Quando saboreamos um sururu ao leite de coco, dificilmente imaginamos o trabalho necessário para que aquele molusco amarelinho chegue limpo na cozinha. Para produzir apenas um quilo da carne do sururu são necessários entre 8 e 20 quilos do produto ainda na casca. É um trabalho minucioso, paciente e quase sempre invisível, realizado principalmente pelas mãos das mulheres. Na Lagoa Mundaú, a pesca artesanal continua sendo uma atividade predominantemente masculina. Já o despinicar, retirar o sururu da casca, limpar e preparar o molusco para o consumo, é uma missão feminina. É dessa realidade que nasceu, em 2017, a Cooperativa de Marisqueiras Mulheres Guerreiras (Coopmaris), formada por cerca de 30 mulheres que decidiram transformar um trabalho historicamente informal em uma atividade organizada, digna e capaz de abrir portas para novos mercados.
LEIA TAMBÉM
Mais do que comercializar sururu, a cooperativa passou a construir cidadania. Com o apoio de instituições como UFAL, IFAL, Ministério Público do Trabalho, Sindred, Sicredi e outras entidades parceiras, as marisqueiras conquistaram melhores condições de trabalho, capacitação e reconhecimento profissional.
Crédito social
Assim como um bom sururu precisa de leite de coco, tomate, cebola, coentro e pimentão, a receita da Coopmaris também reúne ingredientes fundamentais: união, cooperação e parcerias. Um dos exemplos veio do Fundo Social da Sicredi Expansão, que destinou R$ 15 mil para adequações sanitárias da sede da cooperativa. O investimento permitiu que as mulheres deixassem para trás o trabalho precário realizado em bancas improvisadas, com latas de tinta transformadas em fogões e pó de serra como combustível. Trabalhávamos da manhã até a madrugada, muitas vezes na chuva e com nossos filhos ao lado", lembra Vanessa dos Santos Silva, presidente da Coopmaris.
A cooperativa nasceu justamente para romper um ciclo de vulnerabilidade. O projeto reuniu universidades, organizações sociais, empresas e o Ministério Público do Trabalho com o objetivo de combater a exploração dos atravessadores, retirar as trabalhadoras da informalidade e afastar crianças do trabalho infantil, realidade que durante muitos anos marcou a cadeia produtiva do sururu.
INVERNO INSEGURO
A maioria das cooperadas é formada por mães solo, que têm no sururu sua principal fonte de renda. Mas a atividade enfrenta outro desafio: durante o inverno, a água da Lagoa Mundaú perde salinidade e o molusco não sobrevive. A pesca praticamente desaparece até setembro.
"Nesse período vivemos do pouco sururu que conseguimos congelar. Quando o estoque acaba, muitas cooperadas recorrem a trabalhos de faxina para sustentar a família", explica Vanessa.
Enquanto os pescadores artesanais têm acesso ao Seguro-Defeso, benefício equivalente a um salário mínimo durante o período em que a pesca é proibida ou inviável, as marisqueiras ainda permanecem sem uma política pública semelhante, apesar de dependerem diretamente da mesma cadeia produtiva.
Novas receitas
A oficina promovida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (SESCOOP) Alagoas, conduzida pela nutricionista Maria Helena Menezes, deixou um importante resultado para as cooperadas da COOPMARIS: um cardápio de novas receitas que amplia as possibilidades de comercialização do sururu e fortalece a geração de renda, a capacitação uniu inovação e boas práticas na produção de alimentos.
Entre as novidades desenvolvidas estão a farofa de sururu, o sururu desidratado, os bolinhos de camarão, o croquete de sururu com massa de macaxeira e o biscoito de sururu com ervas. Mais do que diversificar o portfólio da cooperativa, as novas receitas representam a oportunidade de conquistar novos mercados e agregar valor a um dos maiores símbolos da gastronomia alagoana.
NOVOS MERCADOS
Outro desafio é ampliar a comercialização. Atualmente, em Maceió, apenas a Bodega do Sertão compra regularmente o sururu beneficiado pela cooperativa. A proposta de incluir o produto na merenda escolar da rede municipal chegou a ser discutida, mas ainda não saiu do papel. Sem compradores suficientes, grande parte da produção continua sendo vendida aos atravessadores, reduzindo a renda das trabalhadoras.Abrir novos mercados é hoje uma das maiores necessidades da Coopmaris. Cada restaurante, supermercado, programa de alimentação pública ou consumidor que opta pelo sururu beneficiado pela cooperativa fortalece o empreendedorismo feminino, valoriza um patrimônio da gastronomia alagoana e ajuda dezenas de mulheres a escreverem uma história de autonomia, trabalho e dignidade.
LEIA MAIS
+Lidas