Um menino de 11 anos do Japão demonstrou que borboletas retêm memórias formadas quando eram lagartas e, em uma descoberta ainda mais surpreendente, que essa memória é transmitida às gerações seguintes que nunca foram expostas ao estímulo.
O trabalho é do jovem Jo Nagai e foi apresentado como pôster no 73º Congresso Anual da Sociedade Ecológica do Japão, realizado em Kyoto, e sugere a existência de um mecanismo epigenético de herança comportamental.
No experimento, Nagai treinou lagartas da espécie Papilio xuthus a associar o aroma de lavanda a uma vibração desagradável, gerada por um dispositivo de terapia muscular na menor voltagem. Após a metamorfose, as borboletas foram colocadas em um labirinto em forma de Y, com um braço perfumado com lavanda e outro sem odor.
Os resultados: 70,9% das borboletas treinadas evitaram o cheiro, contra apenas 51% do grupo controle. Mas a parte mais chocante veio depois. Filhos e netos das borboletas treinadas, que nunca passaram pelo experimento, também evitaram a lavanda em taxas de 64,8% e 60,0%, respectivamente.
De curiosidade a pesquisa
A investigação nasceu quando Nagai notou que as borboletas criadas por ele retornavam à sua mão após serem soltas, comportamento que não se via em indivíduos selvagens. A partir daí, surgiu a pergunta: a metamorfose realmente apaga a memória?
Em 2022, aos 8 anos, o garoto entrou em contato com a entomologista Martha Weiss, da Universidade Georgetown, nos EUA, autora de um estudo de 2008 publicado na PLOS ONE que já havia demonstrado retenção de memória através da pupa em lagartas de traça-do-tabaco.
Com o estudo, Nagai preparou um relatório de 33 páginas detalhando metodologia, resultados e limitações, intitulado “Epigenetic Transmission of Learned Larval Memory across Generations in Papilio xuthus“.
Cautela científica
Apesar do caso ter ganhado fama, especialistas ressaltam que o trabalho não passou por revisão por pares e que os resumos do congresso são publicados conforme registrados, sem o crivo editorial de uma revista. O experimento foi conduzido em ambiente doméstico, o que limita o controle de variáveis.
A transmissão intergeracional de aversão aprendida é considerada uma “afirmação extraordinária” pela comunidade científica. A replicação independente por outros laboratórios é o próximo passo obrigatório antes que o fenômeno seja aceito como fato estabelecido.
Para os cientistas, caso a teoria seja confirmada, a descoberta reescreveria capítulos da biologia do desenvolvimento e da neurociência comparada e teria sido feita por um menino de 11 anos, com óleo de lavanda e um aparelho de terapia muscular.





