Afinal, Santos Dumont inventou mesmo o avião? Entenda

Publicado em 13/07/2026, às 20h41
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Por Galileu

A disputa pelo título de 'pai da aviação' envolve figuras como os irmãos Wright, considerados pioneiros nos EUA, e Santos Dumont, visto como o verdadeiro inovador no Brasil, devido a seus voos públicos e reconhecidos na Europa.

Os irmãos Wright realizaram seu primeiro voo motorizado em 1903, mas enfrentaram ceticismo na época, enquanto Santos Dumont fez seu voo público em 1906, ganhando notoriedade e prêmios na França, o que solidificou sua reputação.

Ambos os lados da disputa apresentam argumentos válidos, com os Wright defendendo a importância de seus registros e inovações, enquanto Dumont enfatiza a relevância de seus voos públicos e a falta de reconhecimento inicial dos feitos dos irmãos Wright.

Resumo gerado por IA

Você pode não saber, mas a ideia de quem é considerado o “pai” da aviação varia bastante dependendo do país – e dos critérios usados. Na Rússia, por exemplo, costuma-se citar Alexander Mozhaysky, que fez experimentos com uma aeronave motorizada por volta de 1885 (embora seus resultados sejam controversos). Na Nova Zelândia, há quem atribua o pioneirismo a Richard Pearse, que teria realizado testes com um avião entre 1902 e 1904 (também sem consenso histórico definitivo).

Na Austrália, o nome frequentemente lembrado é o de Lawrence Hargrave, que, em 1894, testou máquinas com um assento preso a um conjunto de pipas, contribuindo para o desenvolvimento da aerodinâmica. E por aí vai…

Porém, em todo o mundo, o consenso mais aceito é de que foram os irmãos Wilbur e Orville Wright os pais da aviação — é o que consta na Enciclopédia Britannica, por exemplo. Para os brasileiros, porém, a história é bem diferente: Santos Dumont, natural do interior de Minas Gerais, é considerado por muitos o verdadeiro pioneiro da área e o primeiro a realmente realizar um voo motorizado de uma aeronave mais pesada que o ar.

Mas quem está certo, afinal? É difícil dizer.

Os irmãos Wright

Wilbur e Orville Wright inauguraram uma loja de bicicletas em 1892 onde, ao longo dos anos, foram adquirindo experiência em lidar com máquinas de madeira e peças de metal. Curiosos pela ideia da aviação, leram livros sobre o assunto e começaram a imaginar seu próprio avião. No fim do século, já estavam desenhando protótipos de planadores para alcançar seus objetivos.

Para os Irmãos Wright, um avião precisava ser auto-propelido e capaz de ser controlado pelo piloto, além de conseguir planar no ar. Eles se colocaram, portanto, a criar uma aeronave que fizesse isso. Buscando um lugar ideal para fazer os testes, os dois se mudaram para a cidade de Kitty Hawk, na Carolina do Norte, onde os ventos fortes eram favoráveis aos experimentos, assim como as dunas que ajudavam a decolar e a areia que amaciava o pouso.

Os testes começaram em 1900. Ao longo dos anos, foram centenas de planadores (aeronaves sem motor) lançados nos céus de Kitty Hawk enquanto os irmãos coletavam dados buscando o melhor desenho possível para sua futura aeronave.

Em setembro de 1903, eles finalmente entraram na fase final da construção de sua aeronave motorizada, o Flyer I. O voo inaugural aconteceu em 17 de dezembro de 1903, quando Orville cruzou o ar ao longo de 36 metros por 12 segundos. Houve outras tentativas bem-sucedidas no mesmo dia, sendo que a última resultou em um voo de 259 metros em 59 segundos. Por esse feito, os EUA consideram os Irmãos Wright os pais da aviação.

Santos Dumont

Filho de um fazendeiro de café, Santos Dumont foi estudar na França e voltou fascinado com o campo da aviação, que fervilhava entre entusiastas na Europa, os quais se reuniam em associações como o Aéro-club de France. Inicialmente, Dumont foi piloto de balões, mas, em 1898, começou a fazer testes com aeronaves. Em 1903, ele passou a testar especificamente naves mais pesadas que o ar (aeródinos, em oposição às mais leves que o ar, como os balões, chamadas de aeróstatos).

Dumont tinha uma obsessão: ele queria ganhar o Coupe d'Aviation Ernest Archdeacon, uma competição criada pelo Aéro-club de France para celebrar o primeiro voo motorizado de um avião mais pesado que o ar. Isso foi em 1903 e, apesar dos rumores de que os irmãos Wright tinham voado um avião na América no final daquele mesmo ano, nenhuma evidência pública desse resultado era conhecida ou aceita pela maioria dos entusiastas da aviação na Europa.

Após muitos protótipos, Dumont chegou ao 14-Bis: no dia 23 de outubro de 1906, realizou seu primeiro voo público em Bagatelle, bairro de Paris. Foi o primeiro voo amplamente testemunhado e registrado na Europa de um avião motorizado. Em 12 de novembro de 1906, Dumont voou novamente por cerca de 220 metros diante de uma comissão oficial.

Com o modelo 14-bis, Santos-Dumont ganhou o prêmio Archdeacon duas vezes, por esses dois feitos. E assim ele se tornou, pelo menos para os brasileiros, o pai da aviação.

Contra os Wright

Existem várias críticas ao voo dos Irmãos Wright que não são “clubistas”.

Uma das testemunhas do voo foi Alpheus Drinkwater, correspondente do jornal The Associated Press. Em uma entrevista ao The New York Times em 1951, quase 48 anos após o evento, Drinkwater disse que os Wright apenas “glided” (planaram) e que o primeiro voo real teria ocorrido em 1908. É uma crítica forte, mas não desmonta sozinha a narrativa pró-Wright, afinal Drinkwater, leigo no assunto, pode ter apenas percebido o voo como uma planagem.

Uma das maiores provas do feito dos Wright foi a foto tirada por John T. Daniels, uma das testemunhas. Mas ela só foi publicada em 1908, cinco anos depois, na Century Magazine. A história oficial é que foi revelada pelos Wright em 1903, mas resguardada para evitar cópia de design ou roubo de patente.

O voo dos Wright não repercutiu muito na época. Em 1905, a revista Scientific American publicou um artigo demonstrando ceticismo e fazendo pouco do repórter que lhe trouxe a história: “Se experimentos tão sensacionais e extremamente importantes estão sendo conduzidos em uma região não muito remota do país, sobre um assunto que desperta profundo interesse em quase todos, é possível acreditar que o empreendedor repórter americano, que, como se sabe, desce pela chaminé quando a porta está trancada na sua cara… não teria apurado tudo sobre eles e publicado… há muito tempo?”.

Em novembro de 1906, os irmãos Wright, ao saberem do feito de Santos Dumont, escreveram uma carta ao capitão Ferdinand Ferber (aeronauta francês). O texto é curioso, leia abaixo:

“Meu irmão e eu tomamos conhecimento, por uma correspondência de Paris publicada no ‘New York Herald’, que o público francês apreciou grandemente um voo de 220 metros em linha reta de Santos Dumont, num aeroplano construído por eles. Ficaríamos muito satisfeitos de conhecer notícias exatas sobre essas experiências de Bagatelle, e estamos certos de que fará para nós um relatório fiel dos ensaios e uma descrição de uma máquina voadora, acompanhada de um esquema. Já tivemos a oportunidade de ver, numa gravura do ‘New York Herald’, que o aeroplano repousa na terra sobre três rodas, e deduzimos então que necessário se faz, a Santos Dumont, uma corrida prévia para decolagem, isto realizado sobre um campo extenso e bem uniforme. Com a catapulta de lançamentos que entregamos, Orville e eu saltamos diretamente no ar, com a velocidade adequada, de uma forma mais prática. [...] se técnicos franceses, escolhidos por vós, desejarem vir a Dayton, para eles faríamos a exibição da máquina no campo vizinho, com um voo de cinco minutos.”

A carta levanta algumas perguntas. Se os Wright já tinham uma máquina capaz de voar sem catapulta há três anos, por que pediam uma descrição do avião de Dumont, “acompanhada de um esquema”? E por que diziam que poderiam demonstrar a catapulta aos técnicos franceses, se já tinham uma tecnologia melhor?

Quando os Wright fizeram sua primeira exibição pública em 1908, na França, utilizaram a máquina com catapulta. É possível que, pressionados para não falhar, eles tenham optado pela tecnologia mais segura, uma vez que os ventos de Paris não eram tão potentes como os de Kitty Hawk. Mas, ainda assim, pode parecer historicamente suspeito.

Em 1948, o Instituto Smithsonian assinou um contrato com os herdeiros dos Wright para receber o Flyer I. Uma cláusula frequentemente citada diz, em essência, que o museu não deveria exibir outra máquina como a primeira aeronave motorizada capaz de voo controlado. Críticos argumentam: isso institucionalizou uma posição histórica oficial antes de encerrar o debate.

A favor dos Wright

Embora o voo dos Wright não tenha sido uma exibição pública, como o de Dumont, também não foi um evento isolado. Houve testemunhas, como os membros da equipe de resgate da estação de salva-vidas de Kitty Hawk.

Os Wright mantinham registros extensos e detalhados sobre suas ideias, seus protótipos e seu progresso. Existe um telegrama de dezembro de 1903 que os dois fizeram a seu pai, Milton, onde relatam os quatro voos daquele dia (disponível online).

E a tal da catapulta?

Uma das críticas mais comuns aos Wright é a ideia de que seus aviões dependiam de catapultas para voar. Na prática, o sistema de lançamento variou ao longo do tempo e não foi usado de forma uniforme em todas as aeronaves. O Flyer I, de 1903, decolava a partir de um trilho reto de madeira, que servia principalmente para guiar e estabilizar a aceleração inicial até ganhar sustentação — não havia uma catapulta como em modelos posteriores.

Já nas versões seguintes, especialmente a partir dos testes mais avançados, os Wright passaram a empregar também sistemas auxiliares de lançamento, incluindo catapultas acionadas por pesos, com o objetivo de garantir velocidade de decolagem em diferentes condições de vento e terreno.

Como mencionamos, nas primeiras demonstrações públicas amplamente reconhecidas, em 1908 na França, os Wright utilizaram esses sistemas auxiliares (ou catapultas). Essas demonstrações ajudam a explicar por que a imagem de “aviões catapultados” acabou se associando a eles, mesmo que a realidade técnica tivesse mais nuances.

E Dumont?

O maior trunfo de Santos Dumont foi que seu voo foi público, no campo de Bagatelle, presenciado pelos civis e por oficiais do Aéro-club de France e legitimado de acordo com os critérios da época para voo motorizado de uma aeronave mais pesada que o ar, sem auxílio de catapultas ou trilhos. Todos os presentes puderam observar a decolagem da aeronave, o voo sustentado e o pouso por seus próprios meios.

Não há forma definitiva de estabelecer que os voos dos Wright em 1903 não atendiam aos critérios. O argumento mais forte — de que o fato de esses voos, por serem mais reservados, talvez não obedecessem aos critérios técnicos e utilizassem catapulta — é, no melhor dos casos, uma especulação. A dúvida sempre vai existir.

Talvez valha citar, entretanto, a opinião do próprio Dumont a respeito. Em seu livro autobiográfico O Que Eu Vi, O Que Nós Veremos, de 1918, o inventor refletiu sobre o assunto:

“Eu não quero tirar em nada o mérito dos irmãos Wright, por quem tenho a maior admiração; mas é inegável que, só depois de nós, se apresentaram eles com um aparelho superior aos nossos, dizendo que era cópia de um que tinham construído antes dos nossos. [...]

O que diriam Edison, Graham Bell ou Marconi se, depois que apresentaram em público a lâmpada elétrica, o telefone e o telégrafo sem fios, um outro inventor se apresentasse com uma melhor lâmpada elétrica, telefone ou aparelho de telefonia sem fios dizendo que os tinha construído antes deles?! [...]

A quem a humanidade deve a navegação aérea pelo mais pesado que o ar? Às experiências dos irmãos Wright, feitas às escondidas (eles são os próprios a dizer que fizeram todo o possível para que não transpirasse nada dos resultados de suas experiências) e que estavam tão ignoradas no mundo, [...] ou é aos Farman, Bleriot e a mim que fizemos todas as nossas demonstrações diante de comissões científicas e em plena luz do sol?”

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