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Mortes ocorreram em 12 pontos do Jacarezinho; homem foi achado sem arma

Folha de S. Paulo | 08/05/21 - 15h55 - Atualizado em 08/05/21 - 15h59
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Os registros de ocorrências das 27 mortes de civis na quinta-feira (6) durante a operação na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, mostram que elas ocorreram em 12 pontos distintos da comunidade. Os documentos indicam o envolvimento de 29 policiais nos homicídios sob investigação.

Uma das ocorrências que mais chamaram a atenção de defensores públicos e membros de entidades de direitos humanos ocorreu sem a apreensão de qualquer arma. Trata-se de um homem encontrado numa cadeira de plástico num beco da favela.

De acordo com o registro de ocorrência deste caso, a vítima, ainda não identificada, foi encontrada por dois policiais após a troca de tiros.

O resumo da ocorrência indica que os agentes avistaram “um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira, o qual socorreu para o Hospital Municipal Souza Aguiar”. Não há descrição de nenhuma arma apreendida no local.

A Defensoria Pública apontou que a retirada do corpo da área do crime impediu a realização de perícia de local para auxiliar nas investigações do caso.

Uma foto deste homem foi publicada pelo advogado Joel Luiz da Costa, morador do Jacarezinho. Ele apontou como um dos casos de execuções extralegais na favela.

A Folha teve acesso aos 12 registros, mas não ao depoimento dos policiais que detalham as ocorrências. A Polícia Civil não divulgou os documentos.

Esta foi a operação mais letal da história do Rio de Janeiro, deixando 28 mortos --além dos 27 civis, um policial também foi morto.

A ação teve como alvos 21 réus sob acusação de associação ao tráfico. A denúncia contra eles tem como base fotos publicadas em redes sociais em que aparecem armados. Apenas três dos mortos eram alvos dos mandados de prisão expedidos pela Justiça. Outros três foram presos, segundo a polícia.

Os registros na Divisão de Homicídios foram feitos entre as 15h e as 21h de quinta. A maior parte depois do chefe do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegado Roberto Cardoso, dizer que “não houve execução” nas ocorrências.

O confronto mais letal, de acordo com os documentos, vitimou sete pessoas. Não há detalhes sobre a troca de tiros no campo para resumo do fato. A ocorrência envolveu oito policiais.

O mesmo ocorre na descrição da morte de outros seis homens pela polícia. Neste caso, o resumo informa apenas que os homicídios ocorreram na Travessa Santa Laura, envolvendo três agentes.

Há três registros de ocorrência que descrevem mortes dentro de residências. Numa, onde dois homens foram mortos, os dois policiais relataram que houve o lançamento de uma granada que não detonou. Um homem também foi preso nesta ação.

Um homem identificado como Omar Pereira da Silva foi morto dentro de uma casa num local chamado de “beco da Síria”. O policial envolvido no caso afirma que ele atirou de dentro do imóvel. A sogra dele diz que ele estava baleado no pé, mas policiais atiraram nele em frente a um colega e à mãe desse colega.

“Eu estava do lado de fora com minha filha pedindo socorro”, afirmou.

Em outro local, a polícia afirma que dois homens foram mortos após coagir uma família. Houve troca de tiros, segundo os dois agentes envolvidos na ocorrência.

As mortes dentro de residências também foram um dos focos de queixa da Defensoria Pública sobre ausência de preservação do local do crime para perícia. De acordo com os registros, apenas a morte no chamado “beco da Síria” contou com análise de peritos após o crime.

Entre os 12 registros, há menção de perícia de local em apenas 2 ocorrências.

Em todos os casos, à exceção do homem encontrado morto na cadeira de plástico, houve apreensão de armas ou explosivos em número igual ou maior ao de vítimas.

No total, foram apreendidos cinco fuzis, 16 pistolas, uma submetralhadora, duas espingardas e seis granadas nessas ocorrências. O montante representa quase a totalidade do armamento apresentado como resultado da operação pela Polícia Civil.

A polícia nega que tenha ocorrido irregularidades nas mortes provocadas por seus agentes. Afirma que todos atuaram em legítima de defesa.

O Ministério Público do Rio de Janeiro afirmou que realiza uma investigação independente para esclarecer as mortes no Jacarezinho.

“Desde o conhecimento das primeiras notícias referentes à operação, o MP-RJ vem adotando todas as medidas para verificação das circunstâncias em que ocorreram as mortes. Ainda ontem, o MP-RJ se dirigiu à comunidade do Jacarezinho, por meio de três promotores de Justiça e três estruturas próprias distintas: o Grupo Temático Temporário (GTT) – Operações Policiais (ADPF 635-STF), a Coordenadoria-Geral de Segurança Pública e a Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ)”, afirmou a Promotoria, em nota.