O lendário gol de Pelé, considerado o mais bonito de sua carreira, agora é recriado em vídeo por inteligência artificial, após décadas de sua existência apenas na memória de testemunhas. O projeto, intitulado 'The Most Beautiful Goal Never Seen', foi lançado em parceria entre o Google Deepmind e a marca Pelé.
A recriação do gol envolveu extensa pesquisa histórica, utilizando relatos, fotos e registros do estádio para garantir precisão nos detalhes, como a vestimenta da época e a bola utilizada. A tecnologia de IA foi utilizada como uma ferramenta aliada, complementando o trabalho humano na produção do documentário.
O filme também inclui entrevistas com jogadores que testemunharam a jogada, como Pepe, e destaca a evolução das ferramentas de IA desde tentativas anteriores de recriação, como em 2004. A intenção do projeto foi não apenas reviver o gol, mas também preservar sua autenticidade histórica.
O gol tido como o mais bonito da carreira de Pelé (1940-2022) tinha sobrevivido apenas na memória e em relatos de quem o testemunhou, porque aconteceu em 1959, numa partida entre o Santos e o Juventus alguns anos antes da chegada do videotape ao futebol.
LEIA TAMBÉM
Agora, o lendário gol do estádio Conde Rodolfo Crespi, na rua Javari, na Mooca, zona leste de São Paulo, ganha uma versão em vídeo. Mas em vez de uma filmagem real, que não existia à época, a jogada surge recriada por inteligência artificial, no documentário "The Most Beautiful Goal Never Seen" (O Gol Mais Bonito Que Nunca Foi Visto).
Lançado mundialmente na manhã desta terça-feira (14), o filme é uma parceria entre o Google Deepmind, laboratório de pesquisa em IA da empresa de tecnologia, e a marca Pelé, administrada pela NR Sports. A recriação do gol foi feita com os modelos Gemini Omni, Veo 3 e Nano Banana.
O projeto foi gestado dentro do time que pesquisa aplicações de IA ao universo da mídia e entretenimento dentro do Google Deepmind, o mesmo que no ano passado já tinha realizado um projeto com a produtora Primordial Soup, do cineasta Darren Aronofsky, gerando o filme "Ancestra".
"Dois anos atrás, esse filme do Pelé não seria possível, porque o modelo [de IA de vídeo] não era bom o suficiente ainda. Não seria possível [recriar] o Pelé e dizermos: Ah, esse é o Pelé mesmo. Mas no vídeo agora, até a filha dele reconhece o pai", diz a brasileira Márcia Mayer, head de produção do Google Deepmind, que antes trabalhou na Pixar.
Ao contrário do que o senso comum pode imaginar, que a IA substituiria os seres humanos em um projeto assim, a tecnologia na verdade surge como uma ferramenta aliada num projeto que também só é possível graças ao trabalho de pessoas reais.
Para chegar à recriação do gol, primeiro, foi preciso uma extensa pesquisa histórica. Não só a partir dos relatos de quem viu o gol e da única foto conhecida da jogada em si, mas também buscando registros do estádio e fotos de época para ver o que o público vestia.
A pretensão do projeto, dizem seus organizadores, foi buscar a precisão histórica. De modo que até a chuteira que os jogadores usavam à época fosse igual.
"Tudo tem que ser baseado em alguma imagem que você resgatou", diz Gabe Ferreira, líder de criação e design do Google. "O estádio, a chuteira, a forma como as pessoas se vestiam Queríamos que tudo isso fosse realmente tratado como um material histórico."
Os humanos também entraram no roteiro e até na filmagem, que teve um set tradicional já que o gol de Pelé chegou a ser encenado por atores, filmados por seis câmeras, para captar o movimento dos corpos.
Ou seja, não basta inserir um prompt em um modelo de IA para recriar um evento histórico assim. Todo o material da pesquisa foi usado no processo.
"Se você compara a Javari que gravamos com a que aparece no filme, é diferente. Tivemos que alterar certos aspectos do estádio, porque ele foi reformado várias vezes desde 1959. Tivemos que usar essa base gravada e alterá-la com base nas fotos do acervo histórico", diz Gabe Ferreira.
Mesmo a bola que era usada no jogo original, mais pesada do que hoje em dia, foi recriada para que isso pudesse se refletir no movimento dos jogadores.
"As pessoas acham que você diz para o modelo 'faça esse gol' e o filme sai pronto. Mas não é. Tivemos que colocar todo cuidado no filme base, para ter autenticidade, fazer o que já era possível. E a IA entra para fazer o que antes era impossível", diz Márcia Mayer.
O documentário também traz diversas entrevistas, inclusive com Pepe, único jogador vivo que estava no time de Pelé.
Pelé tinha 18 anos quando marcou o gol da rua Javari. O rei tinha aberto o placar aos 24 minutos do primeiro tempo contra o Juventus e ampliou a vantagem aos 7 minutos do segundo.
A torcida juventina - cerca de 10 mil pessoas, segundo relatos - decidiu então hostilizar o craque. A cada toque na bola, vinham vaias da arquibancada.
Em uma tentativa de ataque do Juventus, o Santos rouba a bola e inicia um contra-ataque. O ponta-direita Dorval então avança e lança a bola na direção da entrada da área, onde Pelé, marcado por um rival, esperava.
Sem deixar a bola tocar o chão, Pelé dá uma meia-lua em Homero. Então a bola quica pela última vez num lance de cinco segundos, Pelé dá um chapéu eem Clóvis, dá outro em Julinho - sem deixar a bola cair - e, ainda sem deixar a pelota tocar o chão, chapela o goleiro Mão de Onça, que cai de cara na grama. Pelé então faz o gol de cabeça, da entrada da pequena área.
Segundos depois, o rei ainda criou uma das comemorações mais famosas do futebol: o soco no ar. Os próprios rivais do Juventus aplaudiram o craque e, antes de o jogo recomeçar, foram cumprimentá-lo.
Não é a primeira vez que a jogada é recriada com a ajuda da tecnologia. Em 2004, o documentário "Pelé Eterno" recriou o gol com a ajuda de computação gráfica, mas os recursos disponíveis à época estavam aquém do que as ferramentas de IA generativa permitem fazer hoje.
VEJA A SEGUIR:
LEIA MAIS
+Lidas