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Pedro Cardoso fala sobre sua saída da Globo e comenta polêmicas

30/06/16 - 10h20 - Atualizado em 30/06/16 - 10h56
Reprodução

Durante 14 anos, o ator Pedro Cardoso interpretou um dos personagens mais queridos da TV brasileira: Agostinho Carrara, do seriado A Grande Família. Após 33 anos, ele foi demitido da Rede Globo e fez uma declaração polêmica em um programa de rádio.

— A TV Globo teve o mais absoluto desprezo pelo meu trabalho!

Logo, a declaração repercutiu na imprensa e o ator concedeu entrevista ao Gugu para explicar o que aconteceu. A conversa foi exibida, com exclusividade, nesta quarta-feira (29).

1. O fim do seriado

Pedro revelou que aceitou o fim da série, sem problemas.

— Eu acho que as coisas têm que durar o tempo que elas têm que durar. Eu não me arrependo de A Grande Família ter acabado. Eu não fui contra acabar. Houve um certo consenso de que nós tínhamos estado no ar bastante tempo... Você tem que parar quando você ainda deixa saudade! 

2. Sua personalidade

Um dos pontos fortes da entrevista foi quando o ator falou sobre si mesmo. Ele considera que sua personalidade pode incomodar as pessoas.

— Eu sou briguento só quando há uma estrutura de poder em cima da minha cabeça. Se você me convida pra democracia, pra liberdade, se você me convida pra jogar um futebol e ninguém fica me dando uma ordem em campo, eu distribuo a bola! Agora, se tem alguém que acha que é dono do time e fica me dizendo: “Vai pra esquerda! Dá a bola!”... Eu tenho também que escolher meu jogo! 

3. Apenas uma novela

Pedro confessa que não é ator de novela e lamenta que tenha sido convidado apenas uma vez.

— Fiz uma novela por um convite muito gentil do Gilberto Braga. Só uma. E fiz duas minisséries. Eu nunca fui um ator de novela. Não que eu não goste, eles é que não gostam de mim! Eu nunca fui convidado pra fazer uma novela e recusei. Eu acho que eu tenho um temperamento muito avesso às estruturas autoritárias... Eu nunca tive relação com novela. Não tive uma carreira significativa em novela! O que eu gosto em televisão, e isso em A Grande Família me emocionava muito, é que eu falava com 50 a 60 milhões de pessoas! 

4. O salário de um ator 

Intrigado, Gugu quis saber durante a entrevista se um ator ganhava bem. Pedro foi enfático na resposta.

— Eventualmente sim, eventualmente não. Na média, mal. Na média, um ator não ganha bem! Mas num país tão pobre como o Brasil, R$ 5 mil é bem pra população brasileira. Pra 80%, se você falar R$ 5 mil, é bem. Mas dentro do dinheiro que circula na televisão, R$ 5 mil é muito pouco!

5. Manifesto contra a nudez na TV

Em 2008, Pedro escreveu e publicou um artigo em que se colocava contra cenas eróticas na televisão. Na ocasião, ele explicou o porquê.

— A minha ideia de escrever o manifesto foi dizer ao público: “Não compre gato por lebre”. Você acha que está assistindo uma história, mas você está sendo induzido a esperar um conteúdo erótico que é o que está te mantendo ligado nessa história e nos méritos da própria história.

— Você põe a atriz para tomar um banho como se fosse uma coisa importantíssima pra história, ou então você faz um assunto sobre modelos que se prostituem e aí isso vira cem números de cenas eróticas. Parece que você está tratando seriamente desse assunto, está preocupadíssimo com esse assunto, está preocupado em salvar a vida dessas moças... Quando, na verdade, você está apenas vendendo conteúdo erótico disfarçado de interesse intelectual!

6. Paparazzo 

O ator ficou irritado ao falar sobre a ação dos fotógrafos nas suas horas vagas.

— Eu odeio paparazzo! Eu acho que isso é uma falta de respeito. Não há confusão pra mim entre vida pública e vida privada. Todo mundo tem uma vida privada e todo mundo tem uma vida pública. Não só quem é conhecido! Qualquer pessoa tem uma atuação pública: um médico, um engenheiro, um professor... Todo mundo atua na sociedade!

— Tudo o que se passa na vida pública de todos nós é objeto do interesse comum. Por outro lado, tudo aquilo que se passa dentro do meu ambiente privado, as pessoas podem até querer saber ou não; porque isso faz parte da curiosidade humana; mas as pessoas não têm o direito de saber e eu tenho o direito de não querer que saibam. Eu não tenho nada a esconder, mas também não quero ficar escondido toda hora!

— A minha vida privada, diferentemente do que interpretam, não se passa apenas dentro da minha casa. Eu estou na rua, que é um espaço público, vivendo a minha vida privada. Agora, eu aqui estou num lugar fechado vivendo a minha vida pública.

E fez duras críticas a este trabalho. "Isso movimenta uma indústria que não me paga direito autoral pela minha vida. Uma indústria profundamente desonesta, capitaneada por empresários que se fossem com a vida deles não iriam admitir. Porque quando morre um pai de um empresário rico dos meios de comunicação, não aparece foto deles no enterro. Mas quando morre o marido ou pai de um artista, aparece foto do artista sofrendo no enterro do seu familiar".

— Quem quer me fotografar, tem que me pedir! Eu posso dizer que sim e que não. Posso até dar de graça. Mas ele não tem direito de ficar com uma câmera, com uma lente do tamanho de um bonde, vendo se na praia vai acontecer alguma coisa ridícula comigo. E não pode tirar foto das minhas filhas menores de idade!

7. A saída da TV Globo

Gugu ressaltou que se a Globo não gostasse tanto do ator, não teria o contratado por mais de 30 anos. O ator replicou.

— É difícil falar “a Globo”. É um pouco injusto porque, no tempo que eu estive lá, a Globo teve três ou quatro administrações artísticas. Há pessoas que sim, mas há pessoas que talvez não. Algo que é absolutamente legítimo a mim porque também não se pode pedir à Rede Globo que tenha a obrigação de contratar a totalidade da classe artística. Ela está no absoluto direito dela de se interessar mais por alguém ou outra pessoa.

— Nesse meu desligamento da Globo, o que é sensível pra mim é a angústia que causa em alguém o desemprego... Eu tive a oportunidade de organizar a minha vida econômica para nesse momento não entrar em agonia financeira. Ou, pelo menos, não imediatamente. Isso já causa uma grande apreensão.

— Eu penso que o importante neste momento é falar das outras pessoas do Brasil que estão perdendo seus empregos. Se eu estou trabalhando na Globo ou não, é uma coisa que, mais ou menos, não interessa a ninguém. Mas que muitos brasileiros estão deixando de ter trabalho, como eu, interessa a todos nós!

Pedro Cardoso desabafou e disse que ficou muito chateado com a demissão.

— Tristíssimo! Eu tinha contato com 50, 60 milhões de pessoas. Agora não tenho mais. Eu gostava de fazer televisão. Eu gostava de falar com o público, de influenciar o meu país, o meu povo... Mas eu também compreendo. São coisas da vida! As relações se esgotam, se refundam... Mas eu não achei bom. Eu achei ruim. Eu queria estar no ar!

Além disso, revelou que queria um programa próprio.

— Eu queria ter um programa meu! Eu acho que eu merecia a chance de ter desenvolvido um projeto meu. Acho que eles fizeram uma má avaliação empresarial. Eles deviam ter olhado pra mim e pensar: “Esse cara está aqui há tanto tempo, olha o resultado do trabalho dele... Vamos ver se ele é capaz de capitanear um projeto!” 

Pedro confessou que não ganhava tão mal.

— Eu gostava imensamente do dinheiro que eu ganhava lá. A gente não pode dizer pro público que a gente não pensa nisso. Eu ganhava, no final, bastante bem! Nada que me faça querer parar de trabalhar... Mas a Globo colaborou comigo muito mais do que eu com a Globo. Eu ganhava um dinheiro que no Brasil não é fácil de ganhar. É chato! 

E revela o que gostava de fazer com o salário.

— Eu gostava de ter um carrinho novo, uma roupinha boa, comprar um relógio bacana, poder ir pra Europa de primeira classe... Eu gostava de tudo isso! Quem sabe eu possa continuar a ter, de outra maneira...

O ator revela que já sabia há cerca de um ano e meio que seria demitido.

— Foi uma coisa gentil. A pessoa responsável me ligou. Até perguntou se eu não queria ir lá conversar... Eu já sabia e falei: “Não precisa. Eu já sei o que está acontecendo...”. Eu senti isso há um ano e meio! Quando eu apresentei os projetos e eles não ganharam curso, eu falei: “Bom, há um desinteresse no meu trabalho". Seja pela direção artística ou pela direção administrativa!

8. A declaração polêmica

Por fim, o ator esclareceu a frase que polemizou na mídia: "A TV Globo teve o mais absoluto desprezo pelo meu trabalho".

— Quando acabou A Grande Família, eu apresentei um projeto. Anunciei pra parte artística da empresa e pra parte administrativa. A parte administrativa não se interessou em negociar comigo o desenvolvimento do projeto e a parte artística também não se interessou em dar prosseguimento. Então, eles desprezaram. Eles não levaram em conta, talvez, o que eu ainda tenho pra oferecer. Eu fiquei chateado. Eu achei ruim...

Gugu, então, perguntou se as declarações do ator durante a entrevista não poderiam comprometer um futuro retorno à emissora. Pedro Cardoso respondeu com uma provocação.

— Se o preço da minha liberdade for esse, eu vou pagar feliz. Eu acho que o artista tem compromisso muito grande com a verdade... Você tem que falar o que pensa e dizer a verdade. Se não me querem pelo o que eu penso, pelo o que eu digo, não me querem por uma boa razão porque é isso que eu penso. É isso que eu digo. Agora, o que eu penso e o que eu digo dá um certo dinheirinho... Eu, se fosse eles, pensava melhor! 

Agora, o ator disse que não sabe se vai voltar a fazer televisão e brincou.

— Não sei! Eu sei que teatro eu sempre faço. É sempre algo que faz parte da minha vida. A televisão talvez eu faça, talvez eu não faça... Talvez daqui a pouco eu esteja com uma barba bíblica, uma peruca bíblica...

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