Texto de Nuno Vasconcellos:
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“Daqui a dois ou três meses, quando a campanha eleitoral estiver pegando fogo mesmo sem ter começado oficialmente, o cidadão será mais uma vez chamado a refletir sobre temas que os políticos só discutem de quatro em quatro anos. A política de segurança pública, o acesso à saúde, a qualidade da educação, o preço dos alimentos e outras situações parecidas surgirão no centro dos discursos e tratados como se sua solução dependesse apenas da decisão do eleitor de votar em quem jura ter ‘vontade política’ de resolvê-los.
São assuntos fundamentais, que têm repercussão sobre a vida da sociedade inteira, mas que voltam a hibernar assim que os votos são apurados e os nomes dos vencedores, anunciados.
Soluções fáceis para problemas difíceis aparecerão nos debates. No final da campanha, no entanto, quando os nomes de quem governará pelos próximos quatro anos e dos parlamentares que elaborarão as leis do país já forem conhecidos, a mãe de todas as perguntas continuará sem resposta.
Mais do que uma pergunta, trata-se, na verdade, de um enigma que persiste entre os analistas que acompanham o comportamento da economia — que, no final das contas, é a origem de todos os problemas e soluções. Se a economia vai bem, a solução dos outros problemas torna-se possível e em certos casos, até fácil. Se vai mal, a solução fica mais distante. E, em alguns casos, impossível.
O enigma é: por mais que em determinados momentos o Brasil começa a andar, dá a impressão de que vai deslanchar, mas logo para diante do primeiro obstáculo. É o caso do momento atual. Embora apresente taxas positivas de crescimento e tenha indicadores saudáveis para dizer que tudo vai bem, o país tem sido incapaz de engatar um ciclo positivo e duradouro de crescimento sustentável. Em resumo: o Brasil cresce, mas não decola. O que explica essa situação?
Vistos com frieza, os números atuais são positivos. Depois de superada a recessão que se seguiu à pandemia da Covid 19 e que, em 2020, fez o PIB recuar em 4,1%, o Brasil vem crescendo a taxas razoáveis e constantes. Para resumir, a expansão em 2024 foi de 3,4%. No ano passado, 2,3%. Este ano, as instabilidades internacionais e seus reflexos sobre os preços do petróleo empurraram as previsões de crescimento para baixo. Mas, de qualquer forma, haverá crescimento.
Se a estimativa da edição mais recente do Boletim Focus, com dados do mercado, estiver correta, o crescimento deste ano será de 1,85%. Um dos indicadores que mantêm os índices positivos são os investimentos em infraestrutura — que continuam batendo recordes. Puxados pelo capital privado, eles devem superar R$ 300 bilhões em 2026.
Aliado a esse número vem outro indicador que sempre esteve no centro da preocupação dos brasileiros: a taxa de inflação. Volta e meia, essa fera ameaça fugir do controle do Banco Central — a instituição responsável pela estabilidade da moeda. Mesmo assim, a taxa tem se mantido comportada. A previsão do Focus para este ano é de um IPCA de 4,36%. Era de 4,31% na edição anterior. Não é o número desejável, mas, de qualquer maneira, está abaixo do teto da meta de 4,5%.
Outro ponto a ser observado: ao contrário das previsões pessimistas, que indicavam uma desvalorização crescente do Real, o câmbio não ultrapassou os R$ 6,50 por dólar. E, a menos que aconteça alguma catástrofe, não chegará tão cedo a esse ponto. Na sexta-feira passada, recuou para perto de R$ 5,00, em função do alívio das tensões no Oriente Médio. A expectativa é que, no final deste ano, seja negociado por mais ou menos R$ 5,50.
Ah, sim! Embora a credibilidade do IBGE venha sendo posta em xeque pela politização ostensiva que passou a contaminar as ações da instituição sob a presidência do economista Márcio Pochmann, a taxa de desemprego medida pela instituição é baixíssima. Em 2025 foi de 5,4%, a menor desde 2012. As empresas se queixam do déficit de engenheiros e técnicos e muitas delas têm dificuldade para preencher as vagas abertas. Ou seja, com politização ou sem a politização das estatísticas, a economia dá sinais de aquecimento.
Números positivos como esses, ao invés de esclarecer, só reforçam o enigma mencionado no início deste texto. A situação, porém, perde a exuberância no momento em que o desempenho do Brasil é comparado com o de outros países emergentes.
O Brasil pode estar até indo bem na corrida contra seu passado recente — quando viveu, na década passada, a recessão mais profunda da história. O pior ficou para trás, mas o país perde feio quando seus números são comparados com os de países com os quais disputa espaço num mercado global cada vez mais competitivo e agressivo.
Os 2,3% de expansão do PIB em 2025 deixam o país em uma modestíssima 35ª posição entre as economias que mais cresceram no mundo. O líder global em matéria de crescimento é a emergente Índia, que, no ano passado, registrou uma expansão de 6,5%, depois de batido em 6,4% em 2024. Com um PIB estimado em US$ 4,1 trilhões, a Índia ocupa hoje a 5ª posição entre as maiores economias do mundo.
Enquanto isso o Brasil, que já foi o 8º mais rico, aparece em 11º lugar....”
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