Contextualizando

O peso da corrupção no processo eleitoral

Em 16 de Agosto de 2026 às 11:00

Jornalista Guilherme Resck:

"As pesquisas de intenção de voto das eleições de 2026 reforçam que o eleitorado brasileiro tem uma tolerância significativa com a corrupção no país.

Embora a corrupção seja um dos temas que mais preocupam os brasileiros, com 36% das pessoas dizendo ser o maior problema do país, segundo pesquisa Ipsos de julho, candidatos investigados ou envolvidos em relações suspeitas seguem entre os preferidos.

O caso mais emblemático é o do presidente Lula (PT), que teve seus três governos marcados por escândalos de corrupção e segue liderando em intenções de voto para presidente da República, com chances reais de chegar ao quarto mandato.

O senador e pré-candidato do PL a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, está em segundo lugar nas intenções de voto, em empate técnico com Lula, apesar de sua proximidade com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

Os senadores Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, e Jaques Wagner (PT), ex-líder do governo Lula no Senado, são outros nomes com chances reais de atingirem seus objetivos nas eleições de 2026, mesmo suspeitos de envolvimento em esquema de corrupção.

Pré-candidatos à reeleição, ambos são investigados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes financeiras, corrupção e lavagem de dinheiro relacionados ao Master.

Nogueira tem 15% das intenções de voto para senador pelo Piauí, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada em 21 de julho. Numericamente, está em segundo lugar, atrás apenas de Marcelo Castro (MDB), que tem 20,4%.

Em relação a Jaques Wagner, há suspeita de suposto recebimento de vantagens indevidas e atuação parlamentar para beneficiar o Master. 

Mas pesquisa RealTime Big Data divulgada na terça, 11, mostra o senador em segundo lugar nas intenções de voto na Bahia, com 20%, atrás apenas de Rui Costa (PT), que tem 25%.

Tanto na Bahia como no Piauí, estão em disputa duas vagas de senador em 2026.

A tolerância do eleitorado brasileiro com a corrupção tem origem em problemas culturais e sociais.

Historicamente, em regra, o brasileiro não sabe separar o que é público daquilo que é privado. 

Além disso, no cotidiano, pequenas burlas à lei são aceitas. É o 'jeitinho brasileiro', uma zona cinzenta entre o que é o favor, o que é legal e o que é crime.

'Se, nas relações cotidianas, os brasileiros não percebem determinadas práticas como crime, então não há motivo para pensar que a corrupção será um elemento decisivo para o voto do eleitor', diz o cientista político Cléber de Deus, coordenador do Núcleo de Estudos Políticos e Eleitorais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Além disso, parece existir uma dessensibilização de brasileiros sobre o tema da corrupção.

'A repetição do tema, envolvendo múltiplos partidos, transmite a ideia de que ninguém presta na política, igualando as expectativas do eleitor a um patamar baixo', diz o cientista político Magno Karl, diretor-executivo do Livres.

Outro ponto importante é que o voto tornou-se menos baseado em um cálculo racional sobre planos de governo e uma análise do histórico dos candidatos. Hoje é muito mais uma manifestação de identidade política.

Ao assumir uma identidade política, o brasileiro politizado estabelece novos laços sociais, que fortalecem uma mesma visão de mundo e dificultam o contato com quem pensa de outra maneira.

Assim, mesmo quando as pessoas descobrem que o candidato preferido de seu partido foi flagrado em atos pouco republicanos, elas evitam mudar de opinião.

'Nossas crenças não ficam guardadas numa região puramente intelectual. Elas se misturam à família, à religião, ao grupo político, às amizades, à memória, à posição social, às escolhas que fizemos e à imagem que cultivamos de nós mesmos. Mudar de opinião pode custar muito mais do que admitir um erro lógico', escreve Dennys Xavier em Crusoé ('Fé e razão: o básico').

'Em certos casos, significa reconhecer que passamos anos defendendo uma ideia falsa. Em outros, pode significar desagradar pessoas que amamos ou perder a aprovação de um grupo ao qual pertencemos', afirma Dennys.

O caminho mais comum costuma ser o de relativizar os erros do seu candidato de estimação, ao mesmo tempo em que se exageram os defeitos do candidato adversário.

A polarização, assim, acaba blindando Lula, Flávio e Jaques Wagner das suspeitas levantadas contra eles, porque o custo de trocar de lado supera o de tolerar o desvio do seu próprio lado.

Sendo assim, mesmo que a corrupção apareça entre os temas que mais preocupam o brasileiro, há sérias dúvidas de que isso importe na hora do voto.”

Gostou? Compartilhe