Em 1973, a revista Science publicou um artigo que se tornaria um divisor de águas para a psiquiatria: On Being Sane in Insane Places, do psicólogo americano David Rosenhan. O estudo alegava provar que médicos eram incapazes de diferenciar pessoas saudáveis de pacientes com transtornos mentais.
A experiência parecia simples e impactante: Rosenhan e sete voluntários teriam se infiltrado em hospitais psiquiátricos fingindo ouvir vozes. Segundo o relato, todos foram internados rapidamente e receberam diagnósticos graves, como esquizofrenia. Mas quase meio século depois, uma jornalista trouxe à tona outra versão desta história.
O experimento que virou mito e o jornalista que expôs suas falhas
Durante décadas, o trabalho foi citado como evidência do fracasso da psiquiatria em diagnosticar com precisão. O impacto cultural foi tão grande que inspirou debates acadêmicos e mudanças nos manuais de diagnóstico. Rosenhan virou celebridade, recebeu convites milionários para escrever livros e foi celebrado como um revolucionário.
Foi quando a jornalista Susannah Cahalan decidiu investigar toda essa situação. Ela mergulhou em arquivos, rastreou voluntários e analisou documentos médicos do próprio Rosenhan. E o que encontrou foi perturbador: inconsistências, omissões e, possivelmente, invenções com nenhum embasamento científico.
Cahalan descobriu, por exemplo, que um dos participantes, Harry Lando, relatou sua internação como positiva — ao contrário da narrativa sombria do artigo — e foi simplesmente excluído dos resultados. Também identificou que Rosenhan teria apresentado sintomas mais graves do que os descritos, como ideias suicidas, o que justificaria sua internação.
Com todas essas descobertas, a jornalista expôs tudo no livro The Great Pretender.
O trabalho, antes celebrado como um ataque certeiro ao sistema psiquiátrico, começou a se revelar cheio de brechas. Para Cahalan, a maior ironia é que, apesar das falhas, o estudo acabou pressionando a psiquiatria a se modernizar. O que parecia uma das maiores verdades científicas pode, afinal, ter sido uma das maiores farsas.





