Escritor Emídio Morais:
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"Entre promessas, escândalos, discursos inflamados e grupos de WhatsApp, o Brasil continua à procura de um futuro que não venha acompanhado de boleto.
Com a devida autorização, tomo emprestada uma reflexão do colega, escritor e cronista Orlando Salvador, com quem compartilho a participação em grupos de WhatsApp, especialmente aqueles que nasceram de antigas relações profissionais.
A ideia é simples: grupos criados para aproximar pessoas não deveriam se transformar em trincheiras políticas, onde amizades antigas são sacrificadas no altar das convicções partidárias. Afinal, a finalidade é matar a saudade, não matar o companheirismo.
Cada um tem o direito de pensar como quiser.
Respeitar opiniões divergentes é sinal de civilidade; concordar com todas elas, entretanto, seria exigir demais da natureza humana.
Nem mesmo os santos conseguiram unanimidade, e alguns deles precisaram esperar séculos para conquistar uma imagem no altar.
O problema começa quando a divergência dá lugar à agressão, a informação cede espaço à desinformação e qualquer crítica ao governo vira prova de conspiração. De repente, o adversário político deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser um inimigo que precisa ser eliminado - eleitoralmente, de preferência, embora certos discursos pareçam sugerir métodos mais definitivos.
Nas redes sociais, então, a coisa desanda de vez. Há quem compartilhe notícias sem conferir a procedência, anuncie catástrofes que nunca acontecem e preveja o fim do mundo caso seu candidato não vença.
O curioso é que, quando o apocalipse não chega, ninguém pede desculpas. A notícia falsa desaparece discretamente, mas o estrago permanece. É a modalidade política do disse me disse: a mentira viaja de supersônico, enquanto a verdade vai de tartaruga, com conexão e atraso.
O Brasil precisa, sim, de mudanças. Mas não de mudanças que consistam apenas em trocar os ocupantes das cadeiras para conservar intactos os velhos hábitos.
A política nacional parece uma repartição onde os móveis são renovados de tempos em tempos, mas o mofo continua no mesmo lugar.
Há décadas, figuras conhecidas circulam pelos corredores do poder, ocupando cargos, disputando mandatos e prometendo inaugurar uma nova era. Alguns parecem ter desenvolvido uma espécie de imunidade à aposentadoria política. Se a Constituição não lhes impõe limites, a consciência tampouco parece fazer hora extra.
E não faltam dinastias eleitorais. Em certos ambientes, o mandato passa de pai para filho com a naturalidade de uma herança familiar. O eleitor, que deveria ser o verdadeiro patrão, termina tratado como figurante de uma peça cujo elenco já foi escolhido nos bastidores.
É claro que experiência política tem valor. O problema é quando experiência se transforma em permanência, permanência em privilégio e privilégio em convicção de que o poder tem dono. Nesse caso, a democracia corre o risco de virar condomínio fechado, com acesso controlado e vagas reservadas para os mesmos sobrenomes.
Também há os especialistas em derrotas alheias. Quando o resultado eleitoral lhes favorece, proclamam a sabedoria soberana do povo. Quando lhes contraria, descobrem a existência de eleitores mal-informados, influenciados por forças ocultas ou vítimas de alguma conspiração. O voto é sagrado, desde que confirme a preferência de quem discursa.
E os discursos! Ah, os discursos!
Em campanha, o político promete resolver a segurança, melhorar a saúde, revolucionar a educação, reduzir impostos, aumentar salários, controlar a inflação e, se houver tempo, descobrir a cura para a ressaca de segunda-feira.
Depois da eleição, começa a fase explicativa. A culpa é da herança recebida, do Congresso, do Judiciário, da oposição, da imprensa, dos antecessores, da conjuntura internacional e, em último caso, de alguma conjunção astral desfavorável.
O governante que antes se apresentava como salvador da pátria passa a administrar o próprio repertório de justificativas. E o cidadão, que acreditava ter contratado um gerente, descobre que assinou um plano de fidelidade: paga todo mês e não consegue cancelar o serviço.
Enquanto isso, a economia da vida real não aceita discursos como forma de pagamento: o supermercado não concede desconto por afinidade ideológica; o plano de saúde não reduz a mensalidade por gratidão partidária; o combustível não fica mais barato porque o presidente fez uma declaração otimista. E o imposto, esse funcionário exemplar, nunca falta ao expediente.
É justo proteger os mais pobres. Uma sociedade decente não pode abandonar quem precisa de ajuda, mas assistência social não deveria ser confundida com projeto permanente de dependência, muito menos servir de instrumento para transformar necessidade em fidelidade eleitoral.
O ideal é oferecer proteção a quem precisa e oportunidades para que cada vez mais pessoas possam caminhar com as próprias pernas.
O mesmo rigor deve valer para os privilégios de cima. Não há justificativa moral para exigir sacrifícios de quem trabalha enquanto se toleram mordomias, desperdícios e suspeitas de irregularidades nos círculos do poder.
O dinheiro público não nasce em árvores, embora alguns pareçam acreditar que o contribuinte seja uma espécie de adubo inesgotável.
E, quando surgem suspeitas de corrupção, a regra deveria ser simples: investigar com independência, assegurar o direito de defesa e responsabilizar quem tiver a culpa comprovada: nem condenação por torcida organizada, nem absolvição por amizade política.
A Justiça não pode funcionar como tribunal de exceção para adversários e balcão de indulgências para aliados.
A confiança nas instituições não se fortalece com blindagens, privilégios ou discursos de autoridade. Fortalece-se com transparência, coerência e responsabilidade.
Quem ocupa cargo público precisa compreender que o mandato é temporário, o dinheiro é do povo e a prestação de contas não é favor: é obrigação.
Também não ajuda transformar a política em guerra religiosa: fé merece respeito, mas não deveria ser usada como figurino de campanha. Fotografias em templos, citações bíblicas e manifestações de devoção não substituem competência administrativa. Deus não precisa de marqueteiro e o eleitor não deveria precisar de intérprete para distinguir convicção religiosa de propaganda eleitoral.
Aos políticos, de qualquer partido, caberia uma recomendação elementar: menos arrogância, menos promessas mirabolantes e menos caça a culpados; mais trabalho, mais honestidade e mais resultados. Não é pedir demais. É apenas o mínimo para quem pretende viver do serviço público.
E nós, eleitores, também precisamos fazer a nossa parte: compartilhar uma notícia não a torna verdadeira; repetir uma acusação não a transforma em prova; defender um candidato não nos obriga a fechar os olhos para seus erros.
Partido não é time de futebol, político não é ídolo infalível e urna não é instrumento de vingança pessoal.
Precisamos aprender a cobrar nossos representantes sem entregar a consciência a nenhum deles. O voto não é procuração para o resto da vida, muito menos autorização para que o eleito faça o que bem entender.
A política brasileira não precisa de salvadores da pátria ou donos da verdade.
A política precisa de lideranças capazes de compreender que governar não é mandar nos outros, mas administrar interesses coletivos; não é distribuir favores, mas garantir direitos; não é fabricar inimigos, mas encontrar soluções.
Sou, portanto, a favor da mudança.
Não necessariamente da mudança de um partido por outro, de uma bandeira por outra ou de um sobrenome por outro. Defendo a mudança de mentalidade, de práticas e de prioridades. Quero novas lideranças, mas quero, sobretudo, lideranças que não envelheçam politicamente antes mesmo de aprender a servir.
Que o Brasil consiga oferecer aos nossos filhos e netos um país menos desigual, mais justo, mais seguro e com oportunidades reais de crescimento. Um país em que trabalhar não seja castigo, empreender não seja uma aventura burocrática e envelhecer não signifique depender da sorte.
E que os grupos de WhatsApp voltem a ser lugares de amizade, boas histórias e saudáveis brincadeiras - sem que cada mensagem precise terminar numa guerra de candidatos. Já temos problemas suficientes na vida real para importar outros pela tela do celular.
Mudanças já!
Mas mudanças de verdade: nas urnas, nas instituições, na conduta dos governantes e, sobretudo, na consciência dos eleitores.
O Brasil não é propriedade de partido, político ou família. É de todos nós.
E, se alguém ainda acredita que o poder tem proprietário, convém lembrar: o eleitor pode até demorar a perceber que o contrato foi malfeito, mas, quando resolve rescindi-lo, não costuma aceitar multa por fidelidade."
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