A tarifa de energia elétrica cobrada no Brasil é mais cara do que a de 77 dos 138 países analisados em um levantamento do Instituto Centro de Liderança Pública (CLP), mesmo considerando renda, nível geral de preços e qualidade da matriz elétrica de cada país.
O Brasil aparece na 66ª posição do ranking, com preços superiores aos de nações com matriz energética semelhante, como Canadá, Noruega e China.
O preço médio da tarifa brasileira, ajustado pela paridade do poder de compra segundo a metodologia do estudo, é de US$ 0,357 por kWh. Na China, a tarifa é de US$ 0,155 por kWh. Entre os países com energia ainda mais cara do que a brasileira estão França (US$ 0,373/kWh), Chile (US$ 0,496/kWh), Colômbia (US$ 0,591/kWh) e Itália (US$ 0,637/kWh).
O levantamento aponta que o Brasil desperdiça a vantagem competitiva de ter uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com participação crescente de fontes eólica e solar. “O problema é que essa vantagem se dissipa entre a usina e o consumidor”, diz a nota técnica de Daniel Duque, pesquisador do CLP.
Onde vai o dinheiro da conta de luz
Segundo o estudo, a energia em si corresponde a cerca de 30,4% do valor final da conta. Os custos de distribuição representam 26,1%, os de transmissão, 10,1%, os encargos setoriais somam 15,2% e os tributos, 18,1%.
As perdas técnicas e fraudes, como os popularmente chamados “gatos” de energia e erros de medição, chegam a 14,3% da energia distribuída, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
O país também enfrenta gargalos de transmissão e restrições operativas para usinas renováveis, o que significa que energia barata gerada em um ponto do sistema nem sempre pode ser transportada ou usada com eficiência em outro.
O peso dos subsídios e das leis aprovadas no Congresso
O principal encargo pago pelos consumidores na conta de luz é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), que chegou a R$ 52,7 bilhões em 2026. Para Vivian Figer, pesquisadora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV, parte da CDE é encarecida por subsídios ultrapassados.
O levantamento simulou cenários de redução de encargos, perdas técnicas e custos regulatórios. Numa reforma agressiva com corte de 50% da carga fiscal estimada, a tarifa poderia cair de US$ 0,357 para US$ 0,241 por kWh, redução de 32,3%.
Um cenário mais conservador, apenas com reforma de subsídios, resultaria em queda de 9,68%. Já uma reforma agressiva sem mudança tributária levaria a uma redução de 22,73%.
Duque defende que uma eventual reforma retire da conta de luz políticas que poderiam ser financiadas pelo orçamento público. “A questão não é eliminar todo objetivo social, regional ou ambiental, mas financiá-lo com transparência, comparar alternativas e medir custos e resultados”, afirma.
Figer, por sua vez, sugere um redesenho mais amplo do mercado de energia, com preços que reflitam o custo real do sistema em cada lugar, a cada hora.





