Ultrapassar os 100 anos de vida ainda é uma exceção estatística no mundo. Passar dos 110, então, é considerado um fenômeno raríssimo. Mesmo assim, o Brasil vem chamando a atenção da comunidade científica por concentrar um número crescente de pessoas que alcançam idades extremas.
Um novo estudo liderado pela geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP), analisou brasileiros que viveram além do século de vida e identificou fatores recorrentes entre eles. A pesquisa foi publicada na revista Genomic Psychiatry e se baseia na avaliação genética e biológica de idosos centenários e supercentenários do país.
Diversidade genética, imunidade e envelhecimento mais lento
O primeiro fator destacado pelos cientistas é a ampla diversidade genética da população brasileira. Resultado da miscigenação entre povos indígenas, africanos, europeus e asiáticos, essa combinação aumenta a chance de surgirem variantes genéticas raras, potencialmente associadas à proteção contra doenças comuns do envelhecimento, como câncer, problemas cardiovasculares e demências.
O segundo ponto envolve a resistência biológica ao desgaste natural do tempo. Os pesquisadores observaram que muitos desses idosos apresentam células mais eficientes na eliminação de proteínas danificadas, o que reduz inflamações e o acúmulo de resíduos celulares. Além disso, o sistema imunológico se mostrou mais ativo e organizado do que o esperado para faixas etárias tão avançadas.
O terceiro fator comum está ligado à resposta imune. Parte dos supercentenários analisados sobreviveu à Covid-19 antes da vacinação, produzindo níveis elevados de anticorpos, o que indica um organismo capaz de reagir com força a infecções mesmo em idade extrema.
O estudo também identificou padrões familiares. Em alguns casos, vários parentes próximos ultrapassaram os 100 anos, sugerindo herança genética favorável. Um exemplo citado envolve uma mulher de 110 anos com sobrinhas centenárias fisicamente ativas.
Para os autores, compreender como esses brasileiros envelhecem ajuda a ciência a mudar o foco: mais do que viver mais, o desafio é viver mais tempo com saúde.





