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PM gay é punido após falar sobre orientação sexual em vídeo no YouTube

UOL | 09/07/21 - 11h18 - Atualizado em 09/07/21 - 12h41
Arquivo Pessoal

Henrique Harrison, o policial militar que foi alvo de comentários homofóbicos por uma foto de beijo em sua formatura, foi punido com uma repreensão por publicar um vídeo em seu canal no YouTube em que comenta como lidou com a sua orientação sexual dentro do ambiente militares.

O vídeo de Harrison foi publicado ainda no ano passado, após a cerimônia em que foi alvo de ofensas. Nele, o militar expõe como foi sua experiência ao assumir a sexualidade na corporação e comenta o episódio ocorrido na sua formatura.

"Nesse vídeo tinha um simulacro na minha cômoda. Então me imputaram por portar arma de fogo institucional em atividade estranha a policial militar", explicou ele ao UOL.

Segundo Harrison, a decisão veio apenas em fevereiro deste ano. O policial afirmou que foi abordado na véspera do seu casamento para que a sua arma fosse retida. Ele foi restringido a utilizá-la e ia para o trabalho desarmado.

"Quando pegaram minha arma eu fiz uma denúncia na Câmara do Distrito Federal pedindo esclarecimentos do fato e por conta disso abriram outra sindicância por eu 'faltar com a verdade'", afirmou.

A decisão da Corregedoria da Polícia Militar saiu na segunda-feira (5). A repreensão diz respeito a infrações dos artigos 40, que fala sobre "portar-se de maneira inconveniente ou sem compostura" e do artigo 59, que repreende "discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares, exceto se devidamente autorizado."

"Policiais têm canais no YouTube, eles falam de armas, e não há aplicação de repreensão. Eles querem prejudicar minha sexualidade", defendeu Harrison, ressaltando que a sua opinião é pessoal, como cidadão civil, e que ela não necessariamente representa a corporação.

A sindicância a respeito da denúncia na câmara, por sua vez, ainda está em aberto.

"Todos os policiais cometem coisas piores e não são investigados. Os policiais que cometeram crime de homofobia contra mim está com o processo sem andar. Comigo o procedimento anda e sou punido."

Atualmente, o militar está afastando com laudo psiquiátrico por conta do episódio. "Depois que eu recebi a segunda sindicância, eu realmente não conseguia trabalhar porque eu ficava com medo de receber mais punição, ficava com medo de trabalhar."

Apoio de outros militares

Harrison cita que recebeu apoio de outros colegas diante da situação. "No meu privado, eu conheço muitos policiais que me enviaram mensagens de apoio, mas publicamente eles não fazem isso. Eles postam fotos sempre sozinhos, mesmo namorando, levam uma vida mais discreta, deixam de viver muita coisa", comentou.

"Eu nunca quis deixar de fazer isso porque eu tenho os mesmos direitos, porque se os outros policiais podem eu também posso. Eu não faço nada que os outros policiais não façam."

Harrison afirmou que uma das motivações para entrar na corporação foi pelo fato de que já recebeu abordagens negativas de policiais pelo fato de ser gay.

"Se eu sofresse homofobia na rua, eu tenho que ligar para a polícia. Como eu vou ter esse respaldo que se o policial que está na rua pode ser alguém que luta contra a minha existência? Então quando eu entrei na polícia eu pensei nisso."

O UOL procurou a Polícia Militar do Distrito Federal que informou que a corporação "sempre seguirá o devido processo legal dentro do arcabouço legislativo, respeitando sempre os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência."

"Todo processo administrativo realizado pela Polícia Militar também seguirá os preceitos da ampla defesa e do contraditório. Todos os procedimentos ora citados, até o presente momento, não foram findados em suas decisões, não tendo, portanto, até a presente data, qualquer tipo de solução, seja ela publicada para punir, arquivar ou tombar em Inquérito Policial Militar", diz comunicado.

A PMDF ainda defendeu que no caso de divergências ou dúvidas, "qualquer policial militar poderá solicitar junto à Corregedoria, por meio de seu defensor, o andamento das apurações."