Brasil

A rota do poder que levou ex-senador de vendedor de carro a candidato ao TCU

12/04/16 - 11h53 - Atualizado em 12/04/16 - 12h00

De vendedor de carros e imóveis, criado em uma cidade satélite do Distrito Federal, a influente senador da República até 2014. Marcada por suspeitas de irregularidades, encrencas no Judiciário e pela bênção do clã Roriz, a trajetória de Gim Argello (PTB-DF),  preso nesta terça-feira em nova fase da Operação Lava-Jato, revela um político hábil, que abriu espaço entre os caciques do Senado e se configurou em importante articulador da base da presidente Dilma Rousseff em seu primeiro mandato. 

A gratidão do Palácio do Planalto quase rendeu uma vaga para Gim no Tribunal de Contas da União (TCU), porém, a escolha ficou com o também ex-senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). Derrotado na tentativa de reeleição em 2014, o petebista receberia a gratidão do Palácio do Planalto na forma de uma vaga para Gim no Tribunal de Contas da União (PTB), porém, a escolha ficou com o também ex-senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). Pesaram os protestos internos de ministros e servidores do TCU, incomodados pela companhia de um político condenado a devolver dinheiro por irregularidades do período em que presidiu a Câmara Legislativa do DF – 2001 e 2002. 

Jorge Afonso Argello, 54 anos, soube se aproximar de pessoas poderosas. Em Brasília, tem boa relação com Joaquim Roriz, José Roberto Arruda e Luiz Estavão, nomes que dominaram o cenário local e que tiveram problemas com a Justiça, fato que aproxima o ex-senador dos amigos. Alvo de inquéritos, além das investigações na Lava-Jato, o petebista encarou suspeitas de ter beneficiado empresas de fachada com recursos públicos. Em uma CPI sobre grilagem, realizada na Câmara do DF, foi acusado, em conversa gravada de dois deputados, de ter recebido 300 lotes de terra para trabalhar pela regularização de um condomínio. A suspeita não avançou. 

Natural de São Vicente (SP), Gim chegou na infância ao Distrito Federal. Cresceu em Taguatinga, cidade satélite da Capital Federal, viu o pai deixar a família e teve de cuidar do próprio sustento. Tornou-se célebre em Brasília o relato de que o político, ainda jovem, vendia carros, quando recebeu um cliente ilustre, o então ministro do Interior, Mario Andreazza. O vendedor ficou próximo do ministro, que encaminhou sua entrada no PFL. Mais tarde, Gim formou-se em Direito e se tornou empresário, tendo atuado como corretor de imóveis. Deputado distrital em 1998 e 2002, passou pelo PMDB e, em 2005, ingressou no PTB.  

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Em 2006, concorreu como suplente ao Senado na chapa de Joaquim Roriz. Ex-governador do DF, Roriz renunciou à cadeira em 2007, abatido pela repercussão de uma gravação telefônica em que ele discutia a partilha de um cheque de R$ 2,3 milhões, num escândalo envolvendo o BRB.  À época da posse, Gim respondia a, pelo menos, seis processos ou inquéritos civis e criminais. 

A fama de bom articulador que Gim trouxe da Câmara Legislativa se confirmou no Senado ainda no governo Lula. Em pouco tempo, ganhou a confiança de Fernando Collor (AL), seu colega de bancada. Atuou em favor das vitórias de José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidência do Senado. Com a vitória de Dilma em 2010, ampliou a relevância na Casa. 

Aos amigos, Gim gostava de contar que conheceu Dilma, por acaso, quando a presidente ainda era ministra da Casa Civil. O petebista trocou Taguatinga pelo Lago Sul, área nobre de Brasília, onde fica a residência da Casa Civil. Gim e Dilma se cruzavam em caminhadas. O interesse do petebista em cargos e negócios, garantiu adesão à base de Dilma e a fidelidade ao longo do primeiro mandato. Em 2014, as costuras da política local afastaram Gim do PT.

Obediente a Roriz, o petebista ficou na trincheira oposta à do então governador Agnelo Queiroz. Gim tentou a reeleição na chapa que iniciou com José Roberto Arruda, apoiada por Roriz. Contudo, o petebista foi derrotado por José Reguffe. Em 2014, ele declarou patrimônio de R$ 4,5 milhões à Justiça Eleitoral. 

A nova fase da Lava Jato, deflagrada nesta terça-feira e batizada de Vitória de Pirro, apura indícios de que "destacado integrante" da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada no Senado Federal e também da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instaurada no Congresso, ambas com o objetivo de apurar irregularidades no âmbito da Petrobras. 

Vice-presidente da CPI de 2014, Gim teria atuado de forma incisiva no sentido de evitar a convocação de empreiteiros para prestarem depoimento, mediante a cobrança de pagamentos indevidos travestidos de doações eleitorais oficiais em favor dos partidos de sua base de sustentação.  As duas CPIs foram criadas após o jornal O Estado de S. Paulo revelar que a presidente Dilma Rousseff votou a favor da compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), quando presidente do conselho de administração da Petrobras. O negócio é considerado um dos piores da história da empresa. 

Em depoimento de delação premiada, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) afirmou que integrantes da CPI mista da Petrobrás, encerrada em 2014, recebiam propina em dinheiro vivo para evitar a convocação de empreiteiros investigados na Lava-Jato. 

O senador citou Gim Argello (PTB-DF), então vice-presidente da comissão, como integrante do núcleo responsável pelo achaque. Delcídio contou que reuniões semanais eram feitas entre os congressistas e os executivos para discutir requerimentos "sensíveis" da CPI e a estratégia para derrubá-los. Os encontros ocorreriam nas noites de segunda-feira, alguns na casa de Gim. O petebista seria o coordenador do grupo que pedia dinheiro a empreiteiros. O diretor financeiro da UTC Engenharia, Walmir Santana, outro delator da Lava-Jato, afirmou que Gim Argello atuaria para que o empreiteiro Ricardo Pessoa não fosse chamado a depor na CPMI da Petrobras em 2014. Em contrapartida, Ricardo Pessoa faria contribuições em favor de pessoas indicadas por Gim Argello. 

O nome de Argello apareceu também na delação premiada do empreiteiro da UTC, Ricardo Pessoa, da UTC, como beneficiário de mais de R$ 4 milhões, dos cerca de R$ 8 milhões doados pelas empreiteiras investigadas às campanhas de políticos da Capital Federal, para abafar apuração da CPMI. Na nova etapa da Lava-Jato deflagrada nesta terça, a 28ª, Gim Argello foi preso preventivamente. Endereços do ex-parlamentar foram revistados e dois assessores que trabalharam com ele também foram alvos da operação.

A nova fase da Lava-Jato, deflagrada nesta terça-feira e batizada de Vitória de Pirro, apura indícios de que "destacado integrante" da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada no Senado Federal e também da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), instaurada no Congresso Nacional, ambas com o objetivo de apurar irregularidades no âmbito da Petrobras, em 2014, teria atuado de forma incisiva no sentido de evitar a convocação de empreiteiros para prestarem depoimento, mediante a cobrança de pagamentos indevidos travestidos de doações eleitorais oficiais em favor dos partidos de sua base de sustentação. 

O ex-senador Gim Argello (PTB) era o vice-presidente da CPMI, por indicação da base do governo no Senado. E participou também da CPI exclusiva do Senado. As duas CPIs foram criadas após o jornal O Estado de S. Paulo revelar que a presidente Dilma Rousseff votou a favor da compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), quando presidente do conselho de administração da Petrobras. O negócio é considerado um dos piores da história da empresa.

Em depoimento de delação premiada, o senador Delcídio Amaral (sem partido-MS) afirmou que integrantes da CPI mista da Petrobrás, encerrada em 2014, recebiam propina em dinheiro vivo para evitar a convocação de empreiteiros investigados na Lava Jato. O senador citou Argello, então vice-presidente da comissão, como integrante do núcleo responsável pelo achaque.

Delcídio contou que reuniões semanais eram feitas entre os congressistas e os executivos para discutir requerimentos "sensíveis" da CPI e a estratégia para derrubá-los. Os encontros ocorreriam nas noites de segunda-feira, alguns na casa de Gim. O petebista seria o coordenador do grupo que pedia dinheiro a empreiteiros.

O diretor financeiro da UTC Engenharia, Walmir Santana, outro delator da Lava-Jato, afirmou que Argello atuaria para que o empreiteiro Ricardo Pessoa não fosse chamado a depor na CPMI da Petrobras em 2014. Em contrapartida, Ricardo Pessoa faria contribuições em favor de pessoas indicadas por Gim Argello.

O nome do ex-senador apareceu também na delação premiada do empreiteiro da UTC, Ricardo Pessoa, da UTC, como beneficiário de mais de R$ 4 milhões, dos cerca de R$ 8 milhões doados pelas empreiteiras investigadas às campanhas de políticos da Capital Federal, para abafar apuração da CPMI. Na nova etapa da Lava-Jato deflagrada nesta terça, a 28ª, Gim Argello foi preso preventivamente. Endereços do ex-parlamentar foram revistados e dois assessores que trabalharam com ele também foram alvos da operação.