A crescente tensão entre Turquia e Israel se intensificou com a emissão de um mandado de prisão contra o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, por parte da Turquia, que o acusa de crimes relacionados à flotilha humanitária em Gaza, enquanto Israel promete agir contra as tentativas turcas de desestabilização na região.
As acusações turcas se baseiam em ações de Israel que resultaram em críticas internacionais, incluindo denúncias de maus-tratos a ativistas, e refletem um contexto de deterioração nas relações bilaterais, exacerbadas pelo apoio da Turquia ao Hamas e pela resposta militar de Israel na Síria.
Em resposta, o governo israelense qualificou Erdogan de 'ditador antissemita' e reafirmou sua determinação em agir contra a Turquia, enquanto a situação continua a ser monitorada por aliados dos dois países, com a Turquia mantendo sua posição como um dos poucos reconhecedores de Israel na região.
Com os Estados Unidos de Donald Trump cada vez mais concentrados em uma forma de se retirar do lamaçal da guerra no Irã, os países do Oriente Médio se movimentam para encontrar um lugar no tabuleiro cada vez mais instável da região.
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Nesta sexta-feira (21), dois importantes aliados militares de Washington, Turquia e Israel, aumentaram a tensão da crise diplomática que vivem. Ancara emitiu um novo mandado de prisão contra o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e o governo em Tel Aviv reagiu dizendo que agirá contra "as tentativas da Turquia de desestabilizar a região".
Não é a primeira vez que o governo turco, sob comando do autocrata Recep Tayyip Erdogan, pede a prisão de Netanyahu. Em novembro de 2025, a Turquia, país de maioria muçulmana, emitiu mandados de prisão para o primeiro-ministro e outras 36 autoridades israelenses, acusando-as de genocídio na Faixa de Gaza.
Nesta sexta, o mandado se refere às ações das forças de Israel contra a flotilha humanitária que tentou romper o bloqueio naval imposto por Tel Aviv contra Gaza. Netanyahu e membros de seu governo foram acusados dos crimes de lesão corporal, tortura, destruição de propriedade e roubo de bens, além de sequestro de veículos.
O governo de Israel foi amplamente criticado por diversos países, incluindo o Brasil, pelo tratamento dado aos ativistas interceptados em maio desse ano. Houve uma série de denúncias de maus-tratos e tortura a que os participantes da flotilha teriam sofrido sob custódia israelense.
Na época, o ministro israelense da Segurança Nacional, o extremista Itamar Ben-Gvir, publicou um vídeo com os membros da flotilha detidos com as mãos amarradas e a testa apoiada no chão. "Bem-vindos a Israel, é assim que tratamos os apoiadores do terrorismo", dizia a legenda da publicação.
O chanceler israelense, Gideon Saar, acusou Ben-Gvir na ocasião de prejudicar a imagem internacional do país, e Netanyahu disse que "a maneira como Ben-Gvir lidou com eles não está de acordo com os valores e normas de Israel". O governo, entretanto, negou todas as acusações de maus-tratos e disse que a interceptação da flotilha seguiu o que precogniza o direito internacional marítimo.
O ministro da Justiça da Turquia, Akin Gürlek, disse nesta sexta que seu país não aceitará "que o governo Netanyahu seja intocável e isento de responsabilização". "Continuaremos a permanecer firmes ao lado do povo palestino, dos oprimidos e dos valores humanitários. Tomaremos todos os passos necessários para que aqueles que cometem crimes contra a humanidade prestem contas perante a justiça", concluiu Gürlek.
O governo Netanyahu reagiu imediatamente. Em nota, chamou Erdogan de "ditador antissemita" e relembrou as várias prisões de jornalistas e políticos de oposição na Turquia.
"Israel continuará a agir de maneira decisiva contra as tentativas [turcas] de desestabilizar a região", diz o comunicado.
No X, a conta oficial do escritório do premiê israelense também publicou um vídeo justificando o ataque que escalou a crise nesta semana. Na terça (18), Israel bombardeou a base aérea de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, afirmando que a Turquia se preparava para enviar um contingente militar à instalação.
Um porta-voz de Netanyahu diz no vídeo que a base atacada fica a menos de 290 quilômetros do território israelense e que poderia representar uma ameaça. "Não permitiremos que a Turquia se entrincheire na Síria e se mova cada vez mais ao sul, na direção de Israel", afirmou, acrescentando que Erdogan é um inimigo do Estado judeu.
A relação bilateral entre os países, cujo território é separado apenas pela Síria, começou a piorar depois dos ataques de 7 de outubro de 2023. O grupo terrorista Hamas, responsável pelos atentados que mataram 1.200 israelenses, conta com apoio diplomático de Erdogan, que, em 2020, recebeu líderes da facção extremista em visita oficial. A ação foi condenada na época por Israel e pelos EUA.
Ao longo da guerra na Faixa de Gaza, em que pelo menos 73 mil palestinos foram mortos em ataques israelenses, Erdogan criticou constantemente as ações de Tel Aviv. O presidente turco falou em genocídio e suspendeu todo o comércio e voos com Israel, mas não tomou o passo de romper formalmente as relações diplomáticas.
A Turquia é um de apenas cinco países no Oriente Médio que reconhecem a existência do Estado de Israel, ao lado de Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, o que tornaria qualquer piora mais severa nas relações extremamente danosa para Tel Aviv.
Soma-se a isso o fato de que a Turquia ocupa uma posição bastante elevada na lista de aliados dos EUA. Ancara é membro da Otan, a aliança militar liderada por Washington, opera mísseis e centenas de aviões de combate de fabricação americana, e é um dos seis países onde o Pentágono armazena armas nucleares. Somente a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália e o Reino Unido também compõem essa lista.
Também por causa da proximidade entre Erdogan e o Hamas, a Turquia, ao lado do Egito e do Qatar onde vivem hoje os líderes do grupo, ajudou a negociar o acordo de paz entre Israel e o grupo terrorista chancelado por Trump com a criação do Conselho da Paz.
O progresso dos termos da trégua, entretanto, tem sido lento, e nesta quinta (20) Ancara, Doha e Cairo criticaram Israel por repetidos ataques em Gaza apesar do acordo. "A intensificação dos ataques israelenses mina os esforços internacionais em um momento crítico", disseram os países em nota.
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