“Não é remorso. É encerramento de performance”, diz psiquiatra sobre ataque em escola no Acre

Publicado em 06/05/2026, às 16h08
Imagem “Não é remorso. É encerramento de performance”, diz psiquiatra sobre ataque em escola no Acre

Por Redação

Um ataque a tiros em um colégio em Rio Branco, Acre, resultou na morte de duas funcionárias e deixou outras duas pessoas feridas, com um adolescente de 13 anos identificado como autor do crime sob custódia do Estado.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa analisa o ato como uma execução planejada, destacando que o agressor demonstrou controle e intenção ao realizar os disparos, desafiando a narrativa de vitimização comum em casos de violência escolar.

A Polícia Civil investiga as circunstâncias do ataque e busca entender as motivações por trás do ato, enquanto a discussão sobre a responsabilidade do agressor e o impacto do bullying continua a ser debatida na sociedade.

Resumo gerado por IA

O disparo com arma de fogo que atingiu quatro pessoas nessa terça-feira (5), após um ataque no colégio Instituto São José, em Rio Branco, no Acre, continua repercutindo. Um menor, de 13 anos, que efetuou os disparos já foi identificado, assumiu a autoria dos disparos e encontra-se sob a custódia do Estado. Duas pessoas morreram no local.

Nas redes sociais, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, aproveitou o episódio para falar com mais profudidade sobre esse tipo de violência.

“Se isso te incomodou, provavelmente tocou em algo verdadeiro. Você vai ouvir muito sobre bullying. Sobre internet. Sobre o sistema. Sobre abandono emocional. Sobre sofrimento psicológico. E tudo isso pode fazer parte da história” argumenta.

Mas existe um ponto que, segundo a Ana Beatriz, não pode ser ignorado: o significado do ato final.

O garoto entrou armado na escola. Levou três carregadores. Escolheu seus movimentos. Escolheu os alvos. Atirou contra duas mulheres que tentavam impedir o ataque e proteger crianças. Depois saiu do local, caminhou até um quartel da Polícia Militar e se entregou.

Para Ana Beatriz, a sequência desses atos importa. Ela sustenta que não houve colapso emocional desorganizado, nem perda total de consciência sobre o que estava acontecendo. O que houve, segundo sua visão psiquiátrica, foi execução.

“Cada etapa daquele dia foi uma escolha. Abrir o cofre. Pegar a arma. Separar os carregadores. Entrar fardado. Atirar na cabeça de duas mulheres. Caminhar até o quartel. Entregar-se”, diz.

Na interpretação da psiquiatra, a entrega voluntária após o ataque não representa necessariamente remorso. Em muitos casos de violência extrema, ela pode simbolizar o encerramento daquilo que o agressor entendia como uma performance.

“Não é remorso. É encerramento de performance.”

A análise exposta por Ana Beatriz se apoia na ideia de que alguns perpetradores desejam controlar a narrativa do próprio ato. "Não fogem. Não desaparecem. Não entram em pânico. Ao contrário: permanecem organizados até o fim porque querem assistir ao impacto do que fizeram"

Por isso, ela questiona a tendência imediata de transformar o agressor exclusivamente em vítima das circunstâncias.

A investigação policial trabalha com a hipótese de bullying. Mas a psiquiatra argumenta que sofrimento não explica sozinho planejamento homicida.

“Bullying explica a dor. Não explica a pistola. Não explica os três carregadores. Não explica os tiros na cabeça. Não explica o garoto que foi se entregar.”

Segundo Ana Beatriz, existe um padrão frequentemente documentado em casos de violência escolar: a construção posterior de narrativas de vitimização que acabam diluindo responsabilidade individual.

“Porque funciona. Porque distribui culpa. Porque enfraquece a responsabilização.”

A psiquiatra também chama atenção para elementos técnicos do ataque. Os disparos foram feitos na cabeça, à frente, contra pessoas em movimento, sem hesitação. Para ela, isso aponta mais para decisão deliberada do que para explosão emocional descontrolada.

Outro ponto destacado é o fato de o ataque só ter terminado porque o adolescente não conseguiu continuar operando a arma.

“Não foi consciência que parou o ataque. Foi incompetência técnica.”

Ana Beatriz argumenta que controle e maldade não são conceitos opostos. Em determinados crimes, justamente o autocontrole é o elemento que torna a violência ainda mais grave.

“Controle e maldade não são opostos. Às vezes, o maior sinal de maldade é exatamente o controle.”

Ela compara a situação a um profissional que atua com precisão.

“Um cirurgião que opera com precisão não pode alegar depois que não controlava as mãos. Um atirador que planeja, executa e se entrega ordenadamente também não pode ser tratado como alguém que perdeu completamente o controle.”

Ao final, a psiquiatra reconhece o desconforto causado por essa leitura, especialmente porque se trata de um adolescente de apenas 13 anos.

“Eu sei que é difícil olhar para um menino de 13 anos e dizer: ele sabia o que estava fazendo.”

Ainda assim, ela sustenta que a obrigação ética de quem analisa comportamento humano é encarar os fatos sem suavizações emocionais.

A sequência observada, segundo sua interpretação, revela planejamento, intenção e consciência dos próprios atos.

“Ele sabia o que estava fazendo. E fez mesmo assim.”

O ataque

Segundo o Governo do Acre, três funcionárias e um aluno foram atingidos. Duas profissionais morreram no local e as outras vítimas foram encaminhadas ao Pronto-Socorro da região

A Polícia Civil do estado segue apurando as circunstâncias do fato e já instaurou um procedimento investigativo para esclarecer a motivação, a dinâmica da ocorrência e eventuais responsabilidades.  

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