incidência da doença começa a aumentar de forma mais acentuada. Pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco também podem ser consideradas.


O teste não é recomendado para gestantes nem para pacientes em tratamento ativo contra o câncer.


A proposta é que o Galleri seja um complemento às estratégias já existentes, inclusive para cânceres que não têm exames de rastreamento de rotina, como os de pâncreas, fígado e ovário.


Ele não substitui os métodos já recomendados, como a mamografia, a colonoscopia e o papanicolau.

COMO O EXAME FUNCIONA?


O Galleri é um tipo de biópsia líquida. Em vez de retirar um fragmento do tumor, como ocorre em uma biópsia convencional, o exame procura no sangue sinais que possam indicar a presença de células cancerígenas.


As células do organismo liberam naturalmente pequenos fragmentos de DNA na circulação. Células tumorais também podem liberar esse material.


O Galleri analisa esses fragmentos de DNA livre circulante e procura padrões de metilação, alterações químicas que ajudam a diferenciar o DNA de células cancerígenas do material liberado por células normais.


A partir desse conjunto de informações, o teste procura um padrão molecular associado ao câncer. Se encontra um sinal, o sistema também tenta indicar de qual órgão ou tecido ele provavelmente se originou. Isso permite direcionar os exames seguintes.


O desempenho, porém, não é igual para todos os tumores. Alguns tipos de câncer liberam mais DNA tumoral na circulação, enquanto outros liberam menos.


Fernando Moura, oncologista e gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein, cita como exemplo o câncer de pâncreas, que tende a liberar mais DNA tumoral no sangue do que o câncer de tireoide.


Isso não significa que um tumor com menor liberação de DNA não possa ser identificado, mas ajuda a explicar por que a capacidade de detecção varia conforme o tipo de câncer.


RESULTADO POSITIVO NÃO CONFIRMA CÂNCER


O Galleri é um teste de rastreamento, não um exame diagnóstico. Isso significa que um resultado positivo indica a presença de um sinal suspeito, mas não confirma que a pessoa tenha câncer.


Quando o teste identifica um sinal, ele fornece uma indicação sobre o possível local de origem. A partir daí, o paciente precisa passar por outros exames para verificar se existe um tumor e confirmar o diagnóstico.


No caso de um sinal que aponte para o pâncreas, por exemplo, podem ser necessários exames de imagem e outros procedimentos, como endoscopia ou colangiorressonância, e eventualmente uma biópsia para confirmar a presença da doença.


A lógica é semelhante à de outros exames de rastreamento. Uma alteração na mamografia, por exemplo, não significa automaticamente que a mulher tenha câncer de mama. Ela desencadeia uma investigação para confirmar ou descartar a doença.


RESULTADO NEGATIVO TAMBÉM NÃO DESCARTA CÂNCER


Um resultado negativo significa que o teste não encontrou o sinal molecular que procura, mas não exclui completamente a existência de um câncer.


Isso ocorre porque nem todos os tumores liberam a mesma quantidade de DNA na circulação e porque a capacidade de detecção varia também conforme o estágio da doença.


Também "não significa dizer que o indivíduo não venha a ter câncer no futuro", diz Moura. "Por esta razão, todos os testes de rastreamento já recomendados —a exemplo do câncer de colo de útero, colorretal, de mama, de próstata e de pulmão para quem fuma— não devem ser abandonados em hipótese alguma".


O QUE OS ESTUDOS MOSTRAM


As principais evidências clínicas sobre o Galleri vêm de estudos realizados nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.


Um dos primeiros foi o PATHFINDER. Ele avaliou 6.662 pessoas com 50 anos ou mais, sem sintomas de câncer, para verificar se o teste poderia ser usado na prática clínica.
Cerca de 1,4% dos participantes receberam um resultado positivo. Entre eles, 38% tiveram câncer posteriormente confirmado. O teste indicou corretamente a origem provável do tumor em 85% dos casos.


O PATHFINDER 2 ampliou a avaliação para 35.878 pessoas nos Estados Unidos e no Canadá. Os participantes foram acompanhados por 12 meses. O estudo encontrou especificidade de 99,6%, ou seja, o teste apresentou resultado negativo para quase todas as pessoas que não tinham câncer.


A capacidade de detectar a doença variou conforme o estágio. A sensibilidade foi de 21,4% nos tumores em estágio 1 e de 63,2% nos em estágio 4. Além disso, o teste indicou corretamente a provável origem do câncer em 91,3% dos casos.


Já o NHS-Galleri, realizado no Reino Unido com 142.250 pessoas de 50 a 77 anos, buscou responder se acrescentar o Galleri ao rastreamento convencional reduziria a ocorrência de cânceres diagnosticados nos estágios 3 e 4.


O resultado foi negativo. O estudo não encontrou redução estatisticamente significativa desses cânceres após três rodadas de rastreamento. No entanto, houve redução de 14% da incidência de câncer em estágio 4 e aumento da detecção de tumores nos estágios 1 e 2.
Ou seja, o Galleri consegue identificar sinais de câncer em pessoas sem sintomas e direcionar a investigação, mas ainda não é possível saber se isso se traduz em redução da mortalidade ou aumento da sobrevida - já que esse tipo de benefício só pode ser avaliado depois de anos de acompanhamento.


Segundo Paulo Campregher, CEO da Genesis, o mesmo ocorreu com outros exames de rastreamento, como a mamografia. "A demonstração de redução de mortalidade e benefício clínico é coisa para mais de uma década depois que você começa o teste", diz.


EINSTEIN PRETENDE ACOMPANHAR RESULTADOS


O Einstein criou um protocolo para acompanhar os pacientes que fizerem o teste. Antes da coleta, eles recebem orientação sobre o significado dos possíveis resultados e assinam um termo de consentimento.


Depois do exame, há previsão de retorno médico para discutir o resultado e definir os próximos passos, seja ele positivo ou negativo.


O hospital também pretende acompanhar esses pacientes e produzir dados sobre o desempenho do teste na população brasileira.


Segundo Sidney Klajner, presidente do Einstein, a intenção é gerar evidências locais, já que os estudos atuais foram realizados principalmente em outros países.


"Não adianta importarmos resultados que aparecem em outros países, porque nossa população é mais diversa, mais miscigenada. Temos que ter aqui a nossa própria evidência também", afirma Klajner.

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