Motivo religioso atrasa as autópsias de turistas mortos em mergulho nas Maldivas

'Normalmente, não se realizam autópsias nas Maldivas; não tenho conhecimento de nenhuma que tenha sido realizada no passado', afirmou embaixador italiano sobre o país muçulmano sunita

Publicado em 19/05/2026, às 16h02
Reprodução/Redes sociais
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Por Extra Online

O resgate dos corpos de turistas italianos que morreram durante um mergulho em cavernas nas Maldivas enfrenta atrasos devido à falta de autópsias, uma prática não comum no país muçulmano, o que dificulta a investigação sobre a causa da tragédia.

A Procuradoria de Roma abriu uma investigação por homicídio culposo, enquanto a operadora turística Albatros Top Boat alega não ter conhecimento sobre o mergulho em profundidade superior a 30 metros, que é considerado arriscado e requer autorização específica.

O governo das Maldivas afirmou que o grupo tinha permissão para mergulhar em profundidades maiores, mas a licença do iate utilizado para o mergulho estava irregular, complicando ainda mais a situação, que já resultou na morte de um mergulhador militar durante as operações de resgate.

Resumo gerado por IA

O primeiro corpo recuperado do grupo de turistas italianos mortos durante mergulho em cavernas submarinas nas Maldivas na última quinta-feira (14/5), trazido à superfície no dia seguinte, ainda não passou por autópsia, atrasando a busca por informações que poderiam esclarecer a causa da tragédia. Os restos mortais do instrutor de mergulho Gianluca Benedetti chegaram a Milão (Itália) nesta terça-feira (19/5) sem qualquer exame inicial.

O embaixador italiano no Sri Lanka (que também cobre as Maldivas), Damiano Francovigh, explicou ao jornal "Il Messaggero" que, "normalmente, não se realizam autópsias nas Maldivas".

"Não tenho conhecimento de nenhuma que tenha sido realizada no passado", acrescentou ele.

O motivo é religioso. A República das Maldivas é um país muçulmano sunita e, por esse motivo, os exames externos de cadáveres são limitados àqueles sob investigação judicial, sendo, assim obrigatórios por força da lei. A tradição islâmica (tanto sunita quanto xiita) geralmente desaconselha a autópsia porque a religião preza pela integridade e santidade do corpo após a morte. Se o exame for estritamente necessário para salvar a vida de outra pessoa ou para identificar uma doença contagiosa que ponha a comunidade em risco, ele costuma ser aceito por líderes religiosos.

Da mesma forma, se a recuperação dos dois últimos corpos restantes nas cavernas for concluída amanhã — na manhã desta terça-feira, os corpos de Monica Montefalcone e Federico Gualtieri foram trazidos à superfície —, esses quatro corpos serão transportados para a Itália sem uma autópsia prévia. Uma sexta integrante do grupo se salvou ao desistir na última hora do mergulho.

Investigação de homicídio culposo

De acordo com o jornal "Libero Quotiano", a Procuradoria de Roma abriu uma investigação por homicídio culposo. Os investigadores planejam realizar autópsias nos corpos das vítimas assim que eles retornarem à Itália. Os donos da Albatros Top Boat, a operadora turística de Verbania (Itália) que vendeu o pacote de cruzeiro de mergulho que custou a vida de cinco italianos, pode ser indiciada.

Uma advogada da Albatros Top Boat afirmou que a empresa desconhecia que o grupo de turistas pretendia fazer um mergulho com profundidade superior a 30 metros, o limite máximo permitido nas águas do país no Índico.

"Mergulhar a mais de trinta metros constitui uma infração administrativa, e ultrapassar esse limite exige uma ordem específica das autoridades marítimas maldivianas, autorização que, pelo menos da nossa parte", afirma Orietta Stella, "não foi solicitada".

O governo das Maldivas rebateu a agência e declarou que o grupo tinha autorização para mergulhar a profundidades superiores a 30 metros.

O problema foi outro, de acordo com Mohamed Hussain Shareef, porta-voz da Presidência das Maldivas:

"A proposta de pesquisa deles, até onde eu sei, não mencionava mergulho em cavernas. Nós, como governo, não sabíamos que eles iriam fazer um mergulho em cavernas."

O mergulho em cavernas entre 50 e 60 metros de profundidade, afirmam especialistas, exige um maior preparo técnico e uma combinação diferente no cilindro de oxigênio. A atividade é considerada arriscada.

Shareef declarou, ainda, que havia problema com a licença turística do iate Duke of York, contratado pela Albatros Top Boat, para levar o grupo ao Atol de Vaavu. A embarcação não tinha autorização para levar turistas para mergulho mais profundo, especialmente em cavernas.

No sábado (16/5), um mergulhador militar das Maldivas morreu durante a tentativa de resgate, vítima de doença descompressiva, elevando para seis o número total de mortos no caso.

Missão de resgate dos corpos

A Divers' Alert Network Europe, responsável pelo envio dos três mergulhadores finlandeses, afirmou em seu site que eles são mergulhadores técnicos e especializados em cavernas, com experiência internacional em missões de busca e resgate, incluindo operações em "ambientes profundos e confinados, espaços restritos e cenários de alto risco".

A equipe utiliza sistemas técnicos avançados, incluindo rebreathers de circuito fechado, um sistema que recicla o gás expirado e remove o dióxido de carbono por meio de um filtro químico, permitindo "mergulhos significativamente mais longos", segundo a organização.

Cada tentativa de mergulho para recuperar os corpos dura cerca de três horas e é imediatamente abortada caso algum obstáculo seja encontrado. O trio de elite consegue mergulhar a profundidades de quase 150 metros – uma habilidade fundamental que os ajudou a localizar os turistas.

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