Contextualizando

Os ilusionismos de Lula e de Flávio Bolsonaro

Em 13 de Abril de 2026 às 17:00

A esta altura não há como qualquer dos pretendente à Presidência da República contar vantagem ou dar a situação por perdida.

A história política brasileira mostra que seis meses é um tempo razoável para as peças do xadrez se mexerem e modificarem, com isso, o atual cenário.

É o que explica o jornalista Diogo Shelpe:

"Ainda é cedo para afirmar quem se enfrentará no segundo turno da disputa presidencial deste ano. Se no campo da esquerda não apareceram concorrentes a Lula, que busca a reeleição, na direita há pelo menos três pré-candidatos que, segundo as pesquisas, dariam trabalho ao atual presidente: Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo  Caiado(PSD) e Romeu Zema (Novo). O centro político, por enquanto, está sem representantes. O senador, filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, está bem à frente de Caiado e Zema na intenção de voto para o primeiro turno, mas pesquisa não é urna, e o cenário pode mudar até outubro.

Fatos novos e definidores podem acontecer. Erros são cometidos. Em abril de 2018, por exemplo, Marina Silva (Rede) estava tecnicamente empatada com Bolsonaro na liderança, no cenário em que o candidato do PT era Fernando Haddad, mas não foi nem para o segundo turno. Em 1989, a essa altura Fernando Collor estava embolado com Lula e Leonel Brizola. Este ficou para trás, Collor levou.

Em maio de 1994, Fernando Henrique Cardoso pontuava apenas 16% no Datafolha, enquanto Lula liderava com 42%. Veio o Plano Real, FHC disparou. Cada eleição é uma história diferente, e a atual promete ser uma das mais acirradas dos últimos tempos.

A princípio, Flávio, Caiado e Zema tentam atrair os votos dos mesmos eleitores. Vai ser interessante observar como cada um pretende construir sua narrativa de campanha para se diferenciar de alguma forma. Caiado perdeu a chance de fazer isso já no lançamento do seu nome, ao prometer anistia aos condenados por tentativa de golpe, incluindo Jair Bolsonaro e os participantes dos atos de 8 de janeiro.

O presidente do seu partido, Gilberto Kassab, tem dito que Caiado é mais experiente do que Flávio. Zema, que vinha apostando no discurso de liberalismo econômico, desponta cada vez mais como um possível vice na chapa de Flávio — apesar de ter negado até recentemente que aceitaria esse convite.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro e Lula tentam construir narrativas para suas campanhas com base em ilusionismos. O primeiro diz que vai subir a rampa do Palácio do Planalto no dia da posse, assumindo que será vencedor (e ele já insinuou que, se não vencer, terá sido por algum problema na contagem de votos), ao lado de seu pai Jair. Trata-se de uma provocação baseada em pensamento mágico.

Jair Bolsonaro cumpre pena de detenção por tentativa de golpe de Estado. Mesmo que esteja em prisão domiciliar na data da posse, não poderá sair para subir a rampa. O que Flávio pretende é imprimir na mente dos apoiadores do ex-presidente uma imagem que transmite a ideia de que a sua eventual chegada à Presidência representará a volta de Jair ao poder.

De fato, é isso o que significaria uma vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais. Mesmo sem subir a rampa, ele poderá receber indulto do filho na sequência. O problema para a narrativa de campanha do PL é que a perspectiva de um governo de Flávio com a participação direta do seu pai entra em conflito com a imagem de moderação que os marqueteiros tentam explorar junto aos eleitores. Mesmo que seja verdade a afirmação de que Flávio é mais conciliador que Jair, de que diferença isso faria na prática?

O ilusionismo ensaiado pela campanha de Lula é de outra natureza. Trata-se, mais uma vez, de negar os erros e as fraquezas do seu terceiro mandato e insistir na ideia de que ele pegou um país destruído pelos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Problemas houve, como a desumana gestão da pandemia no período de Bolsonaro, mas afirmar que o país chegou destruído às mãos de Lula é um exagero.

A economia, apesar da desaceleração, não colapsou. Reformas importantes, ainda que imperfeitas, foram realizadas, como a trabalhista e a previdenciária, além da autonomia do Banco Central. Nos pontos em que os antecessores de Lula realmente falharam, como a crise dos precatórios, as relações de causas e efeitos são tão complexas que vai ser difícil usá-las para sensibilizar os eleitores.

Um governo moderado influenciado por Jair Bolsonaro e um governo que justifica a própria fraqueza com erros dos antecessores. Haja pirotecnia e truques mirabolantes para convencer os eleitores de que o que as campanhas de Flávio e Lula apresentam a eles é real."

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