Cidade de 1,6 mil anos encontrada no Egito revela como viviam antigas comunidades cristãs

Publicado em 13/07/2026, às 21h11
Ministério do Turismo e Antiguidades
Ministério do Turismo e Antiguidades

Por Galileu

Arqueólogos descobriram uma cidade cristã bizantina de 1,6 mil anos no Oásis de Dakhla, Egito, que inclui uma basílica e evidências da vida cotidiana, refletindo a presença de comunidades cristãs na região durante o século 4 d.C.

Os achados incluem utensílios domésticos, moedas de ouro e cerca de 200 óstracos com inscrições em grego e copta, que oferecem insights sobre a economia e a vida social da época.

As escavações revelaram um assentamento urbano planejado e a importância da basílica, destacando a transformação religiosa do Egito sob o Império Bizantino, com planos para mais estudos sobre a utilização das moedas encontradas.

Resumo gerado por IA

Arqueólogos descobriram uma cidade cristã bizantina de aproximadamente 1,6 mil anos enterrada sob as areias do Oásis de Dakhla, no deserto ocidental do Egito. O assentamento, datado do século 4 d.C., preserva ruas planejadas, grandes residências de tijolos de barro, torres de vigia, uma fortaleza e uma basílica cristã, além de centenas de objetos que ajudam a reconstruir a rotina de seus antigos moradores.

Entre os achados estão utensílios domésticos, fornos de panificação, pedras de moagem de grãos, recipientes para óleo e perfumes, lâmpadas, moedas de bronze e ouro e cerca de 200 óstracos, fragmentos de cerâmica utilizados como suporte para escrita, contendo recibos, correspondências e anotações em grego e copta.

Segundo o Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, em comunicado, o traçado urbano indica que o assentamento foi cuidadosamente planejado. As vias principais seguem o eixo norte-sul, enquanto ruas menores cruzam a cidade no sentido leste-oeste, formando pequenas praças e áreas abertas.

Um dos destaques da escavação é uma igreja cristã construída em meados do século 4, período em que o cristianismo se consolidava como religião oficial do Império Romano. Ao redor dela, os pesquisadores identificaram casas amplas que provavelmente possuíam tetos abobadados, além de duas torres de vigilância e uma fortaleza cercada por muralhas espessas.

Mahmoud Massoud, responsável pela arqueologia da missão, afirma que a basílica representa um dos edifícios mais importantes do complexo, reforçando a presença de comunidades cristãs estabelecidas no oásis durante o período bizantino.

Um retrato da vida cotidiana

Mais do que grandes construções, o sítio chama atenção pelos vestígios da vida comum. Os arqueólogos encontraram evidências de atividades domésticas e de produção de alimentos, incluindo um forno para assar pão e mós utilizadas para transformar grãos em farinha. Também foram recuperados recipientes cerâmicos, frascos de óleo e perfume e diversas lâmpadas.

Uma das descobertas mais relevantes, segundo Zahran Mahdi, diretor das escavações no setor de antiguidades islâmicas e coptas, é o conjunto de aproximadamente 200 óstracos. Os fragmentos registram aspectos administrativos e cotidianos da comunidade, com inscrições em grego e copta que incluem recibos, correspondências e anotações rotineiras. Esses documentos improvisados funcionavam como uma espécie de papel da Antiguidade e podem oferecer informações valiosas sobre economia, comércio, impostos e relações sociais da população local.

Moedas de ouro levantam novas questões

Entre os objetos encontrados também estão moedas de bronze cunhadas durante o período bizantino e moedas de ouro datadas do reinado do imperador romano Constâncio II (337–361 d.C.), filho de Constantino, o Grande, governante que ficou conhecido por legalizar o cristianismo e tornar pública sua conversão à nova fé.

"A descoberta das moedas de ouro é significativa, pois elas são raras em Dakhla, e levanta questões sobre propriedade, status e para que eram usadas", afirma Colin Hope, arqueólogo da Universidade Monash e especialista no Oásis de Dakhla que não participou das escavações, ao The Art Newspaper. "O assentamento era claramente agrícola, então como um ocupante adquiriu as moedas? Elas eram usadas em transações locais?"

"A igreja é importante, pois é claramente do século 4, e não há muitas tão bem preservadas dessa época, embora Dakhla preserve algumas, algumas muito maiores e mais decoradas", acrescenta o pesquisador. "Dos séculos 1 ao 3, Dakhla vivenciou uma atividade em escala sem precedentes. No século 4, a quantidade de atividade pode ter diminuído, mas ainda havia muitos sítios arqueológicos naquela época e nos séculos seguintes, quando os ocupantes eram em sua maioria cristãos", explicou.

Um Egito cristão

Embora o Egito seja frequentemente associado aos faraós e às pirâmides, a cidade pertence a um período muito posterior da história egípcia. Após a conquista de Alexandre, o Grande, no século 4 a.C., o território passou para a dinastia ptolomaica e, posteriormente, tornou-se uma província do Império Romano. Quando o império se dividiu, a região permaneceu sob domínio da porção oriental, conhecida atualmente como Império Bizantino.

Foi justamente nesse período que o cristianismo transformou a paisagem do Egito. A partir dos séculos 4 e5, igrejas monumentais, mosteiros e santuários passaram a ocupar o espaço antes marcado por templos da religião faraônica. A basílica descoberta em Dakhla representa um testemunho desse processo de mudança religiosa e cultural.

Combinando arquitetura preservada, documentos escritos e objetos do cotidiano, o novo sítio arqueológico oferece um raro retrato da vida em uma comunidade cristã instalada em pleno deserto egípcio há cerca de 1.600 anos.

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