Pesquisas recentes indicam que o ser humano não possui apenas cinco sentidos, como aprendemos na escola. A ciência agora reconhece sete sentidos, e os dois mais importantes não são visão nem audição, mas aqueles que informam o cérebro sobre o que acontece dentro e com o próprio corpo.
Quem explica essa mudança de paradigma é a neurocientista espanhola Nazareth Castellanos, pesquisadora do laboratório Nirakara-Lab e professora da Universidade Complutense de Madri, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Segundo Castellanos, o cérebro está em constante diálogo com o corpo. “Se faço uma cara de raiva, o cérebro interpreta que essa cara é típica de raiva e, portanto, ativa os mecanismos de raiva”, afirma a cientista. O mesmo ocorre com a postura: “quando o corpo está em uma postura típica de tristeza, o cérebro começa a ativar mecanismos neurais típicos da tristeza”.
Os sentidos que a escola não ensinou
Durante décadas, a ciência concentrou seus esforços em compreender como percebemos o mundo externo, sons, imagens, cheiros, sabores e texturas. Esses cinco sentidos pertencem ao que os pesquisadores chamam de exterocepção. No entanto, hoje a neurociência aponta que eles não ocupam o topo da hierarquia cerebral.
O sentido mais relevante para o cérebro é a interocepção, a capacidade de perceber o que acontece dentro do organismo. Batimentos cardíacos, respiração, funcionamento do intestino e sensações viscerais chegam ao cérebro de forma contínua e têm prioridade absoluta no processamento neural.
Logo em seguida vem a propriocepção, responsável por informar ao cérebro como o corpo está posicionado no espaço. Postura, gestos, tensão muscular e expressões faciais fazem parte desse sistema. Juntos, interocepção e propriocepção formam a base da nossa experiência emocional e cognitiva.
O rosto como atalho emocional
Uma das regiões do cérebro mais sensíveis a essas informações é o córtex somatossensorial, onde o corpo inteiro está “mapeado”. Curiosamente, áreas como o rosto, as mãos e a curvatura do tronco ocupam muito mais espaço nesse mapa do que regiões maiores, como as costas ou as pernas.
É por isso que pequenas ações, como franzir a testa, têm grande impacto emocional. De acordo com Castellanos, esse gesto ativa áreas profundas do cérebro ligadas à emoção. “Quando eu franzo a testa, estou ativando minha amígdala”, explica. A amígdala é uma estrutura fundamental para o processamento do medo e do estresse. Quando já está ativada, qualquer estímulo estressante tende a provocar reações mais intensas.
Por outro lado, relaxar o rosto e suavizar a expressão pode ajudar a reduzir essa ativação emocional excessiva.
O poder de um sorriso, mesmo sem alegria
Estudos clássicos da psicologia e da neurociência demonstram que o simples ato de sorrir pode alterar a forma como interpretamos o mundo. Em experimentos conhecidos, participantes seguravam uma caneta entre os dentes, simulando um sorriso, ou entre os lábios, imitando uma expressão fechada. Os resultados mostraram que, ao “sorrir”, as pessoas avaliavam imagens como mais agradáveis.
Esses achados reforçam a ideia de que o cérebro busca constantemente coerência entre corpo e mente. Quando a expressão facial não combina com o estado emocional interno, ocorre o que os pesquisadores chamam de “migração do estado de espírito”, ou seja, o cérebro tenta ajustar a emoção ao corpo.
A postura molda memória e emoção
O impacto da propriocepção não se limita ao rosto. A postura corporal também exerce influência direta sobre a cognição. Experimentos mostram que pessoas curvadas, por exemplo, tendem a apresentar pior desempenho de memória e maior recordação de palavras negativas.
Isso acontece porque a postura curvada é associada, ao longo da evolução, a estados emocionais como tristeza e desânimo. Ao assumir essa posição por longos períodos, algo comum no uso excessivo de celulares e computadores, o cérebro ativa circuitos emocionais compatíveis com esse estado.
A recomendação da neurocientista não é rigidez corporal constante, mas consciência. Observar o próprio corpo ao longo do dia e corrigir, aos poucos, hábitos posturais automáticos pode gerar efeitos positivos no humor e na atenção.
Escutar os “sussurros” do corpo
Apesar de o corpo enviar sinais o tempo todo, grande parte das pessoas tem dificuldade em percebê-los. Castellanos destaca que emoções nunca são apenas mentais: sempre se manifestam em alguma região do corpo, como um aperto no estômago ou um nó na garganta.
Desenvolver consciência corporal significa aprender a identificar essas sensações e traduzi-las em palavras. Esse processo ajuda o cérebro a diferenciar emoções, regular reações e tomar decisões mais adequadas, algo já apontado em estudos clássicos do neurocientista Antonio Damasio.
A respiração como marca-passo do cérebro
Outro elemento central nessa equação é a respiração. A forma como respiramos influencia diretamente memória, atenção e controle emocional. A neurocientista explica que a respiração nasal é essencial para ativar áreas cerebrais ligadas ao aprendizado, como o hipocampo.
Além disso, respirar de forma lenta, com a expiração mais longa que a inspiração, contribui para reduzir a ativação emocional e até aliviar dores crônicas. “A respiração influencia na memória, na atenção e no gerenciamento das emoções”, afirma Castellanos.





