Contextualizando

Suplente de senador - um jeitinho descarado de beneficiar a família

Em 8 de Agosto de 2026 às 15:00

Do jornal "O Estado de São Paulo":

"Pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) deve colocar o irmão, Diego Torres, como suplente. No Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP), que já teve a própria mãe como sua substituta, agora pretende lançar o irmão, Raimundo Nogueira, para a mesma função. A suplência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), também é consanguínea. Seu irmão Josiel Alcolumbre ocupa o posto de primeiro suplente.

Todos os casos estão dentro da lei. Mas revelam uma excrescência da democracia brasileira: a transformação da suplência do Senado em um negócio de família.

Há ainda outros exemplos. Também pré-candidata ao Senado pelo DF, a deputada Bia Kicis (PL-DF) lançou o filho Samuel para sua suplência. Policial militar da reserva, o senador Styvenson Valentim (Podemos-RN) confirmou a irmã Anne Kelly para a função. No passado recente, a mulher do senador Eduardo Braga (MDB-AM), Sandra Braga, já foi sua suplente e chegou a assumir mandato no Senado Federal em 2015. A lista é grande.

O problema não é apenas a lei permitir esse arranjo. Nada obriga um candidato a transformar a suplência em assunto de família. É uma escolha. O pior é que a política brasileira transformou essa permissão em licença para distribuir mandatos entre parentes.

O eleitor imagina estar escolhendo um senador, mas, como é obrigado a votar no pacote fechado, pode acabar representado pelo irmão, pela mãe, pelo filho ou pelo cônjuge do candidato em quem votou. Em nenhum outro cargo eletivo essa naturalização do parentesco é tão escancarada.

Imagine-se, por um instante, que ministros de Estado, governadores ou prefeitos anunciassem a intenção de deixar seus cargos para parentes. A justa indignação seria imediata. No Senado, porém, esse expediente foi incorporado à rotina política.

Os mesmos políticos que costumam defender rigor ético na administração pública, condenar privilégios e exigir respeito aos princípios da moralidade não enxergam qualquer constrangimento em reservar uma cadeira no Senado aos próprios parentes.

A vida pública exige mais do que o estrito cumprimento da lei. Nem tudo o que é legal é compatível com a responsabilidade de representar milhões de eleitores.

O Congresso sabe, há anos, que esse modelo é indefensável. Em 2013, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição que proíbe a escolha de parentes como suplentes e reduz seu número de dois para um. Desde então, a matéria permanece convenientemente esquecida na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, parada juntamente com outras propostas similares.

Não faltam projetos. Falta vontade política para aprovar uma regra que atingiria justamente muitos dos parlamentares encarregados de votá-la.

A política brasileira já convive com dinastias familiares em excesso. Mandato não é herança, nem patrimônio de família. Quem trata uma cadeira no Senado como extensão da própria árvore genealógica pode até estar amparado pela lei, mas dificilmente honra o espírito republicano que deveria orientar a vida pública."

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