O júri popular que julga o caso do menino Rhavy Abraão Alves de Lima, encontrado morto em Maceió, ouviu testemunhas que relataram agressões e o comportamento isolado da mãe e do padrasto, que estão sendo acusados de homicídio qualificado.
As testemunhas mencionaram o uso de drogas pelo casal e relataram episódios de violência contra a criança, além de descreverem a situação de descaso e a falta de cuidados adequados com Rhavy antes de sua morte.
O Ministério Público busca a condenação dos réus com base em três qualificadoras, e o julgamento continua com os argumentos das defesas, enquanto a comunidade aguarda um desfecho para o caso que chocou a região.
O júri popular do caso Rhavy Abraão Alves de Lima, menino de dois anos encontrado morto em Riacho Doce, em Maceió, ocorrido em maio de 2025, ouviu mais três testemunhas no começo da tarde desta segunda-feira, 19. Estão no banco dos réus do tribunal Nicole Maria de Lima Braga, mãe da criança, e Manoel Pedro Tavares de Souza, padrasto do menino Rhavy.
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O juiz Geraldo Amorim, da 9ª Vara Criminal de Maceió, conduz o júri, que acontece no Fórum da Capital, no Barro Duro, em Maceió.
Williams da Silva Braga, testemunha arrolada pelo Ministério Público do Estado, afirmou que ouvia relatos de agressões e chegou a citar o caso de uma suposta cola nos olhos do menino.
"As crianças viviam muito soltas na rua. E os vizinhos diziam que ela batia muito neles. Eu nunca vi nenhuma agressão, só me contaram. Eles iam ao mercadinho e eu vi o olhinho dele vermelho. Então eu perguntei o que foi e ela disse que ele mesmo tinha colado o olho. Questionei sobre não ter cola na mão dele e ele disse que não sabia explicar, mas achava que ele mesmo tinha colado o olho".
Ele disse que o casal era muito isolado, não muito sociável, e afirmou que ambos eram usuários de drogas: maconha e cocaína.
"No dia da cola estavam lúcidos, mas, na noite anterior ao crime, os dois estavam bebendo. Postaram nas redes sociais. Eles estavam com uma garrafinha de vodka e colocaram até uma luz de boate e tinha música", relatou Williams.
"Ele, o Peu, disse que estava dormindo e o Levi foi acordá-lo e dizer que o Ravy estava estranho, foi o que ele me falou". No sepultamento a Nicole estava chorando. "Ela pedia perdão ao Ravy e à mãe. E depois que somos de lá ela ficou normal". Falas do Williams.
Respondendo à promotora de Justiça Adilza de Freitas, ele disse que a criança estava com os dois olhos colados e reafirmou a fala da mãe.
A testemunha contou que é usuária e disse que pegava droga com os réus: uma vez com Pedro (Peu) e a segunda com a Nicole. "Porque liguei para o telefone dele e ela atendeu e disse que ele estava dormindo, aí ela despachou. Na terceira vez, já perto de uma hora da manhã, eu peguei com ele que já tinha acordado".
Sobre a morte do menino, a testemunha comentou: "Após alguns dias, a própria Nicole disse não acreditar que tinha sido o Peu, disse a todo mundo que acreditava ter sido uma terceira pessoa que pulava o muro. Mas, eles tinham um cachorro muito bravo, um rottweiler. [...] Um vizinho disse, quando ela morava na outra casa: 'Oxe, eu canso de ver a mãe batendo no Ravy'".
Valéria Costa Lima, avó materna de Rhavy, afirmou que Pedro falava pouco com o restante da família e vivia isolado.
"Só vou falar o que sei porque não morava com ela, só passei dois meses lá. Ele mal falava, o que era meu genro, só ficava no quarto. Ela tinha três crianças e minha filha deixava os três comigo A única coisa que eu achava estranho era ele sem falar com a gente, mas nunca presenciei ele maltratando a criança não", disse a mãe da ré.
O magistrado perguntou como era o relacionamento do padrasto com Rhavy. "Doutor, ele ficava sempre no quarto, quando a minha filha chegava, ele saía do quarto, mas nunca vi fazendo nada de errado com eles".
A avó disse que a filha trabalhava como garçonete no Mirante da Sereia "mas nesse dia ela não foi". Disse que ela pegou umas roupas e foi lavar na casa de uma irmã e, de lá, teria ido à academia.
"A minha filha disse que estava tudo normal um dia antes, e que no dia da morte ela saiu, deu comida a ele e colocou os três pra dormir".
O tempo todo ela informa nunca ter visto o ex-genro fazendo nada contra a criança, mesmo assim, afirma que acredita ter sido ele o autor.
Marilza Silva, a terceira testemunha da tarde, falou: "O que a mãe contou pra mim foi que ele estava brincando com os irmãos na sala, que Rhavy tropeçou no tapete e bateu com a cabeça no chão".
Marilza foi questionada se manteve contato com a ré após o enterro. "Não, somente no cemitério pedindo perdão ao filho. E depois, quando voltou, ela ficou mostrando a foto da criança, como ela estava no IML (Instituto Médico Legal) e eu achei um absurdo. Ela gritou na hora do enterro, mas depois ela ficou normal".
"Quando ela morava na outra casa, eu já vi a mãe dando na criança, batendo nele e puxando no braço e botando pra dentro", relatou Marilza.
Sobre o réu, a testemunha disse: "Nunca vi o réu e nunca soube que ele tinha ciúme da criança, pois estavam sempre juntos".
A promotora perguntou se ela sabia sobre o inchaço na cabeça de Rhavy. "Soube, a mãe me disse que a criança caiu da cama. A mãe me disse que a criança tinha caído, ela tinha dado refrigerante a ele e botado pra dormir. Pra mim, ela foi um péssima mãe, pra quem tinha perdido um filho. Porque, logo em seguida, ela estava lá com a turminha dela e parecia normal".
As falas foram compartilhadas pela assessoria de comunicação do Ministério Público do Estado, que acompanha o júri presencialmente.
O julgamento está em andamento e seguirá ao longo do dia com os posicionamentos das defesas dos réus.
O caso
Rhavy Abraão Alves de Lima, de dois anos, foi encontrado morto com sinais de violência no Povoado Boca do Rio, na Garça Torta, em Maceió, em 13 de maio de 2025.
No dia em que a morte do menino foi registrada, Nicole havia abordado uma viatura da Polícia Militar para dizer que o filho precisava de socorro. A Polícia Militar foi até a casa, encontrou a criança sem sinais vitais e chamou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que confirmou o óbito e localizou múltiplos hematomas no corpo do menino.
No dia 14 de maio de 2025, o delegado delegado Emanuel Rodrigues, da Unidade de Atendimento de Local de Crime (UALC), da Polícia Civil de Alagoas, divulgou que o corpo de Rhavy apresentava uma lesão de 12 por 8 centímetros na região da coluna, o que provocou a morte por hemorragia hepática.
O Ministério Público do Estado de Alagoas defende a condenação da mãe e do padrasto por homicídio com as três qualificadoras: a motivação do crime, o meio cruel praticado e o uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
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