Transporte seguro: como a bilhetagem eletrônica contribuiu para a queda do número de assaltos a ônibus em Maceió

Ana Carla Vieira e João Victor Souza | 13/11/21 - 08h00 - Atualizado em 13/11/21 - 13h35

Fim do dia. O jovem motorista de ônibus Wagner Calheiros, de 26 anos, chega ao terminal do bairro da Levada, em Maceió. É o ponto final, depois da última viagem do turno. A sensação é de dever cumprido. “A maior satisfação é ver os passageiros voltando para a casa, porque quando olho no retrovisor, vejo o pessoal dormindo, exausto, cansado, muitos após um longo dia de trabalho. E eles só querem chegar em casa com segurança. Quando você deixa todo mundo e chega ao terminal, no mesmo instante bate aquele sentimento de missão cumprida. De agradecer a Deus porque deu tudo certo”.

Mas nem sempre foi assim. Wagner trabalha há seis anos em uma empresa de ônibus. Começou como cobrador e, assim como os muitos colegas de trabalho, passava dias apavorado enquanto exercia sua função. “Nós tivemos um período em que já sabíamos quais os pontos em que, se parássemos para desembarque, éramos ‘contemplados’ com um assalto. Então a gente já evitava, parava um pouco antes, ou depois, porque se parasse em frente, a gente ia ser assaltado”, lembra ele.

O motorista Wagner Calheiros na direção do ônibus em mais um dia de serviço (Foto: Itawi Albuquerque/TNH1)

O medo era uma rotina diária vivida por motoristas, cobradores e passageiros. A cena comum era ônibus parando, assaltante pulando a catraca, anunciando o roubo, pegando todo o dinheiro das passagens com o cobrador e ainda abordando os passageiros, para levar celulares, mais dinheiro e todo tipo de pertences.

Queda vertiginosa no número de assaltos - De acordo com dados do Núcleo de Estatística da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP), no ano de 2018, por exemplo, foram registrados 325 assaltos a ônibus no estado, a grande maioria em Maceió. Fora outros tantos roubos e furtos a passageiros que não foram registrados pelas vítimas. Nos anos seguintes, os números foram caindo vertiginosamente. Em 2019, foram 104 registros, menos de um terço do ano anterior. Já em 2020 foram apenas 46 ocorrências. E de janeiro a agosto deste ano de 2021, foram 28 assaltos registrados em coletivos. A queda não aconteceu à toa.

No mesmo ano de 2018, as empresas de ônibus da capital alagoana começaram a diminuir a circulação de dinheiro em espécie dentro dos coletivos e adotaram a bilhetagem eletrônica. “A ideia da retirada da circulação do dinheiro em espécie de dentro dos ônibus existe desde 2014, e se iniciou em 2018. A bilhetagem eletrônica plena é uma realidade vista nas principais cidades do país e, em Maceió, foi proposta pelas empresas como forma de modernizar o transporte público, deixando-o ainda mais ágil, prático e seguro”, explica Guilherme Borges, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros do Município de Maceió (Sinturb).

De acordo com Borges, atualmente, 100% da frota de ônibus circula sem cobradores e com adesão total dos passageiros. “Com a bilhetagem eletrônica plena, todo o processo passa a estar literalmente nas mãos do passageiro”, ressalta.

Ônibus apresenta mensagem sobre a obrigatoriedade do cartão para embarque (Foto: Itawi Albuquerque/TNH1)

Dona Cleide: 'sensação de segurança' - Cleide Maria dos Santos é faxineira e acorda cedo todos os dias para encarar a rotina. Ela anda de ônibus de segunda a sábado há tantos anos que já até perdeu as contas. De um tempo para cá, Cleide também sentiu reduzir a quantidade de assaltos e aumentar a sensação de segurança. “Hoje eu considero o ônibus um transporte seguro. Negócio de assalto melhorou mesmo, não vemos mais acontecendo. E pode melhorar ainda mais”, enfatizou a trabalhadora. 

Fábia Silva de Lima, de 37 anos, trabalha como técnica de Enfermagem e também utiliza ônibus rotineiramente para se locomover. Ela lembra das dificuldades, antes da implantação do cartão para todos os passageiros. “Às vezes o cobrador não tinha troco, ficava difícil. Hoje não tem mais isso de dinheiro, de troco... facilitou bastante. É só a gente colocar crédito, para estar sempre com o cartão cheio e passar na catraca. Aí diminuiu assalto também e sei que agora melhorou bastante”, diz Fábia.

A técnica de enfermagem Fábia Silva com o Cartão Bem Legal (Foto: Itawi Albuquerque/TNH1)

Wagner, o motorista de ônibus, ressalta que a sensação de segurança foi um ganho para todos. “Os assaltos caíram muito ultimamente. Como hoje em dia se usa cartão de passagem e não cédula em dinheiro, houve a redução de crimes. Há ainda quem comete esse delito, mas para furtar pequenas coisas, muitas vezes com uso de arma branca. Mas houve redução, melhorou para nós e para os passageiros também”, afirma Wagner.

Lei estabelece o fim do pagamento em dinheiro - A Lei Municipal que autorizou a acumulação de função entre motorista e cobrador de ônibus também determinou o fim do pagamento em papel-moeda ou moeda metálica no interior dos ônibus. Ela foi publicada no Diário Oficial do Município em 5 de maio deste ano. "A lei foi crucial para essa transição, pois trouxe legalidade e segurança para todas as partes envolvidas", reforça Guilherme Borges.

O novo regulamento estabeleceu que as empresas de transporte coletivo são as responsáveis pela disponibilização de pontos de venda de e-ticket, além dos meios eletrônicos necessários, de modo a substituir a forma de pagamento das passagens de ônibus em papel-moeda. Elas também possibilitam a venda na modalidade virtual. Já aos usuários e turistas do município é oferecido o cartão cidadão, sendo a responsabilidade para a confecção e distribuição das próprias empresas.

Policiamento ostensivo também contribui para a redução - “Outro fator que ajudou na diminuição dos assaltos foi o policiamento ostensivo. Quando estamos com alguma situação suspeita, nós tentamos chegar a um local onde possamos avistar uma viatura para sinalizar. Os motoristas têm técnicas para se comunicar com a polícia e tem situação que não dá para a gente parar o ônibus, falar ou acenar para os policiais. Então a polícia tem que perceber a nossa sinalização”, explica o motorista.

“Já aconteceu comigo, tive que usar essa técnica e andei mais um pouquinho até receber o pedido dos policiais para encostar. Os militares não me perguntaram nada, apenas subiram e resolveram a ‘bronca’. Essa atitude deles de entender e não questionar já evita um problema futuro para o motorista”, relata.

Trabalhadores e estudantes esperam por transporte em ponto de ônibus (Foto: Itawi Albuquerque/TNH1)

O Sinturb também acredita que a bilhetagem eletrônica aliada ao papel ostensivo da Segurança Pública contribuiu para uma melhora no cenário. “A retirada da circulação de dinheiro em espécie de dentro dos ônibus com certeza foi o principal motivo para a redução, mas também é necessário reforçar o papel importante das forças de segurança pública, que colaboram diretamente no combate ao crime”, diz Guilherme Borges.

A Secretaria de Segurança Pública afirma que vem, nos últimos anos, realizando um acompanhamento mais direcionado às ocorrências dentro dos coletivos. “Dentre as estratégias realizadas estão operações específicas para aumentar o policiamento em terminais de ônibus e nos principais corredores de transporte de Maceió, além da realização de abordagens aos veículos e também trabalho de investigação e inteligência”, disse a SSP, por meio de sua assessoria de comunicação.

Especialista em Segurança destaca o afastamento do interesse dos criminosos - O consultor em Segurança Pública Staeel Santos lembrou, em entrevista ao TNH1, que os crimes de assalto a ônibus, quando aconteciam com mais frequência, provocavam inquietude das forças de segurança do estado, já que era uma situação que deixava em vulnerabilidade dezenas de pessoas de uma só vez.

Staeel diz que, com os planejamentos táticos e técnicos traçados pela polícia para coibir a violência, e com a implantação da tecnologia dentro do transporte, a baixa no número dos roubos foi acontecendo naturalmente e hoje a proteção com o meio de locomoção está mais assegurada. Assista:

“A modalidade de assaltos em coletivos sempre foi o tipo de crime que preocupou a Segurança Pública, a categoria dos rodoviários, as empresas de ônibus e claramente o usuário desse tipo de serviço. Porque o assaltante que invade o coletivo para cometer o crime sempre será um indivíduo violento. Ele certamente vai estar armado e não pensa duas vezes quando alguém, por algum motivo, resolve reagir. Ele vai atirar, vai esfaquear, vai vitimar essa pessoa de alguma maneira”, enfatiza Staeel.

Staeel Santos destacou ainda que os policiais estão mais instruídos a evitar não apenas assaltos, mas também outros crimes dentro do transporte coletivo. “A Segurança Pública trabalha de maneira estratégica e utiliza atividade ostensiva da Polícia Militar nas ruas diuturnamente, realizando abordagens. Inclusive, existe uma operação chamada “Ônibus Seguro” que, em momentos estratégicos levantados pela polícia em linhas com recorrência de crime, a polícia para o ônibus, conversa com os usuários, realiza buscas pessoais em homens, em mulheres e muitas vezes noticiamos casos em que o indivíduo foi flagrado portando arma de fogo ou arma branca. Então isso é de grande valia para o enfrentamento desses crimes”, esclarece.

“Uma vez o crime não ter sido evitado, posteriormente há o trabalho investigativo da Polícia Civil. E ela tem conseguido identificar o assaltante, o localizando e o prendendo”, complementa o especialista em Segurança.

Com o fim do pagamento da passagem em dinheiro em espécie, Staeel Santos considera que as estatísticas de roubos tendem a cair cada vez mais. “Quando existia a figura do cobrador, a empresa chegou a investir em cofres dentro dos ônibus e a orientação dada era para que não deixasse grandes quantias na caixa de dinheiro, de troco, e que a maior quantidade fosse depositada no cofre. Me recordo que existia o indicativo de que a chave do cofre não estivesse em posse do cobrador, e sim, de uma empresa. E também houve investimento de câmeras dentro dos ônibus”, recorda.

“Claramente esse cenário atual, de não ter a figura do cobrador, e sim uma tecnologia para que o dinheiro físico, em espécie, não circule,  distancia o interesse do criminoso à abordagem do coletivo”, conclui Staeel.