Alagoas

Após passar 32 dias preso sem saber o motivo, idoso morre ao deixar penitenciária em Maceió

Eberth Lins | 26/09/21 - 15h00 - Atualizado em 26/09/21 - 15h01
Cícero Maurício era agricultor e, segundo o advogado, foi preso sem saber o motivo | Foto: Cortesia ao TNH1

Familiares do idoso Cícero Maurício da Silva, que morreu após passar 32 dias preso e sem contato com qualquer pessoa próxima, vão acionar a justiça contra o Estado. Morador da Barra de São Miguel, no litoral sul de Alagoas, o idoso tinha 63 anos e foi preso enquanto tentava tirar uma nova carteira de identidade no Instituto de Identificação em Maceió, no dia 23 de agosto. "Meu pai cuidava do meu irmão mais velho, que é especial, e foi renovar o documento para manter o benefício. Quando estava lá, a mulher que fazia o atendimento pediu que aguardasse um pouco, até que voltou com três policiais que o levaram à Central de Flagrantes. Minha irmã caçula, a última que o viu com vida, acompanhou tudo. Foi um grande susto", contou Rosana Alves, uma dos três filhos deixados pelo idoso. "Amanhã [segunda-feira, 27] vamos nos reunir com o advogado para saber quais os próximos passos. Meu pai passou 32 dias preso, sem saber o porquê estava preso e sem poder ter contato com ninguém próximo. Não sabemos o que ele passou enquanto esteve lá dentro", disse ela ao TNH1, neste domingo, 26.

O idoso sofreu um infarto e morreu na tarde dessa sexta-feira, 24, em frente ao Sistema Penitenciário, no bairro Cidade Universitária, minutos após deixar uma unidade carcerária. A ordem para soltura imediata do idoso, no entanto, foi datada para o dia 23, mas ele não conseguiu deixar a prisão por conta da greve dos policiais penais. "O advogado foi até o presídio para buscá-lo, mas não conseguiu sequer falar com ele por conta de uma greve. No dia seguinte, não pudemos ir até lá, mas enviamos um Uber que o estava aguardando. Quando o motorista se identificou, ele logo se emocionou e disse que estava passando mal. Ele ainda foi socorrido por umas enfermeiras e o médico do presídio, mas não resistiu e morreu", contou a filha ainda muito abalada.

"Em 2008, morávamos na Massagueira e meu pai trabalhava vendendo terrenos, mas teve um tempo que ele se afastou e deixou esse trabalho na mão de terceiros. Quando retomou, estava uma grande confusão, porque havia casos de um mesmo terreno vendido para mais de uma pessoa. Nós nos desfizemos de tudo que tínhamos, vendemos carro, casa e compensamos quem tinha sido lesado. Nunca nos passou pela cabeça que havia um mandado contra ele, se soubéssemos ele teria se apresentado", contou.

Prisão ilegal -  Para o advogado da família, Gilmar Júnior, a decisão que decretou a prisão do idoso é ilegal. "O processo contra ele está prescrito, inclusive já saiu a sentença extinguindo a punibilidade do senhor Cícero. Além do mais, ele era cuidador de uma pessoa com deficiência, e o STF já decidiu que nesses casos as pessoas, se condenadas, devem ficar, pelo menos, em regime domiciliar.

Infarto fulminante -  O advogado atribuiu o infarto à euforia do idoso para rever a família. “Durante todo o tempo  em que ele esteve preso, a defesa não conseguiu ter acesso para explicar ao senhor Cícero o que estava acontecendo, ele não sabia porque estava lá. Era um homem idoso analfabeto, hipertenso e tinha diabetes, uma pessoa que sequer imaginava os motivos da prisão e muito menos quando ia sair, até que quando aconteceu ele ficou muito eufórico e acabou tendo um infarto fulminante. Conversei com as filhas e vamos pedir a devida indenização", disse Gilmar Júnior.