A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, foi causada por cardiomiopatia hipertrófica, uma condição genética que pode levar à morte súbita em atletas jovens, evidenciando a necessidade de maior conscientização sobre essa doença.
A cardiomiopatia hipertrófica afeta cerca de 20 milhões de pessoas globalmente, sendo mais comum em homens e frequentemente assintomática, o que torna seu diagnóstico precoce um desafio crucial para a saúde de jovens atletas.
Especialistas recomendam exames regulares e acompanhamento médico para atletas, além de alertar sobre os riscos do uso de esteroides anabolizantes, que podem agravar a condição cardíaca, e defendem campanhas de conscientização nas redes sociais para combater a desinformação sobre essas substâncias.
A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos, foi provocada por uma doença chamada cardiomiopatia hipertrófica, considerada uma das principais causas de morte súbita em atletas jovens. O atestado de óbito cita a condição associada a edema pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.
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De origem genética na maior parte dos casos, a cardiomiopatia hipertrófica provoca o espessamento anormal do músculo do coração. Com isso, o órgão pode ficar mais rígido, o que dificulta a circulação sanguínea e altera impulsos elétricos responsáveis pelos batimentos cardíacos. Em situações de esforço intenso, essas alterações podem desencadear arritmias graves e levar à parada cardiorrespiratória.
Segundo dados da Diretriz Sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica, divulgados em 2024, a doença afeta cerca de 20 milhões de pessoas no mundo, sendo mais frequente em homens. A condição também costuma atingir indivíduos mais jovens e é considerada uma das principais causas de morte súbita em atletas. Apesar disso, cerca de 90% dos casos são assintomáticos.
O diagnóstico costuma ser feito por exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e ressonância magnética cardíaca. Para familiares de pacientes diagnosticados, a recomendação médica é que também realizem acompanhamento preventivo, já que a doença possui forte componente hereditário.
Presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Antonio Carlos Avanza explica que a cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética relativamente comum, mas silenciosa, já que muitos pacientes não apresentam sintomas ou alterações nos exames iniciais. Por isso, em muitos casos, a primeira manifestação no corpo acaba sendo grave.
"O principal sinal de alerta é um desmaio, o que a gente chama de red flag, uma síncope. Geralmente é um quadro que, quando não diagnosticado, ele abre com morte súbita, como foi o caso dele (Ganley). Quando ela já está no estágio avançado, temos muitos diagnósticos falta de ar, palpitação, uma arritmia", afirma.
Jovens atletas e praticantes de exercícios intensos estão mais suscetíveis à cardiomiopatia hipertrófica. "É a principal causa de morte de jovens antes antes dos 35 anos", diz o médico.
Anabolizantes e cardiomiopatia hipertrófica
Além da predisposição genética, o cardiologista alerta que fatores externos podem agravar o quadro cardíaco. Entre eles está o uso indiscriminado de esteroides anabolizantes e outras substâncias voltadas ao ganho de performance e massa muscular, prática comum em parte do universo do fisiculturismo e da musculação de alta intensidade. No entanto, não há confirmação de que Ganley fazia uso dessas substâncias.
Sobre a relação entre exercícios intensos, esteroides e saúde cardiovascular, Avanza afirma que "o uso de esteroides anabolizantes às vezes resulta em uma hipertrofia de ventrículo esquerdo e pode piorar o quadro de uma cardiopatia hipertrófica pré-existente".
Diretor na Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Jorge Zarur Neto diz que avaliações médicas regulares e acompanhamentos especializados para atletas e praticantes de exercícios de alta intensidade são indispensáveis. Para o cardiologista, no entanto, não existe acompanhamento capaz de garantir segurança para quem usa esteroides anabolizantes.
"Estão abusando muito de anabolizantes no Brasil. Você não sabe de onde vem, quem fabrica, o grau de pureza. Você não sabe um monte de coisa. E o anabolizante aumenta a pressão arterial. Ele faz a hipertrofia dos músculos periféricos, da musculatura que eu quero que apareça, mas também pode, em algumas pessoas, fazer hipertrofia da musculatura cardíaca", alerta.
Zarur defende campanhas mais fortes contra a normalização dessas substâncias nas redes sociais. "As sociedades médicas precisam vir mais forte na rede social para combater a desinformação. A rede social está trazendo propagandeando muito esse culto ao corpo perfeito e propagandeando muito o uso de esteroides anabolizantes. E isso me preocupa", conclui.
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