Uma mudança silenciosa nas regras do abono salarial começa a produzir efeitos práticos e deve impactar, de forma gradual, milhões de trabalhadores nos próximos anos. A alteração foi aprovada em 2024 e, a partir de 2026, já reduz o número de pessoas com direito ao PIS/Pasep.
A principal mudança está no critério de renda. Antes, tinham acesso ao abono os trabalhadores que recebiam, em média, até dois salários mínimos no ano-base. Agora, esse teto deixou de acompanhar os reajustes do salário mínimo e passou a ser corrigido apenas pela inflação. Na prática, isso significa que, com o salário mínimo crescendo acima do INPC, menos pessoas se enquadram no limite ao longo do tempo.
Por que o número de beneficiários do abono salarial diminui
No Ceará, os efeitos já começam a aparecer. Em 2026, cerca de 1.009.118 trabalhadores têm direito ao abono salarial, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. O número é 0,81% menor do que em 2025, o que representa cerca de 8,2 mil pessoas a menos.
Para o economista João Mário de França, professor da Universidade Federal do Ceará e pesquisador do FGV Ibre, a tendência é de queda contínua nos próximos anos. Segundo ele, como o salário mínimo cresce acima da inflação, o limite de renda é ultrapassado gradualmente, reduzindo o público atendido.
A mudança faz parte da Emenda Constitucional nº 135, aprovada como estratégia de ajuste fiscal. O governo avalia que o abono salarial é política menos focalizada do que programas o Bolsa Família, voltado às famílias de menor renda.
Para o pagamento de 2026, o limite de renda mensal considerado é de R$ 2.766. O valor do abono varia conforme os meses trabalhados no ano-base e pode ir de R$ 136 a R$ 1.621. Os pagamentos começam em fevereiro, com consulta pelo aplicativo Carteira de Trabalho Digital.





