Economia

Indústria sobe preços de itens de consumo

Valor Econômico | 23/09/20 - 16h58 - Atualizado em 23/09/20 - 17h38

Redes de supermercados estão recebendo novas tabelas de preços mais salgados, de alimentos industrializados, bebidas, produtos de higiene, limpeza e têxteis. Os fabricantes alegam pressão de custos, devido a insumos mais caros e escassos. O ritmo de entregas dos pedidos diminuiu - a indústria não consegue entregar o volume encomendado por varejistas e atacadistas. O Valor teve acesso a cartas enviadas por pelo menos três indústrias de diferentes segmentos a comerciantes nos últimos dez dias, pedindo “paciência” nas negociações.

O aumento do consumo nos últimos meses, turbinado pelo auxílio emergencial de R$ 600, e a subida do dólar ajudam a puxar o movimento de reajustes de preços. A demanda maior não encontra expansão equivalente da produção. Em reuniões on-line, fabricantes não projetam normalização desse descompasso até o fim do ano.

O movimento de alta nos preços já está sendo captado pelos índices de inflação. O IPCA, medido pelo IBGE, teve em agosto a maior elevação para o mês desde 2016 - de janeiro a agosto deste ano, a taxa sobe 0,70% e em 12 meses, 2,44%. Já o IGP-M, que reflete a variação dos preços no atacado, acumula alta de 9,64% no ano até agosto e de 13,02% em 12 meses, reflexo da alta das commodities e dólar forte.

“É uma situação que nunca vi. Há demanda sobrando com essa renda extra que entrou, mas a fábrica não produz mais, não abre turno novo. A resposta que temos é que falta insumo. E que não sabem como será 2021, e fica arriscado investir para produzir e contratar mais”, diz um diretor de uma rede de hipermercados há 20 anos no setor.

Em carta à equipe comercial de varejistas, a Bettanin, fabricante de produtos de limpeza, informou que há falta e demora na entrega de insumos, como embalagens, e “grande alta” nos preços dessas matérias-primas. A fabricante alega que o aumento no consumo de produtos para casa ocorre em todos os países e há falta de matérias-primas. A Bettanin também sofre com atrasos por falta de contêineres ou vaga para despachar nos navios. Na mensagem, a companhia pede paciência aos varejistas e diz que está trabalhando para evitar a falta de produtos.

Aguinaldo Fantinelli, diretor geral da Bettanin, disse ao Valor que o comunicado foi enviado como um alerta ao varejo. “A nossa intenção foi avisar que, nos próximos dias, pode haver atraso nas entregas por causa da escassez de matérias-primas e da alta nos preços, principalmente das resinas plásticas e do aço”. O executivo disse que um pedido do varejo que antes era entregue em cinco dias, pode demorar agora sete.

De acordo com Fantinelli, as vendas da companhia crescem em média 25% neste ano. Mas categorias como sacos para lixo, panos de limpeza e luvas crescem 50%. A demanda por esponja cresce 30% e os esfregões tipo MOP, 40%. A companhia reajustou seus preços neste ano em 5%, na média. 

“Consigo atender a demanda 25% maior que temos visto ao longo do ano, mas uma demanda acima disso fica mais difícil atender”, diz Fantinelli. O executivo tem buscado ampliar a lista de fornecedores no Brasil e no exterior e já ampliou de dois para três o número de turnos nas suas fábricas no Rio Grande do Sul e em Pernambuco para atender a demanda.

Em mensagem a varejistas, data de 15 de setembro, a Vibelplast, que trabalha com impressão de embalagens para indústria de alimentos, informou os parceiros que há escassez de insumos e a “única preocupação [é de] como ficará o abastecimento de produtos em geral”. Em seu site, a empresa informa que fornece para a Arcor, Santa Amalia, Jundiá Sorvetes, entre outras.

“Acompanhando a oferta global e a taxa de câmbio, é possível que tenhamos mais surpresas desfavoráveis nos próximos meses. Assim fica o alerta sobre aumentos insustentáveis das matérias-primas e da forte probabilidade de enfrentarmos a escassez de produtos”, e continua: “Não será possível garantir os preços dos pedidos já colocados e a data exata da entrega por motivo de força maior e fora do controle como segue essa fase difícil a qual nunca vivenciamos”, diz a carta da Vibelplast. Procurada, a empresa não respondeu ao pedido de entrevista.

A Zanotti, que produz insumos para a área têxtil como elásticos e fitas, informou no dia 10 que está suspendendo temporariamente suas vendas. Isso ocorre “considerando o cenário atípico que estamos enfrentando e forte entrada de pedidos nos últimos 30 dias”. A intenção com a parada é “principalmente continuar honrando” a entrega de pedidos já recebidos. Procurada, a empresa preferiu não comentar o assunto.

O Grupo BIG (ex-Walmart) confirma movimento de alta nos preços em produtos além da cesta básica, como cerveja, itens de limpeza e higiene e afirma que tem limitado venda de certos produtos da cesta (arroz e óleo, por exemplo) para manter o direito de compra a todos. O Carrefour diz que está empenhado em buscar soluções junto a parceiros e indústria para manter lojas abastecidas e atender ao maior número de clientes - algumas de suas lojas têm limitado a venda de alguns produtos, ou seja, o consumidor não pode comprar o volume que quiser. O GPA diz que trabalha para manter a disponibilidade e oferta de produtos aos clientes.

Empresas como Nestlé, Unilever, Mondelez, Ambev e Heineken estão no grupo de companhias que já repassaram tabelas de aumentos nas últimas semanas. “Na Nestlé foram três novas tabelas em oito meses, na Unilever e Mondelez foram dois pedidos, cada, que variam de 3% a 10%, a depender da empresa e da categoria, concentrado após março. Alegam alta nas embalagens e nos plásticos, além do leite, que compõe a linha de laticínios”, diz o CEO de uma atacadista com 30 lojas.

Procurada, a Nestlé afirmou em nota que, “sobre a questão de abastecimento, à luz da nova realidade, aumentamos o estoque de categorias essenciais nas quais observamos um incremento rápido da demanda como lácteos, cereais, culinários, entre outros, que também tiveram aceleração de vendas e estão operando com capacidade total de produção. Também houve aumento de estoque de matérias-primas e embalagens, de forma a assegurar a continuidade da produção”. A Unilever e a Mondelez não quiseram comentar sobre o assunto.

A Ambev informou que fará aumentos nos preços ao longo do segundo semestre e que os reajustes variam por tipo de estabelecimento e de produto. Na média, segundo a companhia, o aumentou recente foi de 3,5%. Informou ainda que não registrou falta de produto recentemente e que está fazendo suas entregas normalmente.

A Heineken diz que a distribuição de seus produtos segue normalizada. A empresa adotou, a partir de setembro, uma nova tabela de preços para alguns de seus produtos. “O reajuste está relacionado à dinâmica natural do mercado brasileiro e à necessidade de compensar o impacto da valorização do dólar, uma vez que grande parte dos insumos envolvidos na produção das cervejas, incluindo, principalmente, o malte e materiais de embalagens, é importada”, informa a Heineken.

O dólar mais forte encarece mercadorias que levam plásticos, papelão (embalagens) e alumínio, mas há outro fator que pesa nessa conta. Um atacadista diz que as indústrias alegam falta de embalagens recicladas, por conta da queda na coleta desse material após a pandemia. “Cerca de 90% das embalagens de alimentos no país usadas pelas empresas são recicladas, e esse material sumiu. Essa mão de obra diminuiu muito com a pandemia. Falam que muitas vezes têm o produto, mas falta embalagem”, disz a fonte.

O descompasso entre oferta e demanda tem sido debatido entre varejo e indústria. Nas últimas reuniões as áreas comerciais de supermercados e seus fornecedores, as indústrias afirmam que não farão investimentos para aumentar a produção no país, apesar de o varejo relatar alta na demanda.

“O que as multinacionais fizeram foi concentrar produção nos itens que mais vendem, como forma de evitar aumento de ruptura. Ninguém quer fazer um movimento mais brusco de investimento agora, se estocar com insumos mais caros correndo o risco de virar o ano e, depois, a demanda cair com a redução no auxílio emergencial. É até compreensível a postura deles. Há uma grande dúvida para 2021. Mas também alguns já bateram em agosto a meta de rentabilidade do ano. Isso reduz a pressão pela venda, por fazer volume ”, diz um CEO de uma rede com cerca de 40 hipermercados.

Ouvidos pelo Valor, interlocutores das indústrias, ligados a associações setoriais, dizem que os reajustes de preços vinham sendo represados nos últimos meses. “Seguramos repasses muito tempo, é preciso ser razoável”, diz um interlocutor ligado à indústria da alimentação. Procurada, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) não comentou.