Brasil

Produtores do Distrito Federal celebram a boa safra de grãos em 2020

Correio Braziliense | 22/08/20 - 22h02

Em meio à seca que castiga o cerrado, brota da terra vermelha o alimento que servirá para milhares de famílias e até a pecuária. É tempo de colheita de grãos no Distrito Federal, e os produtores arregaçam as mangas para ver o resultado do plantio de milho, feijão, trigo e sorgo. Dos mais de 345 mil hectares de área agricultável, cerca de 47% (162,4 mil ha) são destinados a essas culturas, a maioria situada nas proximidades da bacia do Rio Preto, o que inclui os núcleos rurais Rio Preto, Jardim Tabatinga, PAD-DF e Taquara, como explica Marconi Moreira, gerente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do DF (Emater).

Segundo ele, são cerca de 200 produtores dedicados ao cultivo de grãos, todos otimistas com a safra deste ano. “O clima contribuiu muito. Choveu bem, e isso é tudo para nós. São Pedro quebrou o galho e, quando isso acontece, melhora tudo aqui embaixo”, explica. Para este ano, espera-se colher 859 mil toneladas de grãos no DF, de acordo com o último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 11 de agosto. No mesmo período do ano passado, o órgão registrou colheita de 834,8 mil toneladas.

A previsão positiva contraria os demais setores da economia, em crise desde o início da pandemia causada pelo novo coronavírus. O secretário de Agricultura, Candido Teles, conta que foi possível realizar o plantio com normalidade. “Quanto aos preços, eles até melhoraram, em função das conjunturas nacional e mundial, pois o dólar subiu e, como boa parte dos nossos produtos agrícolas são commodities, como soja e milho, elas foram valorizadas”, detalha. O agricultor, agora, deve estar atento à compra de insumos, que estão mais caros devido à alta do dólar.

O secretário destaca os investimentos em equipamentos modernos como fundamentais para os bons resultados. “Os nossos produtores utilizam tecnologia de ponta na hora do plantio e da colheita, ajudando a garantir maiores produtividades e ganho econômico”, ressalta Candido.

É o que tem feito William Matte, 29 anos. Ele investiu em obras com pivôs rotativos, sensores nos campos para avaliar as necessidades do solo, além de máquinas que fazem colheita, limpeza e separação de grãos. “Embora haja toda essa crise de saúde, a gente percebeu que é indispensável que se produza alimento com segurança”, afirma. Na avaliação dele, será possível sair melhor da pandemia. “O nível de conhecimento aumentou muito. Não somos mais produtores rurais, mas empresas rurais. Eu não preciso mais estar na lavoura para jogar água. Com um aplicativo, vejo todas as necessidades da plantação e envio o comando para irrigar.”

Para este ano, William espera colher cerca de 250 hectares de milho, 155ha de feijão e 66ha de trigo. “Cerca de 20% do milho ficam aqui no DF e viram ração para os animais. Os outros 80% vão para o Espírito Santo. Metade da produção de feijão vai para o Nordeste e metade, para São Paulo. E o trigo fica todo aqui, para produção de farinha”, revela.
Livre de doenças

Na fazenda do agricultor Hélio Dal Bello, 71, foi colhido feijão e trigo sequeiro, variedade alternativa para o cerrado. Agora, é a vez do milho e, em setembro, de mais uma parte do trigo, que está em processo de amadurecimento. “No ano passado, colhi cerca 1,4 mil quilos por hectare, de trigo. Esse ano, será em torno de 2 mil. Nós fazemos a nossa parte, mas somos diretamente dependentes do clima. Esse ano, como foi mais frio, não deu doença na plantação, o que pode ser um terror. No ano passado, foi quente e com chuva, ou seja, um desastre.”
Ele também está confiante para a produção do milho. “Estou colhendo 7 mil quilos por hectare. Calculo que isso vá dar umas 11,9 mil toneladas, sendo que 60% da minha produção eu já vendi para exportação. O restante ficará no mercado interno”, comemora. “O DF é a melhor região para cultivo de grãos. Falta um pouco de água, mas é excelente. Aqui dá para plantar tudo. A altitude também ajuda”, garante o produtor.

A lavoura fica no núcleo rural Rio Preto, a cerca de 40km do Paranoá. Jair Pelicioli, gerente da fazenda, explica que, neste ano, foi possível plantar quatro variedades do feijão-carioca, sendo que metade foi colhida. Ele detalha que, como as chuvas atrasaram, a colheita, que, normalmente, seria em julho, ocorre agora. “Mas, fora isso, foi tudo normal. Nós não paramos, o serviço continuou”, destaca. Depois de tudo ser colhido, é a vez das plantas de cobertura, que vão preparar o solo, evitar erosões e, só então, poderá vir a próxima safra, de soja.

Alta demanda

Na avaliação de alguns produtores, a crise causada pela covid-19 também teve reflexos positivos economicamente. O produtor Leonardo Boareto prevê a colheita de 55 sacos de feijão (de 60kg, cada) por hectare em 2020. “Eu diria que o consumo per capta está mais alto nesta pandemia, porque o arroz com feijão tem tido mais demanda, e a oferta está mais restrita. Dessa forma, o preço deve ficar sustentado por um bom período de tempo”, analisa.

No DF, a maior parte dos produtores opta pelo tipo carioca, com maior demanda nacional. “A pandemia subiu a taxa de câmbio em dólar, e isso beneficiou as culturas exportadas, caso do trigo e do milho”, pondera. “No caso do feijão, a maior parte da produção é consumida localmente, então, a taxa de câmbio teve pouca influência. Mas o consumo aumentou, porque, como as pessoas ficaram em casa, passaram a preparar mais as refeições; por isso, a opção foi pelo arroz e feijão, que são mais nutritivos e baratos.”