Quem não tem contato próximo com amigos apresenta resultados de saúde mental bem inferiores aos de quem mantém esses laços. A constatação está na pesquisa feita pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, que apontou o isolamento social como a variável com maior peso entre as fragilidades emocionais investigadas.
Nas duas semanas anteriores à realização da pesquisa, mais de um terço dos entrevistados, 36,5%, disse ter passado por algum episódio de solidão. Entre todos os hábitos e comportamentos avaliados pelo estudo, esse foi o que mais pesou nos resultados.
A diferença numérica entre quem convive com isolamento e quem não convive é expressiva. Quem relatou solidão por três vezes ou mais teve 383 pontos no Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), enquanto quem nunca sentiu isso teve 782 pontos — a maior distância registrada entre todas as variáveis do levantamento.
Conexão social como fator de proteção
Quando o recorte muda para “relatou solidão, em qualquer frequência” versus “não relatou”, o ICASM ficou em 478,2 pontos contra 782,3, uma diferença de cerca de 304 pontos. Esse padrão aponta para um elo direto entre contato social e equilíbrio emocional.
Ter amigos por perto aparece como o principal antídoto para esse quadro. Quem encontrou amigos pontuou 736,9 no índice, enquanto quem não teve esse contato ficou em 539 pontos — uma distância que coloca a amizade entre os hábitos mais protetivos do levantamento.
Outras formas de engajamento social também pontuaram melhor no índice. Pessoas que fizeram trabalho voluntário chegaram a 731,3 pontos no ICASM, ante 654,2 entre as que não se envolveram nesse tipo de atividade, e a frequência a igrejas ou templos marcou uma diferença de 104,5 pontos no indicador.
A prática de atividade física também aparece associada a melhores resultados, com ICASM de 728,6 entre praticantes contra 621,7 entre os que não praticam.
Grupos mais atingidos pelo isolamento
A solidão também variou conforme o estado civil: 51,7% dos solteiros relataram o sentimento, contra 26,6% dos casados. Entre pessoas com diagnóstico de transtorno mental, o percentual chega a 52,5%, ante 32,5% entre quem não tem diagnóstico.
O tempo diante das telas também pesa nessa equação. Passar três horas ou mais por dia em redes sociais eleva a prevalência de solidão para 46,8%, enquanto usuários com uso moderado registram 26,1%.
Entre quem brigou com frequência com familiares, 84,2% relataram solidão, ante 24,4% dos que não enfrentaram esses atritos. O percentual também foi maior entre quem nunca encontrou amigos: 54,6%, contra 19,4% entre quem se encontrou com eles três vezes ou mais.
IA entra como válvula de escape

O estudo investigou pela primeira vez como a inteligência artificial se conecta ao bem-estar emocional dos brasileiros. Entre os entrevistados, 86,4% já usaram alguma ferramenta de IA, e 51,9% recorreram a geradores de texto ou conversa, como ChatGPT. Gemini e Copilot — mas apenas 31,3% se dizem com conhecimento médio ou alto sobre o tema.
Entre quem não relatou isolamento, apenas 1,8% recorreram à IA em busca de interação; esse número sobe para 8,5% entre quem sentiu solidão uma ou duas vezes e salta para 32,1% entre quem viveu esse sentimento três vezes ou mais — justamente o uso de IA que mais aparece ligado a piores indicadores emocionais no levantamento.
A solidão está desconectando as pessoas da vida cívica
A falta de vínculos não é apenas um problema individual de saúde mental, ela afeta também como as pessoas participam da sociedade. Pesquisa complementar encontrou que a solidão e o esgotamento mental estão entre as principais razões pelas quais milhões de brasileiros deixam de votar.
Pessoas que se sentem desvinculadas, isoladas e exaustas passam a acreditar que não têm poder para transformar nada, e isso as afasta da política e da vida comunitária.
Jovens são os mais atingidos por esse ciclo destrutivo: quando faltam conexões reais eles preenchem esse vazio com TV e redes sociais, que funcionam como “anestesia” para a exaustão. Mas isso piora ainda mais o isolamento, criando um padrão difícil de quebrar.





