Meio Ambiente

250 mil à beira do colapso: crise hídrica avança, degrada reservas e cria ‘ilhas’ de desabastecimento em Maceió

20/05/16 - 15h14 - Atualizado em 04/10/16 - 16h33

Pescaria: moradores fazem fila à beira de "cacimba" para garantir a água de beber. Foto: Lelo Macena

A cena seria típica de um povoado do interior, há várias décadas, lá pelo século passado. Mas estamos no Litoral Norte de Maceió, em 2016, a 23 quilômetros do Centro da capital. No bairro de Pescaria, os mais de 5 mil moradores dependem da água de uma “cacimba” para matar a sede. 

Durante todo o dia, o movimento é intenso na estradinha de aspecto rural que leva à única fonte ainda não impregnada pela salinidade que deixa salobra a água da região. Abastecidos por poços da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), cuja água é de péssima qualidade e com alto teor de sal, homens, mulheres e crianças não têm outra escolha a não ser recorrer a uma prática medieval. 

A pé, com latas na cabeça, com carros de mão, baldes, garrafas pet, botijões de água mineral, além de todo e qualquer recipiente que armazene o líquido, eles vão e vêm diariamente. Chegam a caminhar por mais de uma hora e fazem fila à beira de uma nascente, para garantir o líquido com qualidade mínima para beber, cozinhar e tomar banho. 

Fio d"água da "cacimba" é a salvação para os moradores de Pescaria. Foto: Lelo Macena

A luta diária por água não é exclusividade dos moradores dessa região de Maceió. Eles estão entre os milhares de maceioenses espalhados pela periferia da cidade, vítimas de um sistema de abastecimento defasado e carente de investimento. 

Todos os dias, milhares de maceioenses sofrem com o colapso no abastecimento de água e as torneiras vazias. Muitos não lembram o dia em que puderam tomar um banho de chuveiro.

A crise hídrica traz graves consequências para o meio ambiente. Desassistidos pelo poder público, moradores recorrem à perfuração de poços para ter água em casa. A exploração desordenada podem degradar a nossa única reserva estratégica de água: os aquíferos. 

Segundo dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Maceió possui registrados cerca de 2.170 poços, somados os poços da Casal. O número pode ser ainda maior por causa das perfurações clandestinas, não identificadas pelos órgãos de fiscalização. 

O TNH1 foi a campo , esteve em bairros críticos, ouviu moradores e especialistas sobre a deficiência no abastecimento e sobre a ameaça à nossa principal reserva hídrica. Confira na reportagem abaixo.

A luta de uma população pela água de cada dia 

Nascido e criado no bairro de Pescaria, no Litoral Norte, às margens do Rio Meirim, José Rafael Gomes, 22 anos, sempre conviveu com a falta d’água na região. “Desde que eu me entendo por gente, é assim. Nunca tivemos água aqui”, diz ele. 

Rafael, de 22 anos, nasceu em Pescaria: "Aqui sempre foi assim". Foto: Lelo Macena


A reportagem do TNH1 o encontrou na estradinha que leva até a ‘cacimba’, como é chamada a única vertente de água usada para consumo pelos moradores de Pescaria. 

“A água que chega na nossa casa é salgada e vem misturada com terra”, diz ele. “Como não podemos comprar água mineral, a gente vem pegar água da cacimba”, diz o jovem, que está ao lado da esposa.

Tímido, ele reclama do martírio que é a caminhada debaixo de sol, empurrando o carro de mão pesado. “A

gente vem buscar água umas três vezes na semana, porque só somos eu e minha esposa em casa, mas tem gente que vai todo dia”, diz, mostrando os 36 litros de água acomodados em botijões de água mineral e outros recipientes. 

Aos 17 anos, Luan Almirante só vem à cacimba buscar água porque “é o jeito”. Naquela tarde, como a mãe estava ocupada, ele teve que assumir a árdua tarefa. Chegou à cacimba acompanhado da vizinha. 

“Tem que vir pegar água, né? Não dá para ficar comprando água mineral, ainda mais nessa crise”, diz o adolescente. 

Luan Almirante, 17 anos, enche o botijão de 20 litros para consumo da família. Foto: Lelo Macena

Enquanto o botijão de 20 litros é abastecido, a vizinha de Luan, a dona de casa Clédja Maria da Silva, organiza os outros recipientes. Os dois vão transportar mais de 80 litros de água para duas famílias. 

“Acho que vai dar para uns três dias”, diz Clédja. Ela conta que morava em Barra de Santo Antônio e se mudou há quatro meses para Pescaria. “Aqui é ruim por causa dessa falta de água. É a pior coisa, ninguém merece essa caminhada e essa luta para ter água em casa”, reclama a dona de casa. 

Luan e Cledja: vizinhos na luta pela água de cada dia: Foto: Lelo Macena

Enquanto Clédja dá seu depoimento, outras donas de casa vão chegando à cacimba e aproveitam para fazer suas reclamações. “A água que chega na nossa casa é horrível”, diz uma, que não quer ser identificada. “Não presta nem pra tomar banho. Tem dia que ela chega com um cheiro forte de lama”, diz a moradora. 

Ao redor da cacimba, a maioria é formada por mulheres, e uma reclamação é consenso entre elas: “Se quisermos lavar nossos cabelos, a gente tem que vir buscar a água aqui, porque a água que chega na torneira deixa o cabelo duro”, diz uma delas e arranca risadas das companheiras.   

Água salgada e com mau cheiro nas torneiras

Um  dos três poços operados pela Casal, em Pescaria: descaso, água salgada e com mau cheiro


A água que abastece Pescaria vem de três poços perfurados pela Casal. Um deles está em péssimo estado e oferece risco à população, ao deixar exposta a fiação elétrica. “Não usamos a água desse poço para beber e nem para cozinhar, a qualidade é péssima”, engrossa a reclamação outra moradora, que não quer ser identificada. Ela mora bem ao lado de um deles. 

“Em todos os poços perfurados pela Casal, a água saiu salobra e parece que a companhia desistiu de tentar outros locais”, conta Cícero da Silva, morador há vários anos. 


A cacimba, segundo Cícero, é prova de que em Pescaria tem água de qualidade que poderia abastecer o bairro. “Se a Casal quiser, eu mostro os locais que têm água boa”, diz ele. 

Vizinho de Cícero, o pedreiro Alessando Severo desistiu do abastecimento da Casal. “Eu passava às vezes a semana inteira sem água e quando chegava na torneira era salgada e cheia de terra”, conta Severo. 

Hoje o abastecimento dele é feito por uma rede privada, possivelmente clandestina. Mas a qualidade do líquido não melhorou. “Tá chegando do mesmo jeito”, reclama ele, que também recorre à cacimba para poder ter água limpar para beber e cozinhar. 

Casal 

Segundo nota da assessoria de comunicação enviada à redação do TNH1, a Casal determinou coleta para verificar a qualidade da água e deve perfurar mais dois poços na região. Leia nota na íntegra:

Sobre o abastecimento de Pescaria, informamos que, realmente, existem três poços operados pela Casal. Diante de algumas reclamações da qualidade da água, a empresa determinou a coleta de análises para verificar se há alguma desconformidade, ou seja, se está fora ou não dos padrões de potabilidade. O resultado dessas análises deve ficar pronto no final da próxima semana. Independentemente dessa situação, estão previstos mais dois poços que deverão ser perfurados pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh). Além disso, está prevista a construção, por parte da Casal, de um reservatório e uma rede de distribuição. A previsão é de que essas obras sejam concluídas em 180 dias. 

O homem da água em Riacho Doce 

Quando o comerciante Fernando da Silva Calheiros chegou para morar no Alto do Cruzeiro, no bairro histórico de Riacho Doce, há 32 anos, o local era um descampado. “Só havia três casas aqui”, lembra Fernando.

Fernando e o poço que abastece cerca de 300 famílias no Alto do Cruzeiro, em Riacho Doce

É um dos desbravadores da região e também o primeiro, antes mesmo da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). 

“Perfurei o primeiro poço aqui nos fundos da minha casa, um cacimbão de 70 metros de profundidade. Vendia a lata de água a R$ 0,10”, conta Fernando. À época, para conseguir água era necessário caminhar cerca de 3 quilômetros a pé.

Há 8 anos, percebendo a dificuldade para o abastecimento da localidade, principalmente dos moradores da Grota do Andraújo, em Garça Torta, Fernando decidiu cavar um outro poço. “As pessoas tomavam água de cacimbas que eram construídas perto de fossas”, lembra o comerciante. 

Ele perfurou o poço, fez a instalação da rede e começou a abastecer as residências, tanto da parte baixa de parte da Garça Torta, como da parte alta de Riacho Doce. 

Hoje, cerca de 300 famílias dependem da rede de água alternativa criada por Fernando. Todas desistiram do atendimento da Casal para ter um abastecimento com o mínimo de regularidade. 

Cada residência para o valor de R$ 30 por mês. O pagamento é feito no mercadinho do Fernando, por enquanto. “Já estamos providenciando os boletos e o pagamento vai ser feito nas lotéricas”, diz Fernando. Segundo ele, o valor é para a manutenção do serviço. “Trabalhamos com bombas e quando esse equipamento quebra, é preciso substituir”, argumenta. 

“Eu preferi ficar com o abastecimento do Fernando. Quando era com a Casal a gente passava dias aqui sem água”, diz Edmilson Farias, morador do alto do cruzeiro, enquanto faz o pagamento mensal pela água que recebe em casa. 

Usuário do sistema alternativo de abastecimento faz o pagamento da mensalidade

O fornecimento de água é feito no sistema de rodízio, que é operado por um “funcionário” de Fernando, que também responde pelos serviços de manutenção da rede. 

“Cinco horas da manhã, eu já estou caminhando por aqui, abrindo um registro, fechando outro, e resolvendo problemas nas casas que são atendidas”, diz Renan Jacinto da Silva, que assume funções de gerente, encanador e até de sistema alternativo de abastecimento de água do Alto do Cruzeiro. 

Água de qualidade

O poço de Fernando talvez seja um dos poucos da região que são regularizados. “Eu não era regularizado, mas depois de uma denúncia anônima, tive que dar entrada em toda a documentação e agora tá tudo ok”, conta. 

O processo foi dispendioso, mas Fernando hoje está tranquilo quanto à fiscalização e também garantiu qualidade à água de sua “clientela”. “Nós deixamos a água com a qualidade exigida pelos órgãos de saúde, fazemos tratamento com cloro”, diz ele. 

Após anos sem água, Manoel e Rosa agora estão tranquilos, graças à rede alternativa. Foto: Lelo Macena

“Graças a Deus que tem o Fernando aqui. Antigamente era sofrimento sem água na torneira”, diz José Manoel dos Santos Filho. “Nós passamos vários dias sem água. Só chegava à noite e olhe lá...”, relembra. 

“Para lavar a roupa, a gente pegava o carro de mão, enchia de roupa suja e ia pra cacimba, lá embaixo”, diz a esposa de Manoel, Rosa de Fátima Costa, apontando para a grota atrás de sua casa. 

Cledja Cardoso dos Santos está na porta, lavando pratos, e faz questão de dizer que está ali não porque não tenha água em casa. “É que eu não tenho pia lá dentro, aí trago aqui pra fora”, explica. 

Cledja Cardoso, moradora do Alto do Cruzeiro. Foto: Lelo Macena

Ela mora há 15 anos no Alto do Cruzeiro e sabe bem do sofrimento de uma dona de casa que não tem a água necessária para as tarefas do dia a dia. “Imagina o que é você ficar oito dias sem um pingo de água dentro de casa. Uma coisa horrível, imagina o banheiro, os pratos, as roupas para lavar”, diz Cledja. “Mas agora temos água”, comemora.

População do Tabuleiro sofre com a falta d’água 

Na parte alta da cidade, na região do Tabuleiro e adjacências, a falta de água nas torneiras é problema crônico para milhares de famílias.  Acauã, Graciliano Ramos, Cidade Universitária, Village Campestre, Medeiros Neto são apenas alguns dos locais cujo abastecimento da Casal é deficiente. 

Morador do Medeiros Neto carrega balde água pelas ruas do conjunto. Foto: Lelo Macena

No conjunto Maria Guedes, nas proximidades do estádio de futebol do 7 de Setembro, tradicional time do Tabuleiro, os moradores têm sua rotina totalmente transformada pelo problema. 

Para quem trabalha duro os dois horários e enfrenta viagens de ônibus cansativas para ir e voltar do serviço, a noite e a madrugada seriam os períodos do dia para descansar e repor as energias. 

Só que é nessa etapa do dia que é possível encontrar um fio de água na torneira das residências. “Eu tenho que acordar cedinho, às 4h da manhã para começar a encher a caixa e os baldes. É difícil, é uma rotina pesada”, diz o marceneiro Cícero Pontes. 

Cícero Pontes acorda de madrugada para "juntar água". Foto: Lelo Macena

É dele a missão de abastecer os recipientes que vão garantir a água para beber, tomar banho, cozinhar e lavar roupa. 

O vizinho, o pedreiro Cícero Olímpio, não lembra qual foi o dia em que tomou o último banho de chuveiro. “Faz tanto tempo que nem sei quando foi”, diz. “Aqui tomamos banho de balde, banho de cuia mesmo”, ri o trabalhador.

A luta na madrugada para encher baldes e garrafas pet interfere diretamente na disposição matinal de Cícero. “A gente passa a manhã com sono, e se paramos pra dormir um pouco, perde o primeiro horário todo, deixa de trabalhar”, reclama.

No Conjunto Medeiros Neto, a movimentação é em torno de uma torneira instalada próximo a um bar, bem na entrada do residencial. Nos dias mais críticos de falta de água, é o único local onde é possível encher os baldes. 

“Nós estamos há um mês sem água aqui”, diz Gleidiane Alves de Oliveira, que trabalha como leiturista, moradora do bloco 20. 

Da frente do prédio, ela aguarda enquanto o vizinho mais jovem lhe faz um favor e atravessa a rua carregando um balde cheio para que ela possa tomar um banho. “Eu tive derrame no joelho e não consigo subir as escadas carregando peso”, explica. 

Gleidiane conta que os moradores de todos os blocos recorrem à torneira, que seria ligada diretamente a uma tubulação da Casal. “Foi o jeito fazer essa ligação, senão ninguém teria água de maneira nenhuma”, conta.  

Ainda assim, a água é escassa e não supre as necessidades que se apresentam no dia a dia do lar. “Eu não lavo roupa aqui. Tenho que juntar e levar para lavar na casa da minha mãe, o que é um transtorno”. 

Exploração da reserva subterrânea se intensificou nos anos 1970  

Sem água nas torneiras e sem previsão a curto prazo para ser contemplada com o abastecimento de responsabilidade do poder público, a população recorre a perfurações de poços para obter o líquido e acaba agravando o problema da extração acima da capacidade do lençol freático. Mas a história foi iniciada pelo poder público há algumas décadas. 

O superintendente de Recursos Hídricos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), Gustavo Carvalho, remete aos anos 1970 para tentar explicar a “cultura” do uso do lençol freático por meio de perfuração de poços para garantir o abastecimento de água na capital.  

“Em Maceió havia a utilização de água do manancial do Riacho do Silva, lá em Bebedouro. Aí começou a haver colapso no abastecimento. Quando chegou na década de 1970, viu-se que seria viável do ponto vista econômico perfurar poço. A partir de então ficou ‘instituída’ a utilização de água subterrânea para o abastecimento de Maceió”, explica Carvalho, em entrevista ao TNH1. 

Pelo menos 2 mil poços exploram manancial 

Além dos 170 poços operados pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), segundo dados oficiais da Semarh, mais 2 mil poços espalhados por várias regiões de Maceió exploram acima de sua capacidade o manancial de águas de subsolo que seria a reserva estratégica da capital. Esse número pode ser ainda maior por causa das perfurações clandestinas sobre as quais a Semarh e os órgão de fiscalização não têm controle. 


“Diante da dificuldade de se prover atendimento de abastecimento de água, então o cara vai lá e fura um poço. Alguns até de maneira justificada, outros de maneira escusa, porque muitos querem deixar de usufruir do abastecimento da Casal porque paga mais. Aí vai usar um bem, que é água subterrânea, de uso da coletividade, só para ele. Esse é um dilema grande em relação à gestão desse manancial de reservação”, diz Carvalho. 

Segundo Carvalho, o problema não é só em Maceió. “Há um consumo muito grande de água subterrânea no Estado. Tanto na área Metropolitana de Maceió como na área de Arapiraca”, calcula. 

O crescimento da população provocou também o aumento do consumo de água. A aceleração do consumo significa perfuração de poços e mais agressão e extração indevida do nosso manancial estratégico. 

“Eu diria que o nosso manancial subterrâneo está em risco. Se temos um manancial que está com muita utilização, então ele está em risco. Se esse manancial, na minha opinião como técnico, deveria ser uma reserva e está sendo muito utilizado, então ele está em risco”, alerta o superintendente. 

Por outro lado, segundo Gustavo Carvalho, é preciso garantir o abastecimento para a população, que não pode ser penalizada. Essa é a preocupação constante da secretaria e o dilema do governo: garantir o abastecimento sem degradar ainda mais sua reserva estratégica de água, assegura.  

“Tem sido uma preocupação constante para nós, o que nos impôs tomar medidas e traçar algumas ações de gestão”, explica Carvalho. Segundo ele, a Semarh já possui um levantamento da quantidade de poços na capital. 

“Nós temos dados aqui que já nos permitem dizer as regiões da cidade onde pode e onde não pode perfurar poços”, afirma o superintendente. 

Para ele, o correto seria garantir o abastecimento da maioria da população por meio de captação do manancial de superfície, das águas dos nossos rios. “Em termos de engenharia, nós temos que utilizar águas dos rios. É a água que já passou pela insurgência do lençol, e deixar a água subterrânea como reserva. Por isso é considerado uma reserva”, diz, ao se referir ao projeto Meirim/Pratagy, por meio do qual o governo do estado e a Casal pretendem resolver o problema do abastecimento na capital.

Pesquisadora cita ameaças aos aquíferos e diz que extrações devem ser reguladas

Responsável pela formação em hidrologia e águas subterrâneas dos futuros engenheiros civis e ambientais que passam pelas bancas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a professora e pesquisadora Cleuda Custódio Freire cita a quantidade exagerada de extração de água como uma das ameaças que rondam a reserva estratégica de águas subterrâneas de Maceió.


Professora e pesquisadora Cleuda Custódio Freire

“Nosso lençol freático está sendo fortemente utilizado, tanto pela Companhia de Abastecimento [Casal], que usa cerca de 68% do abastecimento proveniente desse aquífero como por poços particulares. Essa extração aumenta à medida que a população vai crescendo”, explica a  professora Cleuda, cuja dissertação de mestrado e tese de doutorado tiveram como tema os recursos hídricos.

Ela considera acima dos níveis aceitáveis o percentual de utilização do que representa a reserva estratégica de água de Maceió.  “É considerado alto para uma região que tem muitos mananciais de superfície, que poderiam estar sendo usados”, diz a pesquisadora ao se referir aos rios situados dentro dos limites da cidade.

Os mananciais superficiais, no caso os rios, se renovam com uma facilidade maior porque recebem as águas direto em suas calhas, diz a pesquisadora. “Já os aquíferos têm que ter um processo de recarga, proveniente de infiltração, de percolação, até que essas águas sejam armazenadas no subsolo. Esse trânsito é muito mais lento do que o das águas superficiais”, explica.



Além da extração em grande quantidade, a pesquisadora cita outras ameaças diretas à qualidade da água que está guardada no subsolo de Maceió. “Na verdade, todos os usos do solo que nós fazemos, tanto na parte baixa da cidade, quanto na parte alta da cidade, podem vir a afetar os aquíferos”, diz.

Postos de combustíveis e cemitérios são ameaças

Caso não sejam fiscalizados e não operem dentro dos padrões mínimos de manejo, os postos de combustíveis e os cemitérios podem comprometer a qualidade da água dos nossos aquíferos e contaminar o nosso manancial subterrâneo.

“Nós temos postos de Gasolina, que dependendo da situação em que se encontrem os seus reservatórios de combustíveis, eles são potenciais contaminantes. Se não estiverem  bem impermeabilizados, bem mantidos e bem operados, eles oferecem riscos”, afirma. “Nos cemitérios, o problema é o necrochorume. É preciso que o manejo, tanto com o combustível nos postos, quanto com os corpos nos cemitérios seja feito de maneira correta”, explica Cleuda.

A expansão imobiliária, principalmente no Tabuleiro do Martins, considerada área de recarga dos aquíferos é outro fantasma que assombra a saúde de nossas águas subterrâneas. “A impermeabilização do solo é um problema. Ela pode ser causada também pela expansão imobiliária, desde que as edificações não permitam a entrada de água no subsolo". 

"Por exemplo", continua a pesquisadora, "quando se constrói uma área de estacionamento toda com asfalto e material impermeável, ela será uma área que vai dificultar e até impedir a entrada de água no aquífero. Aí perde-se uma área de recarga. Seria menos uma porção de água que estaria abastecendo nossa reserva estratégica.”, explica Cleuda Freire.

Somam-se aos fatores citados acima o lançamento de esgoto e o uso de pesticidas e herbicidas por agricultores da zona rural da capital.

Para ela, a nossa reserva estratégica de água deve ser preservada e uma das primeiras medidas seria limitar as extrações à capacidade de recarga dos aquíferos. “O Estado é que tem o domínio das águas e a ele cabe fazer essa gestão. Ele tem que conhecer qual a capacidade de recarga dos aquíferos, para que essas permissões de retiradas, essas outorgas, a observem para que não ocorra um déficit na entrada e saída de água”, afirma a pesquisadora.

“É preciso que se tome medidas de controle, de monitoramento e de gestão dos aquíferos. São ações que irão garantir que a gente não prejudique os aquíferos e  mantenha uma condição de uso em termos de qualidadee quantidade para as gerações futuras”, finaliza a professora Cleuda Custódio Freire.

A ameaça do ‘sal’ na nossa reserva de água subterrânea

Além de todas as ameaças urbanas sobre os aquíferos, há também o fato de que Maceió é uma cidade costeira, banhada pelas águas do Atlântico. A extração demasiada de água do subsolo pode provocar a entrada de água salgada no manancial, como é conhecida a intrusão marinha.

De acordo com a pesquisadora e professora da Ufal, Cleuda Freire, a "cunha salina" seria uma ‘linha’ de transição entre a água doce, que está no continente, e água salgada do mar. Assim como na superfície, em uma foz de rio, isso ocorre também no subsolo.

“É como se tivéssemos pressões dos dois lados. São forças atuando do continente para o mar e do mar para o continente. Imagine se essa água doce reduz a força que ela tem para se manter naquela região, equilibrando e segurando a entrada de água salgada. Se essa carga é reduzida pela sobrexplotação, vai haver o recuo da água doce do continente e o avanço dessa água salgada para o continente, o que pode fazer com que nós comecemos a encontrar água salgada, principalmente, na costa”.

Dentro dos conceitos das geociências, o termo explotação significa a retirada, extração ou obtenção de recursos naturais, geralmente não renováveis, para fins de aproveitamento econômico.  A sobrexplotação, termo usado pela professora Cleuda Freire, seria a explotação excessiva, não-sustentável, o que traria consequências negativas para o recurso natural explorado e para a população.

Há algumas décadas, vários poços da Casal foram tamponados e desativados porque estavam apresentando água com alto teor de sal. Atualmente a professora Cleuda Freire realiza pesquisas para tentar identificar essa situação, mas ainda não há resultados conclusivos.

“Nós ainda não identificamos poços com água salgada por intrusão marinha. Temos poços que apresentam uma condição de água salgada, mas que pode ser proveniente de outras fontes, por exemplo, de esgoto sanitário. Mas não podemos afirmar se é intrusão salina ou não”, diz a professora. 

Sem poder de investimento, Casal deixa de atender a cerca de 250 mil pessoas .

O crescimento da população e a falta de investimentos ao longo dos anos, além de outros fatores, limitaram o abastecimento d’água da Companhia de Abastecimento de Alagoas (Casal) a apenas 75% da população de Maceió. Isso significa que cerca de 250 mil maceioenses dependem da água de poços de terceiros e de sistemas de abastecimentos pelos próprios moradores, vivendo a beira de um colapso se passassem a depender do fornecimento exclusivo da Companhia.

Desses 75% cobertos pela Casal, 40% da população são atendidos com água do sistema Pratagy,  15% recebem água do sistema Catolé/Cardoso, o mais antigo de Maceió, é 5% recebem águas de superfície do Sistema Aviação, construído para aproveitar as ‘sobras” do Catolé/Cardoso.

O restante da população atendida pela Casal é abastecida pelos mais de 170 poços perfurados pela companhia, segundo os números oficiais. O que significa dizer que atualmente a reserva estratégica de água da cidade de Maceió é responsável oficialmente por 40% do abastecimento da capital, além da extração que é feita pelos 250 mil maceioenses que estão fora do alcance da rede da Companhia.


“É um percentual muito elevado para o uso do lençol freático”, reconhece o presidente da Casal, Clécio Falcão. “Nossa intenção é reduzir esse percentual  de uso dos aquíferos para 20%, baixar de 170 para 70 poços, e chegar a 100% de cobertura do atendimento de Maceió. Para isso já há uma obra em curso que vai nos permitir ampliar essa oferta de água na capital, que é o Sistema Meirin/Pratagy”, diz Clécio Falcão.

Sistema Catolé/Cardoso, o mais antigo de Maceió

O novo sistema anunciado pelo presidente da Casal é uma obra com captação superficial do Rio Meirim cuja água vai ser aduzida para o sistema Pratagy, no Benedito Bentes.

Até que a obra fique pronta, o abastecimento vai seguir com deficiência principalmente para algumas área da capital, a exemplo da parte alta, chamada de região de expansão, onde estão localidades como Acauã, Graciliano Ramos, Cidade Universitária, Village Campestre, além dos bairros do Litoral Norte, outra região que sofre com falta de água.

Croqui do sistema de abastecimento de Maceió

“Com o tempo a cidade foi crescendo e não ocorreram ao longo dos anos os investimentos necessários em sistemas de abastecimento. Com essa falta de investimento, o que acontece é que a população cresce numa rapidez maior do que a capacidade das companhias de saneamento e do Estado darem a resposta. Termina que fica uma parcela da população não sendo atendida e ficam realmente dando soluções paliativas, como a construção de poços rasos”, explica Clécio Falcão.

Segundo ele, além das extrações, uma grande parcela da população usa o sistema de fossas e sumidouros, que pode comprometer o lençol freático. “Em termos de esgotamento sanitário, o problema é mais grave ainda. A Casal só atende a cerca de 35% da população de Maceió. Por isso o governo do Estado lançou em

outubro do ano passado Programa Estadual de Esgotamento Sanitário que visa realmente recuperar esse déficit imenso”, destaca o presidente da Casal.

Casal anuncia investimentos

Segundo ele, a Casal deve investir em parcerias com a iniciativa privada para tentar recuperar o tempo perdido e fazer os investimentos  necessários. Além do novo sistema Meirim/Pratagy, com investimento de  R$ 120 milhões, a Casal anuncia também duas grandes obras de esgotamento sanitário, uma no bairro do Farol e outra no Benedito Bentes. 

“Nós estamos iniciando as obras de esgotamento sanitário do Farol e de todos aqueles bairros do entorno, que deve ficar em torno de R$ 150 milhões, através de um contrato de locação de ativos, que não é nada mais do que a iniciativa privada fazer a obra e receber em longo prazo. A empresa faz com o dinheiro dela e locando ao Estado, e depois de 30 anos passa a ser do estado”. Explica Clécio Falcão.

Já a obra do Bendito Bentes será executada por meio de uma parceria público privada (PPP) e deve custar algo em torno de  R$ 200 milhões. “A diferença da parceria público privada para a locação de ativos é que, na parceria público privada a empresa faz a obra e permanece presente fazendo também a parte comercial”, disse Clécio Falcão.