Contextualizando

Questionamento técnico sobre o projeto “Renasce Salgadinho”

Em 14 de Abril de 2026 às 11:00

Durante os 5 anos e três meses da administração de João Henrique Caldas na Prefeitura de Maceió, o projeto apresentado como o mais importante foi o “Renasce Salgadinho”, inaugurado no último dia da sua gestão.

A proposta foi amplamente divulgada como a solução para a degradação ambiental tornou o curso de água, na área principal da cidade, um foco de dejetos humanos e industriais, além de depósito de móveis e outros objetos inservíveis aos moradores do seu entorno.

Ao que parece, na prática a teoria é outra.

É o que entende o ambientalista Dílson Ferreira, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas, como argumenta no texto a seguir:

“A intervenção denominada ‘Renasce Salgadinho’, executada no trecho final do Riacho Salgadinho, também conhecido como Riacho Massayó, tem sido apresentada como um marco de recuperação ambiental em Maceió. Na verdade, esse projeto, ao ser avaliado criteriosamente, atua mais como um greenwashing urbano.

Greenwashing (ou lavagem verde) é uma estratégia de marketing em que empresas e gestores criam uma aparência de sustentabilidade e ambientalismo para melhorar sua reputação e atrair consumidores, admiradores e, no caso de políticos, eleitores e investidores, sem adotar práticas ambientais reais que resolvam efetivamente os problemas como um todo. Muitas vezes, resolvem apenas uma pequena parte e vendem como se tivessem resolvido o conjunto.

Sob uma análise técnica mais rigorosa, é necessário distinguir com clareza o que, de fato, foi realizado no Renasce Salgadinho: não se trata de uma requalificação ambiental completa, mas de uma intervenção localizada, com foco predominante no controle hidráulico de parte do riacho e na qualificação urbana na área mais nobre da bacia, compreendida entre a antiga rodovia e a ponte da Praia da Avenida.

O projeto de saneamento, efetivamente, atua em um trecho restrito, entre a região do Poço, nas imediações do Colégio Marista, e a foz, abrangendo cerca de 2 a 3 quilômetros. Nesse segmento, foram implantadas estruturas como estação de tratamento parcial, jardins filtrantes, urbanização de ruas, canalização do riacho, ecobarreiras e, por fim, na ponte, comportas e um sistema de bombeamento que direciona a água desse trecho para o emissário submarino.

A lógica central é impedir que a água poluída chegue diretamente à orla, transferindo esse volume para lançamento em alto-mar. Com isso, recupera-se a balneabilidade no verão.

Do ponto de vista visual e urbano, há ganhos evidentes. A área recebeu calçadas, paisagismo e arborização, criando um espaço mais organizado e potencialmente mais agradável para o mercado imobiliário e para a população do entorno.

No entanto, essa melhoria não pode ser confundida com a recuperação ambiental de toda a Bacia do Reginaldo.

O Riacho Salgadinho é parte de uma bacia hidrográfica extensa e complexa. Com aproximadamente 13,5 km de extensão, atravessa cerca de 15 bairros, direta e indiretamente, e drena uma área de aproximadamente 27 km². Recebe contribuições de diversos afluentes, como os riachos Pau D’Arco, Sapo e Gulandim, além de drenagens urbanas provenientes de bairros como Gruta, Farol, Feitosa, Jacintinho, Barro Duro, Serraria, Antares, Jardim Petrópolis, Canaã, Santa Lúcia, entre outros.

Nessas áreas, não houve intervenções estruturais do projeto. Não houve universalização do saneamento, controle efetivo da drenagem urbana, nem recuperação ambiental das margens e das matas ciliares.

Como resultado, a maior parte da carga poluente continua sendo gerada a montante e segue sendo conduzida continuamente ao trecho final, no Poço e na Praia da Avenida.

Nesse contexto, a intervenção realizada atua apenas sobre o efeito, e não sobre a causa.

Uma proposta efetiva de requalificação exigiria uma abordagem sistêmica, envolvendo toda a bacia hidrográfica. Isso inclui a recuperação da nascente, a interceptação dos esgotos ao longo de todo o percurso, a recomposição da mata ciliar, a realocação da população dessas margens, o redesenho do sistema de drenagem e a integração entre planejamento urbano, saneamento e gestão ambiental.

Além disso, soluções inovadoras poderiam ser incorporadas, como a implantação de barreiras ecológicas ao longo do curso do riacho. Estima-se que cerca de 15 pontos estratégicos seriam suficientes para retenção de resíduos sólidos. Associadas a essas barreiras, poderiam ser implantadas miniestações de triagem, reciclagem e tratamento, com participação direta da população, criando centros de reciclagem e educação ambiental em cada bairro.

Esse modelo permitiria não apenas a redução da poluição, mas também a geração de renda e o fortalecimento da educação ambiental.

Outro aspecto relevante diz respeito ao desenho urbano adotado no trecho entre o Poço e a foz, visto como vitrine urbana da prefeitura. O uso de materiais nobres, como vidro, tende a elevar os custos de implantação e manutenção, além de aumentar a vulnerabilidade à depredação.

A experiência urbana demonstra que soluções mais simples, com materiais duráveis e adaptados ao clima local, são mais eficientes a longo prazo. O prefeito Sandoval Caju, em 1962, fez isso, e até hoje suas obras resistem ao tempo, como mirantes e praças.

Mais do que elementos estéticos, o que garante a qualidade do espaço urbano é a presença de sombra, arborização intensa, áreas permeáveis, conforto térmico e espaços de convivência.

Espaços mais naturalizados, integrados à vegetação e à dinâmica ambiental da cidade, tendem a ser mais resilientes a alagamentos e cheias, mais baratos e mais apropriados à realidade climática de Maceió, especialmente em um contexto de mudanças climáticas. Isso é lição urbana básica.

No que se refere ao sistema de desvio da água poluída, a implantação de comportas e o direcionamento do fluxo para o emissário submarino produzem um efeito imediato: a melhoria da balneabilidade na orla, especialmente em períodos de maior uso, como o verão.

No inverno, veremos o que sempre vimos: grande volume de água da bacia do Reginaldo sendo lançado no mar, ou seja, o riacho cumprindo sua função natural de drenagem urbana. Entretanto, essa solução de canalizar esgoto para o emissário não elimina o problema ambiental, apenas o desloca.

O emissário submarino opera com tratamento primário apenas, removendo sólidos mais grosseiros e parte da matéria orgânica. Não há remoção eficaz de microrganismos patogênicos, nutrientes ou contaminantes dissolvidos.

Com a nova configuração, há um aumento da carga de esgoto direcionada ao sistema do emissário, ampliando o impacto em alto-mar. Ou seja, a poluição deixa de ser visível na faixa de areia, mas continua existindo, em escala ampliada, no ambiente marinho.

É como se a sujeira fosse jogada para debaixo do tapete.

Do ponto de vista técnico, trata-se de uma medida de mitigação, não de solução estrutural, ou seja, um greenwashing clássico.

A solução definitiva exige a universalização do saneamento na bacia, com coleta, interceptação e tratamento adequado dos esgotos, preferencialmente em nível secundário ou terciário, antes do lançamento final.

Por fim, é impossível analisar essa intervenção sem considerar o contexto mais amplo da gestão urbana em Maceió.

Nos últimos anos, a cidade recebeu um volume extraordinário de recursos, provenientes de compensações ambientais, convênios federais e financiamentos internacionais. Trata-se de uma oportunidade histórica que estamos perdendo.

No entanto, esses investimentos não foram acompanhados por planejamento participativo, debates populares estruturados e integração entre políticas públicas.

Maceió segue sem instrumentos fundamentais atualizados, como Plano Diretor, Plano de Mobilidade, Plano de Arborização, Plano de Mudanças Climáticas e um Plano de Saneamento efetivamente implementado.

Sem planejamento, os investimentos tendem a ser pontuais, fragmentados, com baixo impacto estrutural e alto custo.

O ‘Renasce Salgadinho’, nesse sentido, simboliza esse paradoxo: uma obra relevante do ponto de vista urbano e visual, mas limitada do ponto de vista ambiental e sistêmico, pois não resolve o problema da bacia.

A cidade melhora em aparência, mas continua enfrentando os mesmos problemas estruturais, que só se agravam.

O verdadeiro renascimento do Riacho Salgadinho não virá de intervenções localizadas, mas de um projeto de longo prazo, integrado, que trate a bacia como um sistema vivo, complexo e essencial para o futuro urbano e ambiental de Maceió.

Estamos diante do Greenwashing Salgadinho?”

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