Cinema

Grupo de humor Porta dos Fundos estreia filme, candidato a maior bilheteria nacional de 2016

30/06/16 - 08h53 - Atualizado em 30/06/16 - 11h20
Hoje em dia

Patrulhamento sobre as posições políticas de artistas? Onda de conservadorismo que ameaça a livre expressão? Nada disso inibe Gregório Duvivier a falar o que pensa. “Só aumenta a minha vontade de bater. Essa escalada do fanatismo religioso, e que só mantém o nosso atraso, me dá mais raiva e aumenta as minhas forças para continuar batalhando”, registra.

O assunto da conversa é a estreia do primeiro longa-metragem do Porta dos Fundos, “Contrato Vitalício”, que estreia nesta quinta-feira (30) nos cinemas, mas é impossível não falar de política com o comediante, que não mede palavras em sua coluna semanal na “Folha de S. Paulo”. 

Além disso, na terça-feira (28), ele teve um embate ao vivo, na rádio “Jovem Pan”, com o pastor e deputado federal Marco Feliciano. Gregório havia acabado de criticá-lo, ao falar dos três processos movidos pelo parlamentar, quando Feliciano ligou para o programa e, entre outras acusações, indagou a razão de ele não promover humor com o islã. “Por que faz só com o cristianismo?”, atacou. A resposta não poderia ser mais irônica: “Porque não tem nenhum deputado islâmico roubando o meu dinheiro, senhor”.

Para Gregório, o cenário político atual está tão cheio de palhaçada que não resta outra função ao humorista a não ser fazer pensar. “Inverteram os papéis. Hoje temos uma piada de mau gosto, com um governo ilegítimo. Enquanto (Michel Temer) continuar, a piada subsistirá. Minha coluna é uma forma de resistir e lutar pela democracia. Primeiro é ‘Fora, Temer’. Depois o resto”.

Circo de horrores

E para não dizer que o Porta dos Fundos está incólume a críticas, ele se autoparodia no filme, ao tirar um sarro de quem consome vídeos na internet. Gregório concorda que o meio virtual é um dos protagonistas do circo de horrores do mundo pós-moderno. “É uma ótima definição. Nem George Orwell (autor do livro ‘1984’, em que ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão) poderia prever que nós seríamos as próprias câmeras, mostrando, de bom grado, a nossa intimidade”.

Apesar de o nascedouro do grupo ser a internet, onde é um campeão de visualizações, influenciando a forma de provocar o riso, Gregório nunca escondeu que o desejo era fazer um filme. “Foi fácil, porque nossa tendência é de histórias curtas, mas somos apaixonados por cinema. Fizemos um tributo a histórias longas. Espero que seja o primeiro de muitos outros”.

Em “Contrato Vitalício”, ele é um dos personagens principais, ao lado de Fábio Porchat. Gregório faz um diretor que desaparece por dez anos, após realizar um filme premiado, e volta obcecado com a ideia de alienígenas. Seu amigo e ator (Porchat), agora consagrado, é obrigado a fazer um novo filme, devido a um contrato assinado num guardanapo de papel, durante um porre.

O filme é um deleite para quem gosta de referências, muitas vezes citando nominalmente famosos. “A vida é cheia de referências. Quantos nomes próprios falamos hoje, famosos ou não? Houve um tempo em que, para falar Xuxa, dizíamos ‘Tuta’. Coca-Cola, ‘Tota-Tola’. É preciso dar nome aos bois. Se você perde a realidade, perde a graça”, diz o comediante, que ainda não sofreu nenhum processo. “Até agora, não por isso. Só de pastor deputado”.