O mundo da pornografia, uma das formas de contéudo mais consumidas na internet, é cheio de labirintos e becos sem-saída: poucos sites respondem a contatos da mídia e menos ainda se sabe a quem eles pertencem.
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Há uma exceção, no entanto: a Aylo, uma das maiores — senão a maior — empresas de entretenimento adulto, dona de sites como Pornhub e Brazzers, tem um porta-voz: Solomon Friedman, um rabino, advogado e sócio da Ethical Capital Partners, empresa de private equity que comprou a Aylo em 2023.
Vice-presidente de Compliance da Ethical, Friedman vem promovendo, segundo ele, uma "revolução" no PornHub, principal site da empresa, de origem canadense.
O sucesso é superlativo. Em março deste ano, só o PornHub — um de muitos sites geridos pela Aylo — recebeu 4,2 bilhões de visitas: isso o torna mais popular que redes sociais como o X, Linkedin e o Tiktok.
Os números do PornHub:
Em entrevista ao jornal britânico "The Times", Friedman contou mais sobre sua gestão à frente de um dos maiores sites do mundo.
"Você está falando de uma indústria que é impulsionada, tanto na criação quanto no consumo, pelo instinto biológico mais significativo", argumentou ele, quando perguntado sobre a ética do principal conteúdo do site: vídeos com títulos incestuosos como "Dividindo a cama com minha meia-irmãzinha".
“Não existe uma varinha mágica. Mas existem boas políticas públicas, que permitem garantir a segurança e a proteção das pessoas que criam conteúdo legal e constitucionalmente protegido, bem como a segurança de quem consome esse conteúdo, certo? Vamos continuar lutando por isso", alegou o rabino.
Embora ordenado como rabino, o canadense de 40 anos nunca chegou a praticar sua liderança religiosa — ele chegou a se mudar para Israel, onde recebeu o treinamento rabínico.
Advogado criminalista e professor de Direito, ele é sócio da Friedman Mansou LLP. No site da empresa, é definido da seguinte maneira: "Sua experiência, aliada ao seu talento para a argumentação oral e escrita eficaz, para criar argumentos jurídicos persuasivos e inovadores, tanto em julgamentos quanto em apelações".
Friedman diz que se tornou a face da empresa "para ajudar uma indústria que esteve em decadência por muito tempo a ressurgir e torná-la mais segura".
A segurança a que se refere muito provavelmente tem a ver com uma investigação do jornal "The New York Times". Em 2020, o veículo publicou diversas matérias acusando o PornHub e a então empresa-mãe MindGeek de "pouco fazer" sobre vídeos que mostravam meninas vítimas de tráfico sexual, mulheres inconscientes sendo estupradas, agressão sexual e abuso sexual infantil.
Friedman e seus sócios viram, na polêmica, uma oportunidade de negócios: mesmo com os diversos processos contra ele, o PornHub — e as outras empresas do grupo — era extremamente lucrativo e com grande possibilidade de crescimento. O tamanho e a fama do Pornhub o submetem a um escrutínio maior do que seus concorrentes, independentemente dos desejos de seus proprietários. No mundo dos negócios, entretanto, isso significa potencial para fazer mais dinheiro. Sob pressão da Visa e da Mastercard, que suspenderam os seus serviços, o site removeu cerca de 10 milhões de vídeos não verificados e se abriu para uma abordagem "mais ética" do conteúdo adulto.
Assim, Friedman e os seus sócios compraram a MindGeek, renomeando-a para Aylo, o que, para eles, marcava um "novo começo" da gigante.
O nome da empresa de private equity (gestora de recursos que investe capital privado em empresas maduras, de capital fechado, não listadas em bolsa, e com alto potencial de crescimento) Ethical (Ética, em português), criada em 2023, veio depois. Uma das sócias é Sarah Bain, ex-diretora de comunicação do Partido Liberal do Canadá, de centro-esquerda, que é a escudeira de Friedman até hoje.
"A ética é pessoal e subjetiva. O que é ético para uma pessoa pode não ser para outra, mas é um ponto de partida ao qual podemos recorrer quando precisamos tomar decisões. É o que nos guia", defendeu-se ele.
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