Atenção, pois um estudo apresentado no Congresso da ESC 2026 (Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia) mostrou que um adoçante muito utilizado como alternativa ao açúcar pode estar relacionado a um efeito indesejado: maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo infarto e AVC.
Trata-se do xilitol, que, quando encontrado em níveis elevados no sangue dos participantes, foi associado a uma maior ocorrência de problemas cardiovasculares graves. Segundo informações divulgadas pelo órgão, foram analisados 17.710 participantes.
O que o estudo encontrou
A pesquisa foi realizada a partir de dados de dois grandes grupos acompanhados ao longo do tempo: o Canadian Longitudinal Study on Aging (CLSA) e o EPIC-Norfolk, estudo europeu voltado à investigação de fatores relacionados ao câncer e a outras doenças.
Os pesquisadores dividiram os participantes de acordo com a concentração de xilitol identificada no sangue. Na comparação entre aqueles que apresentavam os níveis mais altos e os que tinham as menores concentrações, apareceu uma diferença relevante na ocorrência de eventos cardiovasculares importantes.
No grupo canadense, acompanhado durante seis anos, os participantes com as maiores concentrações da substância apresentaram risco 57% maior de sofrer um evento cardiovascular grave em comparação com aqueles que tinham os menores níveis. Esse grupo de eventos incluía morte, infarto do miocárdio e AVC.
Já na análise do EPIC-Norfolk, que teve acompanhamento de até 30 anos, a diferença observada foi de 18%. Dessa forma, os dois conjuntos de dados apontaram para a mesma direção: quanto maior a concentração de xilitol no sangue, maior foi a frequência dos eventos cardiovasculares analisados.
Por que o xilitol entrou no radar dos pesquisadores
O xilitol pertence ao grupo dos álcoois de açúcar e é utilizado para substituir o açúcar em diferentes produtos. Ele pode ser encontrado em alimentos e bebidas, além de itens de higiene bucal, como algumas pastas de dente e produtos voltados à prevenção de cáries.
A substância também ocorre naturalmente no organismo durante o metabolismo da glicose e aparece em pequenas quantidades em alguns alimentos. O problema investigado pelos cientistas está relacionado principalmente à exposição a concentrações mais elevadas, já que a indústria pode utilizar quantidades muito superiores às encontradas naturalmente.
Esse cenário chama atenção porque o xilitol costuma ser associado à redução do consumo de açúcar. Como possui poucas calorias e interfere menos na glicemia do que o açúcar convencional, ele passou a ser utilizado em produtos direcionados principalmente a pessoas que buscam controlar o peso ou reduzir a ingestão de açúcar.
A nova análise, portanto, não significa que a substância tenha deixado de ser utilizada ou que seus benefícios conhecidos tenham sido anulados. O que muda é a necessidade de investigar melhor o que acontece quando o organismo permanece exposto a níveis elevados por períodos prolongados.
O resultado não prova que o xilitol causa infarto
Esse é um dos pontos mais importantes para interpretar corretamente os resultados. O trabalho apresentado no congresso foi observacional. Nesse tipo de pesquisa, os cientistas analisam informações de grupos de pessoas e procuram identificar relações entre determinados fatores e acontecimentos posteriores. O método permite encontrar associações relevantes, mas não é suficiente, sozinho, para estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Os pesquisadores levaram em consideração diversos fatores que também podem aumentar o risco cardiovascular, como idade, sexo, tabagismo, hipertensão, diabetes, índice de massa corporal e níveis de lipídios no sangue. Mesmo depois desses ajustes, a associação entre concentrações mais altas de xilitol e eventos cardiovasculares permaneceu.
Ainda assim, os próprios especialistas envolvidos no estudo afirmam que são necessárias novas pesquisas para determinar se existe uma relação causal e entender qual seria o impacto de diferentes níveis de exposição à substância.





