O Instagram desativou a criptografia de ponta a ponta, permitindo que a Meta acesse o conteúdo das mensagens diretas, o que representa uma mudança significativa na política de privacidade da empresa e gera preocupações sobre a segurança dos usuários.
A decisão foi celebrada por grupos de proteção à infância, que argumentam que a criptografia anterior facilitava crimes, mas criticada por defensores da privacidade, que veem isso como um retrocesso na proteção de dados pessoais.
A Meta não anunciou oficialmente a remoção da criptografia, mas alegou que a baixa adesão ao recurso foi um fator decisivo, enquanto analistas sugerem que a mudança reflete uma nova estratégia da empresa em relação à monetização de dados e inteligência artificial.
A rede social Instagram desativou o recurso que permitia aos usuários enviar mensagens com alto nível de privacidade. A partir desta sexta-feira (8), o Instagram poderá acessar todo o conteúdo das mensagens diretas, incluindo imagens, vídeos e mensagens de voz.
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A remoção da chamada criptografia de ponta a ponta (E2EE, na sigla em inglês), em que somente o remetente e o destinatário podem ver o conteúdo, representa uma grande guinada da Meta, empresa responsável pelo Instagram.
A criptografia de ponta a ponta é considerada por especialistas a forma mais segura de troca de mensagens na internet.
Mas esse tipo de criptografia enfrenta há muito tempo a oposição de grupos que afirmam que ela facilita a disseminação de conteúdo considerado extremo (incluindo crimes) sem que autoridades consigam agir.
Por isso, a decisão da Meta de remover esse tipo de criptografia de ponta a ponta do Instagram foi comemorada por grupos como organizações de proteção à infância, mas condenada por defensores da privacidade.
A Sociedade Nacional de Proteção de Crianças Contra Crueldade (NSPCC, na sigla em inglês), uma das principais organizações sem fins lucrativos do Reino Unido, alerta há anos que a criptografia de ponta a ponta poderia expor crianças a riscos.
"Estamos realmente satisfeitos", disse Rani Govender, do NSPCC, acrescentando que a criptografia de ponta a ponta "pode permitir que autores de crimes deixem de ser detectados, o que faz com que o aliciamento e o abuso infantil passem despercebidos".
Por outro lado, defensores da privacidade afirmam que a medida representa um retrocesso.
Maya Thomas, da Big Brother Watch, ONG britânica de defesa da privacidade e dos direitos civis, disse estar "decepcionada" com a decisão e afirmou que a criptografia de ponta a ponta era "uma das principais formas de crianças protegerem seus dados na internet". Thomas acrescenta haver preocupação de que a Meta esteja cedendo à pressão de governos.
Antes, a Meta defendia a criptografia de ponta a ponta como o modelo mais seguro de privacidade para os usuários. Em 2019, a Meta prometeu implementar a tecnologia nas plataformas de mensagens do Facebook e do Instagram, afirmando que "o futuro é privado".
A empresa concluiu a implementação dessa criptografia no Facebook Messenger em 2023 e depois tornou o recurso opcional no Instagram, com planos de torná-lo padrão.
Mas, após sete anos, a Meta desistiu de ampliar o recurso no Instagram, que agora oferece apenas criptografia padrão.
Na criptografia padrão, que substituiu a criptografia de ponta a ponta, um provedor de serviços de internet pode acessar conteúdo privado, se necessário. Esse é o sistema mais comum nos principais serviços online, como o Gmail, do Google.
Por que a Meta desativou a criptografia de ponta a ponta?
Desde 2019, a Meta defendia seus planos de ampliar a criptografia de ponta a ponta, enquanto tentava superar os desafios técnicos para levar a tecnologia ao Facebook e ao Instagram.
A empresa não anunciou publicamente a decisão de abandonar a implementação da ferramenta no Instagram.
Em vez disso, atualizou discretamente os termos e condições do aplicativo em março.
"As mensagens com criptografia de ponta a ponta no Instagram deixarão de ser compatíveis após 8 de maio de 2026. Se você tiver conversas afetadas por essa mudança, verá instruções sobre como baixar mídias ou mensagens que deseje guardar", informou a empresa.
A Meta disse a jornalistas que a decisão foi tomada porque poucos usuários aderiram ao recurso.
Mas especialistas afirmam que as ferramentas opcionais costumam ter baixa adesão, já que exigir que usuários ativem um recurso manualmente cria etapas extras no uso da plataforma.
Alguns analistas, entre eles a especialista em cibersegurança Victoria Baines, acreditam que a decisão reflete uma mudança na postura da Meta em relação à privacidade.
"As plataformas de redes sociais monetizam nossas comunicações, publicações, curtidas e mensagens, para direcionar publicidade segmentada", afirmou.
"E, cada vez mais, empresas como a Meta estão se concentrando no treinamento de modelos de inteligência artificial [IA], para os quais os dados de mensagens podem ser extremamente valiosos. Acho que a decisão é mais complexa."
O Instagram já afirmou anteriormente que mensagens diretas não são usadas para treinar sistemas de IA.
A empresa se recusou a comentar mais detalhadamente a decisão de recuar na política de privacidade, e o chefe do Instagram, Adam Mosseri, recusou pedidos de entrevista.
No mês passado, a Meta informou aos funcionários que cliques e atividades em dispositivos de trabalho passariam a ser coletados como dados de treinamento para os modelos de IA da empresa.
Grupos como a ONG Big Brother Watch afirmam que a decisão da Meta pode influenciar toda a indústria de redes sociais.
Até recentemente, a expansão da criptografia de ponta a ponta era vista como a direção natural do setor.
O TikTok disse à BBC em março que não tinha planos de implementar a tecnologia em mensagens diretas.
Analistas, entre eles a especialista em cibersegurança Baines, acreditam que essas decisões podem desacelerar a disseminação da criptografia de ponta a ponta, fazendo com que ela fique restrita, no futuro, principalmente a aplicativos dedicados a mensagens.
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