Por que adolescentes escutam mais os amigos do que os pais? A ciência explica

Publicado em 20/05/2026, às 14h19
Foto: Magnific
Foto: Magnific

Por Revista Crescer

Um estudo da Universidade de Stanford revela que, durante a adolescência, o cérebro dos jovens prioriza a atenção a vozes desconhecidas em detrimento das vozes dos pais, refletindo um processo natural de amadurecimento social.

A pesquisa mostra que, enquanto crianças, a voz da mãe ativa áreas do cérebro ligadas à recompensa, mas essa resposta se inverte a partir dos 13 anos, quando os adolescentes se tornam mais sensíveis a interações sociais fora do núcleo familiar.

Especialistas sugerem que os pais compreendam essa mudança como parte do desenvolvimento normal, incentivando uma comunicação empática e respeitosa, o que pode fortalecer o vínculo familiar durante essa fase desafiadora.

Resumo gerado por IA

Quando são crianças, tudo que os filhos mais querem é a atenção, cuidado e carinho dos pais. Mas, quando chega a adolescência, o cenário muda. Os amigos viram o centro de tudo: são os conselheiros, confidentes e as pessoas com quem eles mais querem estar.

Mas, existe uma explicação científica para isso: é menos uma questão de rejeição e mais sobre as mudanças cerebrais que ocorrem nessa fase da vida.

Um estudo realizado pela Universidade de Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, e publicado no Journal of Neuroscience, analisou imagens cerebrais de crianças e adolescentes enquanto eles ouviam gravações com a voz da mãe dizendo três palavras sem sentido e, depois, a voz de um desconhecido repetindo as mesmas palavras.

O resultado observado chamou a atenção: quando crianças mais novas — de até 12 anos — ouvem a voz da mãe, as áreas do cérebro ligadas à recompensa apresentam uma resposta mais intensa do que quando elas escutam vozes desconhecidas.

Mas, oposto acontece a partir dos 13 anos. As reações cerebrais dos adolescentes demonstram maior atividade quando são apresentados a uma voz desconhecido, do que quando ouvem a voz da própria mãe.

O mesmo foi notado no córtex pré-frontal ventromedial, região do cérebro responsável por ajudar a definir quais informações sociais são mais importantes. Segundo os pesquisadores, isso é um sinal do amadurecimento cerebral e do desenvolvimento das habilidades sociais.

Nessa fase, as vozes dos amigos e de outras pessoas do convívio dos adolescentes passam a despertar mais interesse.


“Quando adolescente, você não sabe que está fazendo isso. Você está apenas sendo você: tem seus amigos e quer passar tempo com eles. Sua mente está cada vez mais sensível e atraída por eles”, explica o pesquisador Daniel Abrams, um dos autores do estudo.


O neurocientista Vinod Menon, que também estava envolvido nas pesquisas, concorda que é algo natural dessa fase. “Quando eles parecem estar se rebelando por não ouvirem seus pais, é porque estão programados para prestar mais atenção às vozes fora de casa”, diz.

'O adolescente não está desligando os pais de propósito'

De acordo com o psicólogo, mestre e doutor pela PUC-RJ, André Machado, essa "virada" durante a adolescência é um processo adaptativo normal. "O cérebro do adolescente se reprograma para priorizar estímulos novos e sociais fora da família, o que prepara o jovem para a independência, a formação de identidade e o estabelecimento de laços com pares, uma etapa essencial do desenvolvimento humano", afirma.


Muitos pais interpretam esse afastamento como rejeição. Mas, para o especialista, não é preciso encarar esse momento dessa forma. "O adolescente não está desligando os pais de propósito. Seu cérebro está simplesmente se sintonizando com o mundo social mais amplo, exatamente como foi programado para fazer nessa fase", destaca.


"Na adolescência, sua mente está cada vez mais sensível e atraída pelos amigos. Entender isso como desenvolvimento, e não como desamor, reduz a frustração e ajuda os pais a manterem o vínculo de forma mais tranquila e empática", acrescenta.

Segundo ele, o estudo pode ajudar os pais a enfretarem a adolescência dos filhos de uma forma mais leve. "Ele traz evidência científica concreta para um fenômeno que todo mundo já sentiu em casa, transformando um problema comportamental em uma etapa biológica normal do desenvolvimento", afirma.


"Isso tira o peso da culpa tanto dos pais, que se perguntam o que fizeram de errado, quanto dos adolescentes, que não entendem por que não conseguem se conectar com os pais. O grande mérito é mostrar que a adolescência não é só uma fase difícil, mas um período de reorientação social saudável que prepara o jovem para a vida adulta."


Compreender isso pode contribuir para que os pais adaptem a forma de se relacionar com os filhos, o que, no final, fortalece o vínculo a longo prazo. "Recomendo que todo pai e mãe leia o resumo do estudo. Ajuda a respirar mais aliviado e a navegar essa fase com mais leveza e sabedoria", destaca.

Como estreitar o vínculo entre pais e adolescentes?

Nem sempre é fácil estabelecer uma boa comunicação com adolescentes. Mas, André Machado separou algumas dicas que podem estreitar os vínculos entre pais e filhos durante essa fase. Confira:

  • Pratique a escuta ativa e sem julgamento imediato, perguntando com curiosidade genuína sobre o dia, os amigos e os interesses do filho. Mostre interesse real pelo mundo dele. Isso faz com que ele se sinta mais aberto para compartilhar;
  • Evite interromper as conversas com soluções ou críticas;
  • Momentos de conexão leves e sem pressão, como jantares familiares, passeios ou atividades compartilhadas sem celular, ajudam mais do que conversas forçadas;
  • Respeite a autonomia e a privacidade, mostrando confiança, mas permanecendo disponível. O adolescente precisa sentir que pode voltar para casa como base segura;
  • Pratique a comunicação empática, usando frases como: "eu entendo que você esteja se sentindo", em vez de acusações ou sermões.

O que pode afastar os adolescentes ainda mais?

Por outro lado, alguns comportamentos podem afastar ainda mais os adolescentes dos pais. "Essas atitudes reforçam a sensação de que em casa não tem espaço para quem ele está se tornando", afirma o psicólogo. Veja as dicas do que não fazer, segundo André Machado:

  • NÃO tome o comportamento como rejeição pessoal e reaja com raiva, culpa ou mágoa visível
  • NÃO critique constantemente os amigos, o jeito de se vestir, os hobbies ou as opiniões
  • NÃO invada a privacidade de forma excessiva, como ler mensagens ou monitorar redes o tempo todo
  • NÃO seja controlador ou autoritário demais
  • NÃO desqualifique os sentimentos do filho
  • NÃO compare seu filho com irmãos e outros adolescentes
  • NÃO force conversas longas ou cobranças no momento errado, como quando ele está cansado ou irritado

Gostou? Compartilhe